Uma ponte para a Lua … Neste  22 de abril, o maldito vírus do Covid tirou de nós um dos imprescindíveis deste mundo: Aos 75 anos, Alípio Raimundo Viana Freire, baiano de Salvador, combatente da democracia, preso político da ditadura (1969-1974), anistiado pelo Ministério da Justiça (2005), fundador do PT, militante dos movimentos Sindical, Sociais e Populares, cineasta, poeta, jornalista, escritor, artista plástico,  e um infinito de coisas mais,  foi plantar estrelas vermelhas nos jardins dos céu… Para homenagear Alípio Freire, que escreveu muito, escolhemos um de seus textos mais belos, mais revolucionários e mais libertários – “Uma ponte para a Lua”, excertos de seu discurso no lançamento de sua candidatara a vereador por São Paulo pelo PT, em 1982, registrado por Renato Tapajós no filme “Nada será como antes… Nada?” Confira: 

UMA PONTE PARA A LUA

Por Alípio Freire

Construir uma ponte para a Utopia, uma sociedade que em primeiro lugar seriam expropriados todos os meios de produção, estaremos todos os trabalhadores proprietários dos meios de produção.

Isso é necessário, mas não é suficiente. É necessário mais uma coisa. É necessário que a gente desde já recoloque a questão da Felicidade e do Prazer.

Uma Revolução, uma mudança radical na sociedade que não fale da Felicidade e do Prazer, que não fale da possibilidade de todos nós, reconhecendo todas as diferenças, podemos conviver enquanto trabalhadores, isso aí não terá cumprido seu papel.

Nós somos a crítica viva e real ao socialismo existente. E a retomada de toda a raiz libertária do socialismo que foi esquecida por muitos anos por vários movimentos.

Esquecida, inclusive, porque a partir de um determinado momento a classe operária tomou o poder num Estado e o Estado virou uma razão para a classe operária. É preciso que o Estado seja destruído e que a gente esqueça a razão do Estado.  A nossa referência não pode ser a instituição, a nossa referência deve ser a massa em movimento. E esses movimentos não são somente reivindicativos, são as Festas. É importante fazer Festas.

Existe hoje aqui um grande discurso [como houve] um grande discurso no dia 21 no Largo 13, que é o discurso do grupo, que é o discurso do conjunto, que é o discurso do Coletivo e que é o discurso da Utopia, que é a Felicidade.

Nós temos de nos comprometer desde agora, desde já com a ponte para nós chegarmos a essa Felicidade. Não dá para deixar esses temas para depois. Não dá para tratar só da economia.

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É preciso tratar do que vai por dentro de cada um de nós. É preciso tratar de toda ansiedade, todos os desejos, de toda a perspectiva e todo o sonho que temos dentro da gente. E que a classe trabalhadora de conjunto tem dentro de si.

Isso é fundamental para chegar lá, do contrário viraremos uns burocratas, uns velhos. Teremos um Estado na mão, um aparelho, uma máquina. Teremos um Estado forte, faremos guerras. Daremos mais um sapato para João, um vestido à Maria. Mas a Felicidade não é só isso, embora isso seja indispensável para a Felicidade.

Nós queremos o sonho. Como diria Calígula, “nós queremos a Lua, algo que seja aparentemente impossível. E nós teremos a Lua.”

Alípio Freire, Presente!


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