Modesto da Silveira: Partiu um grande mestre, um grande democrata

Triste… muito triste.

Faleceu neste dia 22 de novembro, no Rio de Janeiro, um grande amigo, mestre que fortaleceu em mim a vontade de advogar em defesa das causas populares, um exemplo de ética e de advogado compromissado com os direitos humanos, o Dr Antônio Modesto da Silveira, o maior defensor de presos e perseguidos políticos durante a ditadura militar.

Tornou – se amigo de Chico Mendes e um dos seus apoiadores no Rio de Janeiro e,  através de Chico, meu amigo. Compromissado com as causas populares veio ao Acre onde atuou como assistente de acusação no “Caso Calado”, o líder seringueiro assassinado por policiais (condenados! ) para atender a interesses de fazendeiros.

O Brasil perdeu hoje, aos 89 anos, um grande brasileiro e os direitos humanos e a advocacia um de seus baluartes. De minha parte, minhas sinceras homenagens e meu agradecimento por tê – lo tido como amigo e mestre.

Para homenageá-lo, registro aqui o texto antológico que o Dr. Modesto enviou à jornalista Zezé Weiss, para o livro Vozes da Floresta, publicado pela Xapuri por ocasião dos 20 anos do assassinato do Chico Mendes:

Conheci o Chico Mendes pessoalmente, já perto do seu assassinato. A minha impressão sobre ele foi excelente, como um homem idealista, sério, sensível, inteligente. Essa impressão confirmou  as informações que eu já tinha sobre ele, que o colocavam à beira de um verdadeiro mito. 

Pouco depois do seu assassinato, em 1988, estava havendo uma sequência de assassinatos na área dos homens da floresta no Acre, o que parecia uma organização metódica, porque antes mesmo da morte de Chico Mendes já havia outros líderes da floresta assassinados de forma igualmente metódica. 

Chegou mesmo a haver uma listagem de outros líderes que deveriam morrer, não apenas de organizações sindicais, mas também daqueles que lhes davam alguma forma de apoio, como, por exemplo, na área religiosa. Foi nesse desespero de assistência que fui convidado pelas lideranças dos seringueiros para ir ao Acre, especialmente a Rio Branco e Xapuri.

O convite me foi feito por uma assessora desses movimentos, minha conhecida companheira de outras lutas sociais, Rosa Roldán. Aceitei o convite e fui com ela ao Acre, e fizemos um plano de defesa daqueles que estavam marcados para morrer.

Aí foi quando conheci e conversei pela primeira vez com muitas dessas lideranças, dentre as quais o Osmarino, Gomercindo, Júlio Barbosa, Raimundão, e mesmo a área religiosa que que lhes dava apoio humanístico – Dom Moacir Grecchi e outros.

A impressão que eu tive à época é de que o plano de assassinatos poderia ter uma abrangência muito maior, que pudesse envolver a própria devastação da Amazônia em geral, dentro da visão multinacional do lucro pelo lucro.

Nosso plano de defesa, com base na estratégia já adotada antes pelo Chico Mendes, foi o seguinte: entrevistamos os líderes ameaçados e pedimos que cada um deles informasse de onde vinha o perigo para a sua sobrevivência. 

Nesse plano, deveriam dizer os nomes dos suspeitos e eventualmente de seus executores, com detalhes dos fatos e motivações.  Feito isso, cópias seriam depositadas em entidades ou personalidades confiáveis e seguras. Caso alguma coisa acontecesse com o ameaçado, de imediato essas pessoas seriam profundamente investigadas.

Depois disso, não se fazia nenhum segredo dessa defesa preventiva. Poderiam e deveriam os líderes dar inteira e total publicidade ao plano, para desestimular os assassinos a qualquer ato criminoso.  É certo que tudo funcionou corretamente, porque depois disso nenhuma das lideranças já listadas para morrer veio a ser assassinada.

Parece que a morte do Chico inspirou todos nós a defender e preservar aqueles que viriam a ser seus verdadeiros herdeiros da luta pela defesa da Amazônia, com o máximo de justiça social possível.  Espero que dentre eles possam aparecer outros Chicos Mendes, que sejam capazes de continuar essa luta de preservação da Amazônia e dos ideais do Chico, cuja ocorrência é tão rara na história dos povos e do Brasil.

O nosso Chico foi uma bandeira de luta visível para todos os cidadãos patriotas, idealistas, enfim, todos os cidadãos de bem, uma bandeira que passou a ser visível, respeitável, capaz de liderar não só esses cidadãos no Brasil como em todo o mundo. 

A bandeirar do Chico não é só brasileira, ela é internacional.

Por último, quero contar uma historinha:

Quando vinha ao Rio, o Chico ficava na casa da Rosa Roldán. O Chico era muito inteligente, mas com um certo grau de ingenuidade seringueira.

Na sua última vinda, já perto do Natal, viu no teto do seu quarto um brilho de estrelas em constelação, sempre que apagava a luz. Na manhã seguinte, já não havia constelação no teto, havia apenas o teto liso e branco de qualquer apartamento.

À hora do café, questionou o fenômeno com sua amiga Rosa. Ela então foi com ele ao quarto e mostrou discretas estrelinhas, invisíveis à luz do dia, mas brilhantes no escuro.

Hoje podemos dizer que aquele teto invisível, apenas idealizado, pode ser tornar uma bela realidade, no escuro da noite de tantas mentes ignorantes. 

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ANOTE AÍ:

O grande advogado e político brasileiro, o filho de lavradores sem-terra que se tornou o incansável defensor da democracia e dos direitos humanos Antônio Modesto da Silveira nasceu em Uberaba, Minas Gerais, em  23 de Janeiro de 1927 e faleceu no Rio de Janeiro,  em 22 de novembro de 2016, aos 89 anos de idade.

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Gomercindo Rodrigues é advogado,  inscrito na OAB/AC sob o nº 1997

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