fbpx
SAO BERNARDO DO CAMPO, BRAZIL - APRIL 07: Former President Luiz Inacio Lula da Silva gestures to supporters at the headquarters of the Metalworkers' Union where a Catholic mass was held in memory of his late wife Marisa Leticia on April 7, 2018 in the Sao Bernardo do Campo section of Sao Paulo, Brazil. An arrest warrant was issued on Thursday for da Silva to serve a 12-year jail term for corruption. The 72 year old former president told the crowd "I will comply with their warrant." (Photo by Victor Moriyama/Getty Images)

Emir Sader: Minha visita a Lula

Emir Sader: Minha visita a Lula

A última vez que eu tinha estado com o Lula era quando ele tinha se despedido de cada um de nós, para ser levado para a Polícia Federal em Curitiba. Nos meses anteriores eu tinha convivido como nunca com ele, nas quatro Caravanas, de agosto de 2017 a março de 2018.

Quando terminamos vitoriosamente a Caravana do Sul, com uma grande concentração em Curitiba (o Bolsonaro foi à cidade, prometeu que faria um comício maior no dia seguinte, mas só havia oito pessoas.) Aí a direita acelerou sua estratégia: o STF rejeitou na semana seguinte o habeas corpus do Lula e no dia seguinte saiu a prisão do Lula.

Um ano e quatro meses depois, pude reencontrar o Lula. Entrar nesse edifício odioso em que o têm como preso político. Foi preciso fazer os trâmites de identificação, de controle das coisas com que se entra, até que o Superintendente da PF nos chamou, ao ex-vice-presidente da Argentina Eduardo Duhalde e eu, porque queria nos conhecer. Nos sentamos à mesa e eu não deixei que ele fizesse qualquer discurso protolocar.

Logo tomei a palavra e disse: “Estamos contentes de ver o Lula, mas muito constrangidos porque ele está preso e condenado sem provas, é um preso político, que deveria estar na presidência do Brasil. Ele vai sair e voltará à presidência do país”. Aí terminou brevemente a conversa e nos levaram ao terceiro andar, onde Lula está.

 

Primeiro nos mostraram o pátio onde o Lula pode tomar sol. Depois fomos encontrar o Lula. Nem bem nos viu, houve abraços e beijos, e ele imediatamente nos disse: “Já viram um preso tão contente como eu? Porque estão sendo desmascarados todos esses canalhas”. E se pôs a fazer um cafezinho para nos oferecer.

O local onde ele está tem um banheiro na entrada, à direita. Depois, uma janela grande no fundo, que não se abre, mas ilumina. Uma cama à esquerda, com uma TV nos pés, em que ele pode ver TV aberta e projeta coisas que são mandadas gravadas para ele. (Ele nos mostrou Grandola na tela).

Depois uma mesinha com café e biscoitos, uma mesinha no centro, onde nos sentamos para conversar, um armário na parede oposta e uma estante cheia de livros. Tem um aparelho de calefação ao lado da cama. Do lado oposto da cama, a esteira, em que ele anda nove quilômetros todos os dias.

Parece que estivemos conversando no dia anterior, é o mesmo Lula que conhecemos sempre. Fala muito, pergunta muito, ouve muito, fala sério, brinca, ri. Se mostra preocupado não apenas com a destruição do Brasil, indignado com sua situação pessoal de preso político há um ano e quatro meses, impedido de ser candidato, eleito e voltar a ser presidente do Brasil. (Ele tem clareza total que a Lava Jato tem esse objetivo).

Mas preocupado com que se consiga muito maior mobilização popular: “Todo dia o governo nos dá novas razões para nos mobilizarmos”. Segundo ele, se deve sair todos os dias às ruas, com grupos de sindicalistas, de estudantes, de militantes, para conversar com o povo onde o povo está, nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho.

Embora não vislumbre uma saída pela via jurídica, o Lula acha que vai sair e voltar pra luta aqui fora, tenho a impressão com a vontade de retomar o caminho de ser candidato de novo. Mas reafirma, mais do que nunca, que só sai com sua inocência reconhecida.

CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO

Lula agradeceu a visita do Duhalde e reiterou o reconhecimento pela visita do Alberto Fernandez, sabendo que a direita exploraria a visita. Conversou-se muito sobre a situação da América Latina, o desmanche do processo de integração regional, a situação na Argentina, na Venezuela, na Bolívia.

Lembraram que a primeira visita do Lula ao exterior, assim que foi eleito, em 2002, foi à Argentina, recebido pelo Duhalde, o primeiro presidente com o qual ele se encontrou. Duhalde lhe disse que o próximo presidente da Argentina seria um governador pouco conhecido, Nestor Kirchner, com o qual o Lula manteria uma profunda amizade e parceria política.

Lula retomou a análise de como foi se constituindo o golpe e todo o processo de perseguição ao PT e a ele. Da quantidade de horas de televisão, de capas de revistas, de páginas de jornais, para atacá-lo. E não conseguiram nem destruir o PT, nem sua imagem junto ao povo brasileiro.

Ele contou como é seu cotidiano lá dentro, o tempo que ele dedica à leitura e a escrever, como se dedica à reflexão e como esse tempo de solidão lhe permite amadurecer as coisas, refletir sobre tudo o que viveu e sobre como superar as dificuldades atuais.

Ficamos uma hora e meia, meia hora a mais do que é previsto. Pude avançar várias coisas de trabalho com o Lula. Mas em um momento tivemos que nos despedir dele. Grande emoção de alegria na chegada, grande emoção de tristeza na saída. A vontade era pegar a mão do Lula e trazê-lo pra fora, dizendo a ele: “Vem Lula, teu lugar não é aí, sem liberdade, cercado por esses chacais. Teu lugar é lá fora, no meio do povo, que te espera”.

Nos despedimos do Lula, dizendo que queremos reencontrá-lo aqui fora. Ele faz uma falta incomensurável aqui fora. Além disso, o Lula precisa falar, ouvir, conversar com muita gente, todos os dias. Ele se alimenta disso.

Reencontrando, fica mais absurdo ainda que a única pessoa que pode dirigir a reconstrução do Brasil, baseado num governo para todos, em que cabem todos, pela restauração da democracia, seja vitima da mais absurda perseguição, está presa ilegalmente, enquanto quem comanda a destruição do país, ao invés de estar condenado e preso, esteja na presidência. O que mostra como o Brasil está de cabeça para baixo.

Mas contamos sempre com o Lula, o melhor de todos os brasileiros, quem expressa o que de melhor nós temos. Abracei-o por todos nós, com toda a consciência de que o Lula Livre é condição do resgate do nosso presente e do nosso futuro.

Reencontrar o Lula é um momento marcante na vida de cada um. Espero reencontrá-lo Livre, como ele e todos nós merecemos.

Emir Sader – Sociólogo, um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros.

 

 

 

 
 
 
 
 
CONTINUA DEPOIS DO ANÚNCIO