Zilda Arns Neumann: Semeadora de saberes, multiplicadora de solidariedades –

“É preciso educar para a esperança”.

“A paz é uma conquista coletiva. Tem lugar quando encorajamos as pessoas, quando promovemos os valores culturais e éticos, as atitudes e práticas da busca do bem comum.”

Zilda Arns Neumann nasceu em Forquilhinha-SC, em 25 de agosto de 1934, e faleceu, cumprindo sua missão de ajudar ao próximo, em Porto Príncipe, no Haiti, em 12 de janeiro de 2010. Era a 13ª filha, de um total de 16 filhos, do casal brasileiro de origem alemã, Gabriel Arns e Helene Steiner.

As primeiras lições de partilha, solidariedade e amor ao próximo, Zilda aprendeu em casa. Casou-se, em 1959, com Aloísio Bruno Neumann (1931–1978), e com ele teve seis filhos: Marcelo (falecido três dias após o parto), Rubens, Nelson, Heloísa, Rogério e Sílvia (falecida em 2003). Zilda Arns foi avó de muitos netos.

Zilda, a irmã de Dom Paulo Evaristo Arns, tornou-se grande por ser fundadora e coordenadora internacional da Pastoral da Criança e da Pastoral da Pessoa Idosa, organismos de ação social da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).  Por seu trabalho comunitário e solidário é que lhe devemos todas as homenagens, recebidas em vida e post-mortem. Como profissão, escolheu a medicina: foi uma pediatra e sanitarista brasileira.

Formou-se em medicina pela UFPR, em 1959, e já no início de sua profissão vislumbrou que tinha por missão socorrer o seu povo sofrido. À época, o índice de mortalidade infantil era altíssimo no Brasil, crianças eram ceifadas em tenra idade por falta de alimentação e por doenças decorrentes da vivência em extrema pobreza e desinformação. Outras mazelas afligiam as crianças e eram igualmente perigosas: a desnutrição e a violência familiar e comunitária. Dra. Zilda percebeu que muito havia por fazer.

Assim, compreendendo que somente através da educação e do trabalho humanitário é que poderia combater a maior parte das doenças de fácil prevenção e a marginalidade imposta às crianças, desenvolveu um método criativo, de fácil aplicação para a multiplicação do conhecimento e da solidariedade entre as famílias mais pobres.

Zilda, por ser católica, baseava-se no milagre bíblico da multiplicação dos dois peixes e cinco pães que saciaram cinco mil pessoas, como narra o Evangelho. E a exemplo de seu mestre Jesus Cristo, passou a nutrir esperanças através da educação alimentar.

Criou a Multi-Mistura e de certa forma foi a criadora dos agentes de saúde, pois capacitou pessoas para pesar, ensinar a preparar a Multi-Mistura, e também para que acompanhassem o desenvolvimento das crianças.

Sua proposta de trabalho com as crianças subnutridas se espalhou pelo Brasil e correu mundo. Em 1980 foi convidada pelo Governo do Estado do Paraná para coordenar a campanha de vacinação Sabin de forma a conter a primeira epidemia de poliomielite, que havia começado no Estado.

Uma vez mais, Dra. Zilda Arns colocou a criatividade e os bons sentimentos em prática e criou um método próprio, depois adotado pelo Ministério da Saúde. Somando várias funções, ainda dividia seu tempo como como membro do Conselho Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (CDES).

Assim, realizando trabalhos em prol das comunidades de risco, no mesmo ano, foi também convidada a dirigir o Departamento Materno-Infantil da Secretaria da Saúde do Paraná, onde instituiu com extraordinário sucesso os programas de planejamento familiar, prevenção do câncer ginecológico, saúde escolar e aleitamento materno. Precursora e humanitária mulher!

Em 1983, a pedido da CNBB, criou a Pastoral da Criança e deu início às inúmeras experiências de sucesso tendo por público-alvo crianças menores de seis anos e famílias pobres em 4.060 municípios brasileiros, gerando ao seu redor uma legião de voluntários que esparramaram solidariedade, conhecimento, amor e esperança, atuando em áreas da saúde, nutrição, educação e cidadania. Sobretudo, levava para os excluídos a esperança de que eles poderiam mudar de vida e serem protagonistas de sua própria transformação social.

Seu método inovador, que consistia em multiplicar o saber e a solidariedade, era composto por três instrumentos estratégicos utilizados a cada mês: Visita domiciliar às famílias, Dia do Peso, também chamado de Dia da Celebração da Vida, e Reunião Mensal para Avaliação e Reflexão das mudanças geradas. Zilda seguia a vida nesse círculo itinerante de amor, esperança e solidariedade.

Encontrava-se em Porto Príncipe, no Haiti, em missão humanitária, para introduzir a Pastoral da Criança no país. No dia 12 de janeiro, proferia palestra para 150 pessoas, dentre elas 15 religiosos de Cuba, cujo país havia sido atingido por um violento terremoto. No momento de seu discurso aconteceu uma catástrofe. As paredes da igreja desabaram. O Haiti também acabava de ser vítima de um terremoto. Zilda foi vítima fatal, em pleno vigor de seus 75 anos.

Seu discurso ficou inacabado, ou talvez Zilda Arns continue a bradar pelo infinito sobre a importância de cuidar das crianças “como um bem sagrado”, promovendo o respeito a seus direitos e protegendo-as, “tal qual os pássaros cuidam dos seus filhotes”.

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