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“É preciso ter a mente aberta, mas não a ponto de que o cérebro caia”…

Esta frase martelava em minha mente enquanto pensava nas notícias recebidas via mensagens ou lidas despreocupadamente na tal da timeline de minha vida social virtual. Ia lendo coisas, vendo toda a movimentação para o evento “Acampamento Terra Livre”, a ser realizado este mês que, segundo alguns mais antenados no esoterismo das coisas, vem de Aprus, o nome etrusco de Vênus, deusa do amor e da paixão.

Apertando a setinha de rolamento de página, vou vendo manifestações de apoio a algum movimento feminista; Manifestações políticas raivosas ou sarcásticas sobre a atual conjuntura do circo político que estamos vivendo; Vejo algumas divulgações de retiros e rituais sagrados, onde as “doações” variam de acordo com a “chiqueza” do espaço a ser utilizado.

Um pouco enfadado, vejo algumas manifestações de apoio ao retorno da ditadura (!)… vindas de pessoas que não tinham nem nascido, quando este funesto e ridículo sistema político deixou de existir; não posso deixar de pensar que, certamente, o máximo de leitura que estas criaturas devem ter são de postagens de jornalecos que mais parecem tabloides.

Continuo em minha peregrinação usando em vez de pés, as pontas do meu indicador direito, que febrilmente alternava entre o movimento impensado de pressionar a setinha de rolamento de página e o movimento cauteloso de apertar o botão virtual de “curtir”.

Vejo uma interessante postagem da Daiara Tukano alertando que “identidade indígena não é sexualmente transmissível”, dando mais uma cutucada em certas situações que chegam a beirar o ridículo, concordando com a missiva eis que surge em minha mente a provocativa frase “é preciso ter a mente aberta, mas não a ponto de que o cérebro caia”…

A telinha vai subindo e mais uma dezena de compartilhamentos sobre o Acampamento Terra Livre aparecem, compartilho alguns, aperto “curtir” em outros, comento em um, indicando (de certa maneira invejosamente) a mobilização para alguns amigos que estarão em condições de participar deste importante evento.

Logo em seguida, me deparo com postagens indicando roteiros festivos para o Dia do Índio e fico pensando nas minhas alternativas de participação dada a limitação de tempo e acesso às comunidades, e vou me decidindo pela presença da terra dos Puyanawa onde, certamente, a caiçumada promete um dia de inebriante alegria, colorida com urucum e jenipapo e os discretos, mas belos adornos de contas e plumagens costumeiramente usados em folguedos do tipo.

 

Uma postagem de rostos alegres e de feições amareladas de “nawa”  pintadas em urucum pausam minha atenção à leitura da postagem, indicando que na trevosa noite da Sexta-Feira da Paixão nem tudo foi lágrimas e ranger de dentes por causa da danação eterna que nos espera, caso não nos arrependemo-nos  profundamente de algo que não está muito claro.

Vejo o álbum de fotos do ritual e, apesar de alguns exageros e encenações, chego à conclusão que certamente foi um evento bem legal, onde a cultura feminina indígena brindou com muitos ensinamentos e experiências luminosas todas as participantes que se fizeram presentes no ritual.

Alguém me marcou em uma publicação e ao clicar para visualizar, já tendo mais ou menos idéia do assunto que seja, não me surpreendo ao ver que o motivo da marcação foi uma citação infeliz sobre os povos indígenas, feitas por um político desmiolado, empanturrado até as tripas de sua pobre e porca existência de ideologias e princípios religiosos decadentes. “Queria ver a cara desse coitado após beber um bom Huni” – penso, enquanto leio espantado para os comentários de apoio ao mesmo, escritos por mentes tão medíocres quanto o autor da infeliz manifestação.

Continuo na “caminhada” virtual, pausando mais uma vez minha atenção, vejo a divulgação de uma rodada de medicinas indígenas, clico para ler mais informações sobre o evento, tentando reconhecer quem seria o “mensageiro da cultura” (usarei este termo pois, em geral, os pajés raramente viajam para fora de sua comunidade) e eis que me surpreendo em ver que tal rodada não está sob responsabilidade de um indígena e, sim (de acordo com a imagem logo ao lado de quando custará em “doações” a tal rodada) de uma áurea  jovem travestida com uma infeliz escolha de acessórios indígenas e hindus e que se autodenomina “curadora” .

Com a curiosidade atiçada busco a página da figura e perco bons quinze minutos lendo as postagens e os itinerários de trabalho da mesma, tanto no Brasil quanto nos países andinos próximos. Valendo-me do  anonimato proporcionado por esta forma eletrônica  do anel de Gises*, navego um pouco sobre os “amigos em comum” que tenho com a criatura e reconheço alguns, dentro do grupo que maldosamente apelidei de “esquisotérico”. Desisto de continuar a saber mais sobre a travestida e seu ritual e delicadamente oculto a postagem: “o que os olhos não vêem a vontade de explodir a criatura não existe” – Penso.

Uma janelinha aparece indicando que “fulano” me citou em um comentário. Vou lá, deve ser legal pois geralmente esta pessoa só dá dicas legais. Vejo que o comentário é a respeito de uma atividade que contará com a presença do professor e Txana Ibã Huni Kuin, que estará dando palestras e apresentando suas obras. Fico feliz apertando o “curtir”, lembrando que mandei emoldurar dois desenhos seus que, brevemente, estarão iluminando minha sala de estar. Compartilho a postagem do evento.

Uma amiga “revolucionária” (pois adora postagens zapatistas)  indicou-me em uma postagem: “Imperdível, Jairo Lima”. – Vejo que se trata do filme “Martírio” (2016, 160 min), segundo filme de uma trilogia** ainda em andamento, do cineasta Vincent Carelli que, entre suas virtudes profissionais está a criação do projeto Vídeo nas Aldeias”.

Começo a ler os comentários sobre o filme e todos indicam ser uma obra primorosa, e que deixar de assistir pode relegar-me ao poço da ignorância que a falta de informações relega aos desinteressados. Faço pesquisas sobre o filme e me deparo com uma primorosa frase do grande Ailton Krenak “o mercado acorda de mau humor e quer comer uma montanha”.

O filme, segundo li num ótimo artigo de Felipe Milanez : “Nos conduz para o coração das trevas do agronegócio, e nos mostra a luz e a beleza que move os Kaiowa e Guarani a lutarem para existir. Essa luz é expressa pelas reflexões, cantos, a religiosidade sempre presente e marcante, e uma epistemologia extremamente sofisticada, uma forma de ver, analisar e pensar o mundo que é única.” Faço algumas leituras complementares, vejo o trailer do filme e marco no meu pensamento como prioridade assisti-lo assim que possível.

A peregrinação virtual continua e vejo algumas postagens do assunto mais sensacionalista do momento, que trata a respeito do sumiço do jovem acreano Bruno de Borges e todo o mistério de suas criptografias e simbologias deixadas em seu quarto.

Assunto enfadonho este, pelo menos para mim, e que suscita as eternas piadas sobre a existência do Acre. No entanto, uma postagem traz um comentário maldoso de um desmiolado que cita estar o jovem certamente “drogado com os venenos indígenas que infestam as cidades do Acre, como o rapé e esse tal de daime”.

Não me contive e comentei sarcasticamente sobre sua fala, dando-o a entender que certamente seus conhecimentos sobre o assunto citado deve ser tão grande quanto sua inteligência. Incrivelmente o infeliz não deve ter entendido o comentário sarcástico e cheio de trocadilhos pois “curtiu” o comentário. Gente doida, até cheguei a me arrepender de ter me dado ao trabalho de comentar.

Acelero o movimento do indicador na tecla de rolagem de tela, “pulando” o assunto das delações, pagamentos e surrupios nacionais. Não é alienação, é falta de paciência mesmo para com o assunto, afinal, de uma hora para outra, todos viraram especialistas em política.

Vejo um compartilhamento sobre um grupo que apóia o retorno da monarquia e lembro do dia aprazível de sábado, em minha casa, onde recebemos a visita de Dedê Maia e Carlos Magalhães que retornaram de uma dieta na terra dos Ashaninka do Amônia, onde estavam inseridos nos mistérios do Povo Japó.

Num dos papos o assunto monarquia apareceu e me posicionei que, caso o sistema imperasse no Brasil, que minha escolha seria o Raoni para monarca e o Ailton Krenak para primeiro ministro. Tenho certeza que muitos podem concordar comigo. Ainda rindo da lembrança da visita e das conversas, já vou ficando cansado da “caminhada” proporcionada pelos cliques com meu indicador.

Uma postagem chama minha atenção e vejo que se trata de uma matéria da revista UFO, sobre os supostos “avistamentos” de OVNI’s na terra dos Ashaninka do Envira e Amônia. Lembro do assédio irritante do “ufólogo” por meus arquivos sobre o assunto e de como foi difícil me livrar dessa chateação.

Um amigo, como sempre revoltado com alguma coisa, despeja sua indignação com as comemorações cristãs da semana; Uma amiga posta mais um selfie de suas férias no Nordeste; Minha tia posta mais uma mensagem de motivação e espiritualização; Uma das inúmeras páginas que sigo posta algo interessantíssimo sobre o crescente movimento indígena e sem empoderamento sobre as ferramentas de comunicação e de mídia. Dou um clique rápido e vou para o site da rádio Yandê. Escuto umas canções e concordo com a postagem pois também perceber o crescimento deste movimento e acreditar que ele crescerá ainda mais.

Faço mais algumas leituras…

O prefeito indígena da cidade de Mal Thaumaturgo, prof Isaac Toto Ashaninka publica informações sobre suas atividades e isso me faz lembrar do projeto do “hospital” de curas espirituais que está sendo construído pelo querido Benky Ashaninka. Faço uma breve anotação para retomar este assunto com mais propriedade, no futuro.

Já indo para o fim da “caminhada” deparo-me com uma postagem sobre a necessidade de se apoiar o retorno da ditadura, e defendendo as palavras racistas do inseto Bolsonaro em um clube israelita. Fico “pê” da vida e faço um comentário altamente raivoso. Em menos de um minuto o figura responde pedindo que eu tenha a “mente aberta” livre de ideologias. Nem respondo, desfaço imediatamente a amizade e bloqueio o indivíduo.

Quando começo a me sentir culpado pela falta de tolerância com o “amigo” eis que sinto um martelar igual a um gongo gigante que brada em minha mente “é preciso ter a mente aberta, mas não à ponto de que o cérebro caia”…

ANOTE AÍ:

Jairo Lima é acreano, escritor, indigenista e parceiro da Xapuri. Semanalmente, Jairo publica seus textos no blog www.cronicasindigenistas.blogspot.com.br e aqui no site da Xapuri. As notas a seguir são todas do autor.

* O anel de Giges é uma lenda que integra a obra  “A República”, de Platão.

** O primeiro filme foi “Corumbiara”, o segundo, “Martírio”, e o final será “Adeus, Capitão”. Essa trilogia, diferentemente dos filmes do Vídeo nas Aldeias, é baseada no longo trabalho investigativo de Carelli, filmes produzidos ao longo de três décadas, onde a visão dele da luta indígena é apresentada junto de profundas mudanças no país. (Fonte: Felipe Milanez, Carta Capital)

*** Todas as imagens que ilustram este texto são de autoria da artista plástica Rosi Araújo. Suas Origens indígenas Kariri, lhe influenciam para a transformação das artes em instrumentos de ativismo e resistência, um olhar diferenciado, contribuindo para a construção de um ambiente por inteiro. Para conhecer mas sobre esta artista e sua obra clique aqui e aqui.

Keywords: Mente aberta, Peregrinação

 

 

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