Por Ernesto Cardenal

“Ouve, Senhor, estes versos que te rezo
Ao contemplar a realidade em que vivo.
Maldito seja o sistema
que não deixa sonhar os poetas
Nem permite dizer a verdade
a quem pensa.
Serão seus dias de luto e de lamento,
Porque matou no Homem o mais digno.”

Maldito o sistema que não pratica a justiça
E persegue e tortura e encarcera a quem anuncia.
Terá que justificar sua conduta ante a história
E não encontrará nenhuma palavra de defesa.

Maldito seja o sistema que só procura a aparência de grandeza
Quando estão morrendo de fome os homens nas suas fronteiras;
Do mesmo modo que progrediu cairá,
Porque construiu seus alicerces
Sobre corpos vivos e sangues inocentes.

Maldito o sistema que tenta matar no homem a dimensão de transcendência
E coloca no seu lugar o “deus dinheiro” , o “deus sexo”, e “deus progresso”,
Destruir-se-á por dentro irremissivelmente,
Porque o coração do homem foi bem feito
E ninguém pode matar em nós
Esta sede de infinito que nos queima.

Feliz será, porém,
O homem que bebe água na fonte da praça junto ao povo,
Não terá motivos para se envergonhar de nada,
Nem terá que baixar seus olhos
Ante qualquer homem honesto.

Feliz o homem que a força de interiorizar
Se fez livre por dentro
E não se importa já com a denúncia dos fortes,
Serão seus dias como o trigo da terra.
Cheios de sol e esperança partilhada
E o seguirão os povos da terra.

Feliz o homem que não assiste a reuniões importantes
Nem acredita nos discursos do governo;
Feliz o homem que assim pensa,
Porque terá sempre tranqüila a sua consciência.
Mesmo que sofra a incompreensão e até o desprezo.

Ernesto Cardenal, poeta e sacerdote nicaraguense, morre aos 95 anos.’Ele nos deixou em paz absoluta, não sentiu dor’, confirmou à AFP Luz Marina Acosta, assessora de Cardenal por mais de 40 anos. Poeta sofreu uma parada cardíaca.

Por  Folha.uol.mundo.br ]

O poeta e sacerdote nicaraguense Ernesto Cardenal morreu neste domingo (1), aos 95 anos, de parada cardíaca, anunciou sua assessora.

“Ele nos deixou em paz absoluta, não sentiu dor”, confirmou à AFP Luz Marina Acosta, assessora de Cardenal por mais de 40 anos. O poeta deu entrada há dois dias no hospital, com dificuldade para respirar. No sábado (29), seus órgãos começaram a falhar.

Cardenal era um representante reconhecido da Teologia da Libertação e protagonista da Revolução Sandinista.

O célebre escritor de obras como “Hora Cero”, “El Evangelio de Solentiname” e “Oración por Marilyn Monroe e Otros Poemas” havia comemorado seus 95 anos em 25 de janeiro, rodeado pela família, com boa saúde e mergulhado na criação de novas obras. Luz Acosta comentou que o poeta disse neste sábado que estava “pronto”, antes de ficar inconsciente.

Logo após a morte de Cardenal, o governo de Daniel Ortega decretou três dias de luto nacional. “Foi um homem abençoado com dons e méritos que elevaram o nome da Nicarágua e seu próprio nome, desde suas contribuições para a cultura universal e a libertação da Nicarágua”, destacou o governo em carta assinada por Ortega e a mulher, a vice-presidente Rosario Murillo.

Ortega e Cardenal foram companheiros durante a luta guerrilheira da Frente Sandinista contra a ditadura somozista. Mais tarde, Cardenal distanciou-se do líder sandinista por diferenças sobre sua condução política.

A escritora e poetisa nicaraguense Gioconda Belli despediu-se com uma mensagem em que disse que Cardenal partiu “depois de uma vida de entrega à poesia e à luta pela liberdade e justiça”.

A morte do poeta acontece um ano depois que o Papa Francisco revogou a proibição de administrar os sacramentos que aplicou contra Cardenal o Papa João Paulo II por sua militância política com a Revolução Sandinista (1979 – 1990).

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