Deslembrança – paredes carcomidas – teréns caídos no chão … As pessoas não sabem que há uma fenda na memória que fechou como casca de ferida não curada. Abaixo da superfície as lacunas são preenchidas com fantasmas e visagens. Rejane Araújo nos diz que a memória desnuda e que o tempo desmaterializado, passado tornando-se presente

Os ossos cuspidos no canto da sala. Os mortos insepultos esboçam sombras na soleira da porta. Folhas de jornais e papéis amarelados reinam nos teréns caídos no chão. A roseira viçosa de outrora, agora é apenas uma lembrança vaga e desbotada. Quem observa de fora não consegue imaginar os dramas vividos naquelas paredes carcomidas. Não sabem que há uma fenda na memória que fechou como casca de ferida não curada. Abaixo da superfície as lacunas são preenchidas com fantasmas e visagens.

Faz tempo que aconteceu o sucedido. Mas ainda ressoa no menino pálido, embora ele não tenha consciência disso. Mas vamos aos fatos:

A mãe teme por sua própria vida. O que será do menino? Ela tem vontade de juntar os teréns e sair dali. Mudar de rumo. Parar de olhar para aqueles costelões magros. Até o sol tem preguiça de nascer naquelas vargens.

Outro dia ela colocou todos os pertences num saco de aniagem. Ficou o dia todo pensando. Querendo deitar o pé na estrada. Fugir daqueles miasmas. Podia ir para a casa da comadre Doquinha e depois pra cidade grande. Mas o menino tão doentio aguentaria aquela viagem?

Tem dia que ela acorda trêmula, as pernas bambas, uma febre miúda tira qualquer vontade de ir. Ela se arrasta pela casa, deita-se na cama de pau-a-pique. O menino comendo barro, amarelo e pançudo.

No terreiro as galinhas ciscam. Pararam de botar. Entressafra. Os ovos da galinha choca devorados pela caninana. Um mundaréu de cobra. Ela nem se atreveu ajudar a galinha que cacarejava, batia asas e ameaçava bicar a bicha. Faltou ânimo.

Quando foi pegar lenha viu um vulto na mata. Escondeu-se ofegante e voltou em surdina para casa. Fechou as portas, mas tanto faz: as tramelas estão quebradas há mais tempo do que possa se lembrar…! Passou o dia apreensiva. Os maus presságios não lhe deram trégua.

Faz tempo que a observo. Daqui posso vê-la pelos vãos das janelas. Ela se move etérea. Outro dia cantou uma moda tão triste e bonita que me deu engulhos de aflição. Quero ajudá-la, mas sei que ela se assustaria com minha presença. Temo o pior.

A mulher e o menino foram se banhar no riacho. Daqui onde estou posso ouvir o murmurejar das vozes. Ouvi um ensaio de risos. Coisa rara nesse muquifo! Ela voltou encharcada. A água pingando dos cabelos, a pele rosada. O sol desenhou sua silhueta nos lajedos. Uma visão! Quis me aproximar. Um sentimento estranho no peito me impediu de chegar perto e a vontade se esvaiu diante das consequências. Sou um bicho pensador. Às vezes minha cabeça dói de tanto pensar. As ideias ficam dando voltas e nós. As caraminholas estrebucham no quengo. Fazem voltas e voltas, e volta!

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Cochilei na depressão das pedras que me servem de observatório. Tive um sonho estranho: uma luz azulada vazava a minha retina e eu olhava ofuscado o vulto da mulher com o menino escanchado no quadril. O menino chorava e a mulher cantava baixinho para ele. Olhei os cabelos do menino; os olhos aflitos, pidões. Um lampejo indefinido. Um sentimento pungente me varou as entranhas. Ouvi um silvo e acordei molhado de suor. Uma cascavel mirava suas presas num ratinho acuado na reentrância da pedra. Pensei em matar o bicho, depois deixei pra lá. A vida que seguisse o seu curso.

Outrora estive em São Paulo. Andei por aquelas avenidas enxameadas de gente. Carros, motos, barulheira. Saí de Minas e fui pegando carona em carro de boi, boleia de caminhão, trabalhando em fazendas de café até, finalmente chegar. Uma tia me acolheu e fui trabalhar como servente de pedreiro. Durante três anos me matei para comer minguado, arrumar uns aconchegos e beber pinga. Tinha ficado naquela vida, Deus sabe lá, até quando?!

A bem dizer: Deus dá a farinha vem o diabo e fura o saco. Foi assim que aconteceu! Estava eu naquela acomodação. Embrulhado em panos quentes e rame-rame. Quando se sucedeu de encontrar um jornal antigo embrulhando pães na vendinha do seu Lau. Olhei aquela notícia tresmanhecida. As palavras galoparam no meu peito, as vistas embaralharam. Deu-me uma vontade louca de voltar. Aproveitei uma tropa de boiadeiros e viemos rumando estradas de boi até perto da nascente do São Francisco. De lá fiz o trajeto a pé até a casa da finada Doquinha, minha mãe de criação. Que Oxalá a tenha!

Seguindo rastro de cobra me instalei aqui de onde posso observar todo mundaréu que cintila no lusco-fusco do fim do dia. O coração tremula ao olhar a casa envolta em sombras. Os morcegos voejando e o pio do caburé. Penso em descer o morro e dar o ar da minha graça. Logo em seguida despenso e trespenso.

Ontem acordei com gritos. Naquela soneira vislumbrei através da neblina, vultos. Corri trôpego. O suor pingando. A lamparina estava acesa na casa. Logo em seguida um silêncio de morte pairou sobre o morro. O único som era do meu coração que rebimbava no peito. Apavorado olhei pela fresta e vi a rosa vermelha. Um vulto correndo pela porta passou através de mim. Meus pelos se eriçaram. Do buraco no peito da mulher, a rosa vermelha se esvaía – a foto em preto e branco no jornal. Um grito preso no peito. O tempo rebobinou em câmera lenta. Eu, menino! A mulher caída na sala. Ajoelhei-me no chão de terra batida e coloquei as minhas mãozinhas na face pálida. Chamei: – Mãe?!

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A memória desnuda! Afastei um pouco mais a mantilha do esquecimento e vi o menino tatibitate gemendo nos braços de mãe Doquinha.

O tempo desmaterializado, passado tornando-se presente. Finalmente, sepultei os mortos e segui caminho de mãos dadas com o menino que me habita.

Rejane Araújo Oliveira, professora, escritora de estilo e escritos  singulares, é convidada a escrever via ALANEG – Academia de Artes do Nordeste Goiano. É de Planaltina -DF que esparrama essas belezuras que escreve.
Arte-Educadora e Arteterapeuta Junguiana, paraibana de Lagoa de Cozinha, descobriu no cerrado uma beleza rústica e apaixonante. Escreve como forma de falar da multiplicidade da vida, de expressar as vozes que habitam o mais profundo do seu ser e de possibilidade e impossibilidades.
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