Os privilégios e a necessidade de reparação

Giselle Flügel Mathias

Muitos dos privilégios que temos não são reconhecidos, foram tão naturalizados que não conseguimos percebê-los, na maioria das vezes até buscamos por mais privilégios, não porque os vimos como tal, ao contrário nos soam como mérito, como algo a que fazemos jus, seja pelo cargo, pela classe social, pela cor da pele, pela religião que professamos, por nossa ascendência ou por outros motivos.

É muito difícil para algumas pessoas reconhecerem os privilégios, muitos dizem que não os defendem, que lutam contra e que desejam a igualdade entre todos.

Será que realmente lutamos contra os privilégios nossos de cada dia?

Será que combatemos e renunciarmos aos nossos privilégios?

Será que reconheço meus privilégios?

Escrevo aqui como uma mulher branca, classe média, com formação acadêmica, advogada, luterana e com ascendência germânica, com essa classificação me colocam no lugar do privilégio, pois sou olhada a partir do padrão social e cultural estabelecido, e por isto sou tratada como detentora de direitos, com méritos e fazendo jus ao lugar que ocupo na sociedade.

Mas essa é a realidade?

Podemos pensar em mérito quando as oportunidades não são as mesmas?

É possível falar em justiça quando minha aparência e cor são levadas em consideração, mesmo que inconscientemente, em razão de um processo cultural naturalizador da subumanidade do negro e do indígena?

Pensar sobre o privilégio da minha condição social, me faz perceber que estou nessa condição em decorrência das oportunidades que me foram dadas, algumas aproveitadas outras desperdiçadas, e percebo que obstáculos não foram criados. As oportunidades desperdiçadas, assim o foram, porque sempre detive o privilégio de escolher o que me agradaria.

Mas essa é a condição do negro e do indígena neste país, escolher o que melhor lhe aprouver?

Com certeza não!

Historicamente carregam em sua tez, traços e características que foram menosprezadas, desclassificadas e tratadas como se não fossem humanos pelos brancos e, por isso poderiam ser sequestrados, torturados e escravizados, pois o que se vendeu como discurso foi a ausência de alma de seres humanos, principalmente negros e indígenas,  para justificarem toda a atrocidade da escravidão e exploração para a riqueza de poucos e da Igreja.

Mesmo após a abolição da escravidão o processo cultural, legislativo, judiciário e de governo mantiveram a lógica da subumanidade, não permitindo aos negros e indígenas que ficassem com suas terras, ou que tivessem o apoio governamental como o que foi dado aos Europeus, ainda no Império, com o pagamento de todos os custos da viagem ao Brasil e o compromisso de lhes darem emprego e terras no país.

Além de terem sido torturados, mortos, violentados, escravizados e, no caso dos Africanos sequestrados de sua terra, negamos até os dias atuais a sua plena humanidade.

Não é possível falarmos em liberdade e igualdade enquanto não percebermos o nosso privilégio branco, enquanto não debatermos sobre como as oportunidades são dadas aos brancos, aos negros e indígenas.

Não é mais possível continuarmos a retratar o negro e o indígena como se fossem menos refinados, inteligentes, com uma subcultura e em subempregos, como se sua cultura e modo de viver dependessem do modo e expressão determinados pelos brancos.

Para isso precisamos reconhecer o lugar de privilégio branco, o qual abre muitas portas, no qual as oportunidades estão abertas e os obstáculos são bem menores. Precisamos reconhecê-lo para que seja possível mudar essa estrutura, mudar a cultura e reconhecer o imenso valor humano, independente da origem.

Não basta distribuir renda, fazer políticas públicas de cotas, é preciso reparar essa violência.

É preciso que o Brasil reconheça as vidas, o trabalho, a dignidade humana dos que foram sequestrados e escravizados para construir a riqueza deste país, a qual ainda se encontra nas mãos de poucos.

É imprescindível uma reparação deste país aos povos Africano e Indígena que mesmo após a abolição da escravidão, foram mantidos na condição de subumanidade, impedidos de se desenvolverem economicamente, com educação escolar formal, com preservação de sua cultura, modo de vida e religião, tendo sido assegurado apenas aos brancos os espaços e oportunidades de uma vida digna e soberana.

Só poderemos nos desenvolver como Nação no dia em que reconhecermos e repararmos as ações e medidas realizadas para mantermos os negros e indígenas como escravos, até os dias atuais.

Giselle Flügel Mathias, advogada, especialista em Direito Público, membro da ABJD e da #partidA

 

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