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Lucélia Santos: Estrela das Boas Causas

Lucélia Santos: Estrela das Boas Causas

Por Jaime Sautchuk

Esteja onde estiver, no interior de Goiás, num festival de cinema, ou em Pequim, na China, sendo homenageada pela cúpula governamental, é tudo motivo de alegria, e por isso feito com muito amor. Assim é Maria Lucélia dos Santos, ou Lucélia Santos, atriz mundialmente famosa, mas moça simples, destemida, sempre disposta a levantar a bandeira da democracia, a lutar contra o fascismo, em qualquer lugar que esteja.

No Timor-Leste, pequeno país (1,5 milhão de habitantes) de língua portuguesa no sudeste asiático, então sob a dominação da Indonésia, ela se tornou amiga de José Ramos Horta, agraciado como Prêmio Nobel da Paz, e outros líderes locais, que lutaram pela independência e, depois, assumiram o poder. Lucélia viveu uns tempos por lá, pra ajudar na reconstrução, e deixou muitos amigos em Dili, a bela e semidestruída capital, com pouco mais de 200 mil habitantes.

Os números foram bem mais robustos ali perto, na China, em 1977, quando mais de um bilhão de chineses assistiram à telenovela Escrava Isaura, seu primeiro sucesso na TV. O livro do escritor mineiro Bernardo Guimarães, de 1875, que originou a novela, foi reeditado pelos chineses e vendeu 300 mil cópias, um estouro, mesmo num país tão populoso.

Em 1985, Lucélia foi homenageada pelo governo daquele país e ganhou o prêmio “Águia de Ouro”, oferecido pela primeira vez a uma artista estrangeira pela população chinesa, através do voto direto. Tudo comprova que Escrava Isaura é o produto mais dublado e exibido no mundo, no gênero telenovela, segundo uma pesquisa do programa americano Good Morning America.

O romance narra a história de uma escrava branca, refinada, muito bonita, que se tornou um libelo antiescravagista por atingir principalmente o público feminino, como queria o autor. Ao escrever essa obra, Bernardo Guimarães, nascido em 1825, em Ouro Preto (MG), havia se formado em Direito em São Paulo, trabalhado como Juiz de Direito em Catalão, Goiás, e virado jornalista no Rio, três anos antes de escrever e publicar Escrava Isaura. Conhecia, pois, as agruras da escravidão em boa parte do país.

À época, o livro fez muito sucesso. E despertou a atenção do imperador Dom Pedro II, que gostou da obra e passou a manter contatos com o autor. Ele via importância de Escrava Isaura no processo de abolição da escravidão, que estava em curso naquele momento. E, uma vez mais, demonstrava sensibilidade a questões nacionais e às manifestações artísticas.

ARTE E POLÍTICA

Talento nas artes e posicionamento político são atributos de Lucélia desde a infância. Nasceu e cresceu em Santo André, o “A” do ABC paulista. Seu pai, eletricista, era operário da multinacional francesa Rhodia, a mãe, dona de casa, e moravam numa casa com quintal espaçoso, árvores e flores, que ficava bem em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André, que foi presidido por Luiz Inácio Lula da Silva e era importante centro político da época.

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“Eu via tudo da janela de casa, dali conheci Lula e vi nascer o PT (Partido dos Trabalhadores)”, lembra Lucélia, E ressalta que teve uma “infância muito feliz, naquela casa, brincando com meus dois irmãos, com muitos gatos e cães, porque os cachorros abandonados que eu encontrava, eu recolhia – cheguei a ter 14, pra desespero de minha mãe”.

Em 1972, aos 14 anos, fez um teste e foi escolhida pra encenar a peça infantil “Dom Chicote Mula Manca e seu fiel companheiro Zé Chupança”, iniciando a carreira em São Paulo. Depois de fazer um curso com o teatrólogo russo Eugênio Kusnet, que trabalhava com Zé Celso, no Teatro Oficina, atuou na montagem de Godspell, já no Rio de Janeiro, pra onde se mudou aos 17 anos. Em seguida, participou de Rock Horror Show e da peça Transe no 18.

“Eu estava explodindo no teatro, com uma peça atrás da outra e estava numa delas, com o grande Milton Morais, quando fui chamada pra fazer a telenovela Escrava Isaura, na Globo”, conta Lucélia. O Brasil vivia em plena ditadura e no mundo da Guerra-Fria, a novela fez sucesso em vários países da antiga União Soviética, inclusive na Rússia e na Ucrânia, que foram visitados por ela.

NO CAMINHO

No Rio, em 1975, conheceu e se casou com o maestro John Neschling. Viveram juntos até 1985 e tiveram o seu único filho, o ator Pedro Neschling, que tem uma filha pequenina, a netinha Carolina, querida da vovó Lucélia, que o Coronavírus não a deixa abraçar o tempo todo.

E ali mesmo, de novo, a política cruzava o seu caminho. O marido de uma amiga dela era preso político, e estava recolhido no Presídio da Frei Caneca, juntamente com muitas outras lideranças políticas também enclausuradas pela ditadura. Assim, nas visitas que fazia, acompanhando sua amiga, os papos que rolavam eram, no mais das vezes, sobre política.

Com a reabertura política e a reorganização partidária, após o fim do regime militar, Lucélia ajudou a organizar o Partido Verde (PV), que tinha o propósito de ser o principal porta-voz da causa ambiental no Brasil. Nesse processo, ela conheceu uma liderança que surgia no Acre e percebeu a dimensão do seu trabalho, diante do desenvolvimento da Amazônia. Era o seringueiro Chico Mendes.

“Eu percebi que se tratava de uma grande liderança, que tinha proposta concreta de trabalho, e propus uma aproximação maior, pra ajudar naquela empreitada; então, fui morar em Xapuri, no Acre, mas alguns meses depois o Chico Mendes foi assassinado”, conta ela, com a voz embargada. O fato é que ela fez as trouxas e voltou à vida normal, nas grandes cidades.

Em mais de quatro décadas de carreira, Lucélia Santos atuou em cerca de quatro dezenas de novelas e programas especiais da Globo, a emissora com a qual ela manteve uma relação mais duradoura. No teatro, são incontáveis suas participações como protagonista em espetáculos de todas as modalidades, sempre em companhia de grandes nomes da produção teatral. E, quando jovem, apostar no teatro significava desagradar seu pai, que esperava ver nela uma médica.

No entanto, em meio a isso tudo, ela sempre destrava um doce sorriso pra dizer que, no final das contas, é do cinema que ela gosta mais. Ela conta que sempre teve, desde criança, uma relação muito especial com essa arte, a começar pelo fato de seu pai ter um amigo que era dono de sala de cinema, o que simplificava o acesso.

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“A gente tinha relações com a família, de modo que entrava pela porta dos fundos, onde era a casa desses amigos, e via filmes na hora que quisesse”, relembra Lucélia, que atuou em 21 longas-metragens, vários deles com roteiros de Nelson Rodrigues, que ela considera “o melhor escritor brasileiro de todos os tempos”.

Conversando sobre planos visando o futuro, ela é categórica: “Antes de qualquer coisa, é preciso tirar esse presidente da República, porque ninguém aguenta mais essa situação; de minha parte, vou fazer o que puder pra ajudar a derrubar esse Bolsonaro”.

A partir desta edição, Lucélia Santos passa, também, a fazer parte do Conselho Editorial da revista Xapuri, o que engrandece nossa publicação e muito nos honra.

Jaime Sautchuk – Jornalista. Escritor. Fundador da Revista Xapuri. Encantado em 14 de julho de 2021, aos 67 anos de idade. Esta matéria, publicada originalmente em 02/07/2020, faz parte do legado de Jaime para as gerações presentes e futuras. 

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Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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