Padre Joacir d´Abadia
Inesperadamente, eles se conheceram num inusitado abraço. Tão rápido como traiçoeiro para eternizar em suas lembranças. Assim iniciava a história de um jovem com uma senhora de cabelos brancos.
1) A casa de uma rainha
A senhora estava acostumada com os afazeres domésticos que eram sua alegria de viver. Em sua casa a limpeza reinava. O zelo pela moradia era tanta que nem se percebia a humildade da residência. Uma habitação de uma rainha do trabalho doméstico.
2) Cozinha grande como o coração de quem a habita
Seu labor mais meritório se dava na cozinha, a qual tinha o tamanho do coração de quem a habita. Um espaço grande. Cheio de dedicação amorosa.
3) Um fogão no centro da cozinha
No centro da cozinha havia um fogão à lenha que nunca apagava. Ao raiar do dia, ainda meio turvo, o trabalho do fogão reiniciava: bastava retirar um pouco de cinza e eis que as brasas apareciam ansiosas por palhas-de-milho  bem secas,  acompanhadas de alguns gravetos. Tudo isso era o combustível essencial para virem as labaredas crepitar fervendo a água para fazer o café da manhã.
O Café da manhã? A rapidez foi tal, que o sol, mesmo sendo rápido, não conseguira se adiantar naquele dia. Ops! Quase sempre o fogão iniciava primeiro seus trabalhos diários. Do alto o sol, ainda em meio às nuvens, enxergava uma chaminé soltando sua fumaça que quase atingia aos céus.
Isso deixava o sol entristecido por saber que não fora mais rápido do que o trabalho do fogão. Contudo, na medida em que o sol se esquentava de raiva do fogão trabalhador, dentro da cozinha, sentada no rabo do fogão, se encontrava a senhora com uma xícara de café bem quente em suas mãos que o tomava acompanhado de uma fatia de requeijão. Todavia, ao tomar seu café da madrugada, já planejava seu trabalho diário.
4) Um dia com atividades de sol a sol
Com a barriga cheia, ânimo renovado e disposição para o trabalho, a senhora iniciava seu labor. A vassoura ia desde a sala, passava em todos os cantos e quartos, até sair na porta da cozinha.
Sem parar um minuto sequer, já iniciava, com um pano nas mãos, a limpeza dos armários com o conjunto de utensílios domésticos. Nisto, o dia inteiro, a sua vida se preenchia de uma ocupação prazerosa, mesmo sabendo que no outro dia tudo voltaria a ser como antes: de muito trabalho.
5) Os presentes
Ao se sentar para uma pausa mais que merecida, a senhora começou a pensar no presente que recebera do jovem: um galho de rosa com uma linda flor e um pequeno cartão escrito à mão, preso por uma fita. O galho de flor chegou acompanhado de um demorado abraço. Para ela se tornava muito complicado saber qual dos presentes gostara mais: a flor tinha seu cheiro, exalava o mais puro aroma. Por outro lado, aquele abraço parecia ser algo da natureza ao passo que  tinha sua exuberância que conquistou um coração envelhecido fazendo a senhora balbuciar umas palavras: “se não  tivermos nada pra fazer podemos nos descansar num apertado abraço”.
6) O jardim particular
Depois de se despertar dos seus pensamentos, a senhora se deu conta de que iria plantar o galho de roseira. O desejo era o mesmo: o terreno do jardim ansiava por mais flores e, por suas vezes, as flores buscavam terras férteis para poder seguir com seus itinerários de vida
Assim ela fez: plantou o galho de rosa no seu jardim e conversava com suas flores como se estivesse falando com seu jovem amigo: “contemple os bosques floridos! Você sabia que são as chuvas que umedecem a terra? Enfim, dê asas para sua imaginação!”
Será que aquela humilde senhora estava cultivando em terra alheia? Porém, se poderia conceber que aquele chão a pertenceria ao passo que o cuidava com tamanha destreza. Pensar que o terreno não fosse de propriedade particular chegava até ser uma covardia. Tal dedicação por um jardim que está em terreno de outrem? O jardim, contudo, da senhora estava florido.
7) A riqueza das flores
Aquela senhora tinha uma enorme fazenda. No entanto, sua grande riqueza não se reservava em suas grandes fortunas adquiridas ao longo de toda sua vida, antes era seu jardim que cultivava na planície de uma montanha. No Jardim florido estava toda sua riqueza.
8) Um Bilhete, uma confissão de ensinamento
Tão logo que voltou para sua cozinha, a senhora pôs-se a encantar com o abraço singelo. Contudo, _ afirmava ela_, verdadeiro. Tão verdade como o jardim florido!
Naquele recordar dos instantes bons, vivido no melhor lugar que se possa estar: “dentro de um abraço”, ficou patente em sua mente o cartão que viera junto ao seu conjunto de presentes. Passou a saber o que estava escrito no cartão e descobriu:
“Pecado, perdão! _O pecado é contravenção humana que afasta de Deus e se aproxima das criaturas. É um caminhar no escuro, pois a incerteza impera no coração do homem dando espaço ao medo, ao isolamento e a dúvida da existência do Sagrado.
Ao pecar, Eva teve medo e, juntamente com seu companheiro: Adão_, se esconderam de Deus. O pecado faz isso: deixa a pessoa na escuridão, impossibilitando-o de ver a Luz que é o próprio Deus, “Luz da Luz” (Símbolo da fé – Niceno-Constantinopolitano).
Andar na escuridão não tem certeza da direção que se deve seguir. Por isso que quem está no pecado, na escuridão, não gosta de seguir nenhum tipo de norma. Seus próprios atos o direciona para mais escuro possível a sua vida. Com isso, se perde o temor de Deus e consequentemente perde o medo de ir para o inferno.
Contudo, o perdão faz com que a pessoa enxergue a Luz: “E a Luz brilha nas trevas” (Jo 1,4). Porque ao se abrir para Deus, Ele se volta e inteiramente para seus filhos, dando-lhes tudo em abundância: “Não te digo até sete vezes, mas até setenta vezes sete” (Mt 18,22). Assim, viver no perdão é muito melhor do que viver na incerteza da escuridão do pecado”.
9) A timidez das Palavras
Entre eles as palavras não se reservavam, não tinham medo de dizê-las. Conversavam de forma teatral, uma apresentação de sucesso nos palcos de suas vidas. Assim, o jovem deu um passo a mais em seus diálogos e lha fez uma apresentação detalhada a respeito do que estava sentindo aquele dia. Como eram confidenciais seus diálogos, eles tinham confiança um no outro para serem verdadeiros em suas conversas.
10) No confeccionário da vida
O jovem, sem titubear, fez: “estou me tornando muito perigoso para mim mesmo. Ou melhor, “`”em mim”“` mesmo! Então _ atingido pela extinção da bondade humana_, seria um homem perigoso? Não necessariamente! Arrisco dizer que é muito doido o que “`”em mim”“` está acontecendo”.
A senhora quis o tranquilizar: “até agora nada de entender o que está acontecendo a partir destas questões danosas. O que seria mesmo? Quem pode saber?!”
Respondeu: “seria, ‘em mim’, um aperitivo para o medo. Considere que todos os meus amigos me sintam um velório de cheiro teatral, de linha reta para a maldade! Consiste em dar valor ao que é passageiro. Chamado também de mundano. Impossível sei que não seja, visto que a maldade escorre presente “`”em mim”.“` Olha! Peço socorro quando ainda faltam apenas um passo para me inscrever no concurso da alegria triste. Tantos risos, quantos choros e lágrimas desfilam nas bocas que falam bem ao mesmo tempo que deseja anotar uma instabilidade no relacionamento”.
Ao falar essas coisas o jovem nem mesmo esperou a resposta da senhora e já emendou:
“Se estivesses no meu lugar você entenderia como é frágil os corredores da amizade que trás para a prática dos relacionamentos uma falsidade cruel. Metade de mim está escrito em pedra e a outra parte está soletrada na areia como um cristal que se quebra pela voz. Assim se manifesta o perigo medroso de um homem gravemente enfermo pela sua mesma crueldade: quase uma confissão com juros abusivos da consciência. Será que o meu `em mim’ não seja também sua dramática história?”.
11) Um abraço que fale
Por outra vez o silêncio entre eles reinou mesmo que falavam sobre tudo.  Mesmo que o “tudo” pudesse deixar alguém em constrangimento, a menos que, a timidez fosse apenas o limite das palavras. Com isso, o jovem disse _ envergonhando aquela senhora_: “tenho certeza que o melhor lugar para estar é dentro de um abraço, dona Pêda”.
Respondeu ela: “um abraço não! Mas dois abraços: um é o seu e, com certeza, o outro é o meu”. Assim, no meio do jardim florido, se encontravam o jovem e aquela senhora de cabelos brancos _ abraçados_, confirmando que não há melhor lugar para estar senão onde realmente estavam.
@Padre Joacir d’Abadia – Diocese de Formosa-GO / Filósofo autor de vários livros

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