De Lula para Marisa: Um  comovente  discurso de despedida – 

Queridos companheiros, queridas companheiras que vieram prestar sua última homenagem à companheira Marisa,

Eu tinha dito que não falaria porque a preocupação de não [conseguir] falar e chorar é muito grande. Mas eu acho que já chorei uma quantidade de lágrimas que daria para encher a represa da Cantareira por dois anos.

Eu queria dar uma palavra de agradecimento a cada mulher e a cada homem, cada companheiro, cada companheira, cada parente da Marisa, cada parente meu, e dizer ao companheiro Rafael, presidente desse Sindicato [dos Metalúrgicos de São Bernardo] que minha vida não seria um décimo do que é se não fosse esse Sindicato, se não fosse esse salão.

Vocês não têm dimensão da representatividade desse espaço  que nós estamos tem na minha vida. Aqui eu aprendi a falar. Aqui eu perdi o medo do microfone.  Aqui nós decidimos combater a ditadura militar. Aqui nós criamos um novo sindicalismo. Aqui nós pensamos em criar a CUT. Aqui nós pensamos criar o PT.  Aqui nós pensamos todas as greves feitas por essa categoria. Daqui saiu a inspiração para que muitos sindicatos se transformassem num sindicato combativo.

Aqui eu conheci a Marisa. Aqui eu casei com a Marisa. (…) Nos casamos em 1975. Conheci a Marisa em 1973 e aqui nós criamos nossos filhos.  Aqui a Marisa sustentou a barra para que eu me transformasse no que me transformei. Eu sou o resultado das consciência política dos trabalhadores brasileiros. Na hora que ela evolui, eu evoluo. Eu sou o resultado das greves, mas também sou o resultado de uma menina que parecia frágil  que me deu a garantia que eu podia viajar para  ajudar a criar [um] sindicalismo combativo.  Que ela segurava a barra. Ela segurava a barra e nunca reclamou.

O meu primeiro filho, que é o Fábio, do meu casamento com ela, porque quando eu casei ela já tinha o Marcos [de] dois anos e pouco (…). Eu não sei se vocês sabem, mas a Marisa ficou viúva novinha, porque assassinaram o marido dela que estava dirigindo um táxi. Logo veio o Fábio, depois veio o Sandro, depois veio o Luiz Cláudio. E eu nunca estive presente. Por causa do PT. Por causa da CUT. Por causa das greves.

Eu lembro que quando o Fábio nasceu a ente estava pescando aqui na represa Billings, lá no montanhão (…). Era mais ou menos 18 horas, ela estava com água no pé do umbigo tentando pegar uma tilápia de uns 10 cm, pra gente comer. A gente assava e comia na beira da represa. Era um domingo e nós fomos embora pra casa. Fomos tomar banho.  Quando foi umas 6h30 da manhã, estourou a bolsa. Ela me chamou pra levar ela ao médico. Eu levei no PS de São Bernardo. Só que eu tinha uma reunião da diretoria do Sindicato. Deixei a Marisa lá, e só fui lembrar umas 11 horas da manhã. Quando cheguei em casa, já tinha nascido o Fábio.

O Sandro, eu fui pra Bahia no Congresso do Sindicato dos Químicos. Ele adiantou um mês e pouco, houve uma antecipação no parto. Eu estava no Congresso dos Petroleiros quando, em 1978, no dia 15 de julho, eu recebo a notícia de que a Marisa tinha tido o Sandro. Ele foi antecipado alguns dias e eu não tive como comemorar. Era 9h, eu fui no bar, no hotel da Bahia. Tomei um conhaque sozinho e comemorei o nascimento do Sandro.

Aí nós combinamos que no próximo filho eu ia cuidar de ver o parto. Eu estava com ela em Cuba, o Sandro era pequeno.  Agente foi visitar um show lá em Cuba, no Tropicana, e não pudemos entrar por causa do Sandro. Aí nós voltamos e, por obra de Deus, nós fizemos o companheiro Luiz Cláudio (…).  Lá em Cuba eu descobri que o Sandro tinha um problema no coração. Por conta dessa descoberta, nós viemos aqui pra São Paulo e o Dr. [Adib] Jatene operou a aorta dele [e colocou] um cano que até hoje está funcionando bem.

Mas o que é importante é que eu tinha assumido o compromisso com ela que eu ia assistir o parto do Luiz Claudio. Apareceu uma companheira , ex-militante do Partidão, Albertina de Souza,  uma médica excepcional, que falou pra Marisa: “Eu quero fazer o seu parto gratuitamente. É um presente meu pra você e pro Lula.” Aí eu fui  na Clínica São Luiz.

Era mais ou menos 17h30. Quando estou lá na Clínica, eu recebo um telefonema do Djalma Bonn (…). Ele era presidente do PT e falou: “Lula, o PMDB quer uma reunião urgente. porque quer discutir [uma] aliança aqui em São Paulo. Eu, mais uma vez, pedi desculpas à Marisa, e falei: “Meu amor, ainda não é dessa vez”, e fui fazer a reunião.  Quando voltei à meia noite no hospital já tinha nascido o companheiro Luiz Cláudio.  Então, depois disso (…) às vezes eu tenho culpa, às vezes eu acho que é assim mesmo. Ela praticamente criou os filhos sozinha (…) Na verdade eu acho que ela foi mãe, foi pai, foi tia, foi avó, foi tudo. Porque ela cuidou de todos e nunca reclamou da vida.

A Marisa começou a trabalhar com 11 anos de idade como empregada doméstica. Era babá. Depois foi trabalhar na [fábrica de chocolates] Dulcora. Depois casou, perdeu o marido, ficou viúva e conheceu esse ser humano bonito – que sou eu – e casou (…). Faz 43 anos que eu brinco com a Marisa, todo ano, que ela acaba de ser eleita a mulher mais bem casada do mundo.

Nós tivemos uma vida extraordinária. Uma vida de muita compreensão porque eu tenho em mente que o casamento é o maior exercício de democracia que um ser humano pode fazer. É no casamento que você aprende a ceder. E tem que ceder todo dia. E tem que brigar todo dia para conquistar alguma coisa (…) E se você não tiver essa lógica de ceder todo dia, o casamento não dura muito (…).

Eu e a Marisa nunca brigamos. Eu já brigava muito no PT, no Sindicato. Quando eu chegava em casa, às vezes a Marisa queria brigar, mas eu falava: “Marisa, não adianta que eu não quero brigar.”  E não brigava. Eu aprendi de uma mãe analfabeta que me dizia: “Nunca levante a mão pra sua mulher. Ela é sua parceira, nunca levante a voz pra sua mulher.”  Eu não aprendi na universidade. Eu aprendi com uma mãe analfabeta como tratar a parceira da gente.

Pois bem, a Marisa se foi.  Eu (…) certamente sofro menos do que as pessoas que não acreditam em Deus, do que as pessoas que não acreditam em outro mundo, porque eu acredito em outra vida. E eu acho que ela vai [volar a nos] encontrar. Ela deixou aqui muita gente que ela gosta, (…) sobretudo os filhos dela, os netos dela, e eu [que] já estou bisavô.

E ela, certamente, vai encontrar figuras extraordinárias lá em cima (…) com a mãe dela, uma baixinha chamada Regineta, que morou comigo uns tempos, uma doçura, muito parecida com a Marisa. A dona Regineta levantava às cinco horas da manhã. A Marisa, não há nada desse mundo que fizesse a Marisa levantar depois das cinco.  Ela podia dormir às duas horas da manhã que às cinco horas a Marisa já está[va] de pé, fazendo alguma coisa. É a Regineta fiel. E eu penso que nós vivemos esse tempo todo vendo uma companheira humilde.

Quando eu fui eleito presidente, a Marisa era vítima de chacota. A direita dizia: “Será que ela vai conseguir limpar aquele vidro do Palácio da Alvorada? Será que ela vai ser ministra?  Será que ela dá conta do recado? ”  E eu dizia pra Marisa: ” Você não vai ser ministra, Marisa, porque a obra mais importante que a mulher de um presidente pode fazer é dar segurança para presidente não fazer bobagens [como] outros presidentes [já fizeram] nesse pais. [Mas] no fundo, no fundo, ela era mais do que uma ministra.

Eu ficava pensando… eu coloco a Marisa para ser ministra de alguma coisa, aí a imprensa começa a bater nela. Bate nela num canto e bate no Lula no outro. Bate nela num canto… não!  Em casa, a gente sentava, conversava, discutia, e [a opinião dela] tinha muito mais importância do que a dos ministros. A Marisa sempre dizia pra mim: “Oh, Lula, você não esqueça nunca de onde você veio e pra onde você vai voltar”.

Uma vez, e eu vou contar isso para terminar. Uma vez a gente estava jantando no Palácio do Alvorada e a Marisa começou a rir, começou a rir e eu não sabia do que a Marisa estava rindo, mas sabe quando a pessoa parece que vai morrer de rir? E ela disse então: “Sabe porque estou rindo, Lula? É porque esses companheiros que trabalham na cozinha e esses garçons nunca imaginaram nunca imaginaram que esse palácio fosse ter uma mulher de presidente que pedisse pra eles cozinharem pé de frango pra ela comer.

Isso mostrava a diferença de quem estava dentro do Palácio da Alvorada. E ela dizia pra mim: “Lula, a gente não pode fazer nada, nada mais do que o que a gente fez quando [você] não era presidente. Porque a gente não pode, por ser presidente, tentar utilizar como pretexto para ter um padrão de vida superior àquele que a gente tinha quando você era presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo.”

Eu tenho orgulho, tenho orgulho que a Marisa viajou comigo esse mundo inteiro – acho que nunca uma primeira-dama viajou 10% do que a Marisa viajou, e ela nunca me pediu $10 dólares pra comprar nada lá fora (…) A Marisa nunca me pediu um anel. A Marisa nunca me pediu um vestido. A única coisa que ela queria era me ver cuidar dos filhos. Ela se foi… Os filhos não precisam mais desse cuidado (…) agora eles é que vêm aqui cuidar de mim. Eu estou véinho, eles tem que cuidar.

Mas eu quero dizer que eu sou grato (…) pelo carinho que vocês [sempre] tiveram comigo. Não é pouco tempo que eu estou aqui, gente. Eu estou aqui desde 24 de abril de 1969. Fui presidente desde 24 de abril de 1975 (…).  Eu tenho consciência que sou o resultado de vocês. E tenho consciência de que, junto com vocês, essa galeguinha que parecia frágil, mas que quando ficava vermelha e falava grosso, metida medo em muita gente (…).

Então, de coração, muito obrigado a cada homem e a cada mulher que veio aqui hoje (…). Eu vou continuar agradecendo a Marisa até o dia em que eu não puder mais agradecer. O dia que eu morrer. E espero encontrar com ela, com esse mesmo vestido que eu escolhi para colocar nela, vermelho, pra mostrar que  [se] a gente não tinha medo do vermelho quando era vivo, não tem medo do vermelho quando morre.

Ela está com uma estrelinha do PT no seu vestido, e eu tenho orgulho dessa mulher [que] junto comigo (…) muitas vezes com a molecada dormindo no chão (…) [lá estava ela] e outras companheiras, na Praça da Matriz, vendendo camiseta, vendendo bandeira, pra construir um partido que a direita quer destruir.

Na verdade, Marisa morreu triste [por causa] da canalhice que fizeram com ela, [d]a imbecilidade e [d]a maldade que fizeram com ela. Eu tenho 71 anos. Não sei se Deus me levará em curto prazo. Eu acho que vou viver muito porque eu quero provar que os fascínoras  que levantaram leviandades com a Marisa tenham um dia a humildade de pedir desculpas a ela.

Eu digo todo dia: Se alguém tem medo nesse país, se alguém praticou corrupção nesse país, se alguém tem medo de ser preso, eu quero dizer o seguinte: esse que está enterrando a sua mulher hoje, não tem, porque eu tenho a consciência tranquila. E tenho certeza da consciência e do trabalho da minha mulher. E não sou eu que tenho que provar que sou inocente. Eles é que precisam provar que as mentiras que eles estão contando são verdadeiras.

Portanto, querida companheira Marisa, descanse em paz, porque o seu Lulinha Paz e Amor vai continuar brigando muito para defender a sua honra e a sua imagem.

Marisa Letícia Lula da Silva, ex-primeira dama do Brasil. Foto: Ricardo Stuckert

ANOTE AÍ:

Este foi o discurso pronunciado pelo ex-presidente Lula na cerimônia de despedida de sua companheira de 43 anos, Marisa Letícia Lula da Silva, no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo, na tarde do dia 4 de fevereiro de 2017.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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