São Francisco de Sales: Um pouco de história

Por Zezé Weiss

Dezembro é sempre tempo de voltar a São Francisco de Sales, bucólica cidadezinha de cerca de sete mil almas, localizada no Triângulo Mineiro onde, há pouco mais de seis décadas, minha avó Maria Feliciana enterrou o meu umbigo numa barranca calorenta do Rio Grande, num lugar chamado Porto Mansinho, distante umas boas léguas do povoado que o povo da roça chamava de São Chico, na era simples do meu nascimento.

Bem mais perto da vila, a cerca de sete quilômetros, e a hora e meia de caminhada para as missas da minha infância em companhia da tia Debraila, grande rezadeira, fica a Fazenda Aldeia dos Índios, pertencente em vida a meus avós maternos, Jerônimo Pedro Villas Bôas e Enézia Cândida de Oliveira, filha da índia Ritta, descendente direta do povo Kayapó (Pataxó Meridional, alguns dizem), ocupante daquele pedaço de chão no tempo do contato com os não originários.

Registra a história que o lugar onde São Francisco de Sales começou fica bem no encontro do Rio Verde com o Rio Grande, onde hoje vivem a prima Vanda e o primo Jerônimo, imbatíveis no preparo da deliciosa geleia de mocotó, esbranquiçada no muque, dos criativos palitos de mandioca ralada, e dos generosos tachos de pamonha com queijo de Minas.

 

E é também ali, a pouco mais de uma centena de metros, que fica o Porto Brasil, onde uma balsa estilosa faz a passagem obrigatória de mais de um quilômetro de rio para o município de Riolândia, no estado de São Paulo. Bem na saída da balsa fica a Prainha, o principal ponto turístico de São Francisco, com opções para quem gosta de pesca e esportes aquáticos.

Mas a São Francisco eu vou mesmo é pra visitar primos e primas – o João Neto (o primo mais velho), a Maria Olímpia, a Vanda, o Jerominho, a Idelcina e suas descendências, para ouvir dos mais antigos relatos sobre os meus pais, Odete e Vico, ou saber mais da história desse pedaço de chão onde, no ano da graça de 1825, um padre de nome Jerônimo Macedo rezou a primeira missa e do qual  meu tio Delpides Vilas Bôas foi o primeiro intendente, entre os anos de 1963 e 1964.

Zezé Weiss – Jornalista.

 

 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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