Por Evandro Valentim de Melo

Conscientizara-se. Até algum tempo atrás, sua mente queimava, seu corpo parecia febril, o coração fumegava. Agora não mais. Cumpriria seu destino. Entendera não poder se esquivar do legado deixado pelos seus, que não puderam escapar dos interesses gananciosos, nada defensáveis de forças muito poderosas com interesses escusos.

A fim de protegê-lo, ainda criança, enviaram-no para longe de sua infância, de sua família… Porém, ao acordar,  nesta manhã, as lembranças se descortinaram. Seguiria de volta à terra natal.

O clima estava abafadiço, abrasador ao descer do ônibus. “Adeus ar condicionado” – pensou. Universitários o aguardavam. Seu sobrenome se antecipou à sua chegada.

Agregaria estudantes, ambientalistas, imprensa. A meta consistiria em inflamar a vontade da população local, contagiá-la, convidando-a a replantar milhares de árvores em substituição às recentemente vitimadas. Chamas criminosas; ações em troca de 30 moedas; incêndios criminosos negociados por vendedores que comercializam o que não lhes pertence.

Dias a fio a floresta incandesceu; troncos seculares tornaram-se brasa; animais foram carbonizados, mergulhados em lava de uma atmosfera vulcânica e causticante. A vida perdeu imenso tesouro.

Argumentos contrários a tamanha mostruosidade foram intensos e aqueceram corações. “Armas” às mãos, imenso contingente humano marchou rumo às matas, guiado por efervescente vontade de fazer o bem, de forma simples: plantar, plantar e plantar. As “armas” germinariam se bem cuidadas, e cuidados nãos lhes faltariam, se dependesse daquela população.

Sementes de andiroba, pará-pará, maçaranduba, cajuaçu, tatajuba, angico e tantas outras. Cada uma em um berço aberto no castigado solo para acolhê-las. Há muito o que fazer, mas ele se sentia bem. É incrível o quanto o ato de plantar árvores traz consigo o potencial de fazer as pessoas felizes. A floresta, agora, ganhou novos aliados. A vida agradece.

Nota do Autor: Conto inspirado pela canção (Ar) Árvores, interpretada por Zé Roraima. O Conto recebeu menção honrosa no IV Concurso Literário Internacional Palavradeiros, em 2019.

 

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