Chapecó-SC, 25 de março de 2019

Querido presidente Lula,

Consolar-te na tua provação, não posso, pois julgo-me demasiado pequeno nesse mundo para produzir tal efeito.

Eu sempre soube que tudo está concebido para garantir privilégios de poucos. No tempo em que fui promotor de justiça, perguntou-me uma senhora: “O que faz um promotor?”. Respondi que nossa função era dar cacete em pobre para garantir o sossego dos ricos.

Quando disse a um amigo empresário que ia votar em ti, vi sua surpresa e incompreensão. Tranquilizei-o esclarecendo que a polícia ia continuar garantindo o desfrute de sua fortuna, que os juízes continuariam simpáticos a ele e que as leis estariam a seu favor. Disse que o senhor, meu presidente, não poderia mudar isso.

Pouco versado em política, mas tendo gosto pela história, penso nos irmãos de Graco, e que foram mortos e difamados, em Roma, porque tentaram fazer alguma justiça social.

Teu destino, presidente, não poderia ser diferente. Desafiar a estupidez humana não é para qualquer um.

No plano pessoal choro por ti, porque a injustiça é algo insuportável. Tenho parentes que tem agrado em imaginar seu sofrimento, mal sabendo que está muito além de condoer-te em ti mesmo. Eles, que descendem de servos famintos (o que não me faz diferença) julgam-se potentados, embora nunca tenham olhado o mundo, além do próprio nariz.

Minha gratidão pela tua humanidade é algo que necessito dizer. Só isso é relevante, nesse momento.

Gostaria de estar entre teus amigos pessoais, mas não o sendo, declaro-me teu amigo, unilateralmente.

Quando vierem teus dias de paz – rezo por eles – gostaria de convidar-te a visitar meu sítio. A ti e a tua linda família vou reservar o melhor quarto, a melhor cama e o melhor açude para pescar. Tenho uma cachacinha sempre à mão. Aqui é meio “fim do mundo”, mas tem paz e alegria.

Aqui, querido presidente, tem todo o amor. É o melhor sítio que vais conhecer, porque és bem-vindo e quero gastar um dinheirão com o bem estar de quem tanto se ocupou dos desvalidos. Ademais, dinheiro não me importa e dinheiro não te importa. É tão fácil de entender!

Eu te devo isso. Nós te devemos isso.

Paz e bem, meu presidente!

Alcides Heerdt

Alcides Heerdt é promotor de justiça aposentado e advogado

Fonte: As cartas que Lula não recebeu, p 24, Coletânea organizada por Cleusa Slaviero e Fernando Tolentino

 

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