Comunidade judaica homenageia Lula por luta pelos direitos humanos e contra extremismo

Ao participar de ato promovido por coletivo judaico, ex-presidente recebeu carta de apoio e lembrou esforços de seu governo por acordos no Oriente Médio

Em ato promovido por um coletivo da comunidade judaica, ontem (30) à noite, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva lembrou dos esforços de seu governo por um acordo de paz na região da Oriente Médio e defendeu a existência dos estados de Israel e da Palestina. Lula ressaltou também a necessidade do diálogo para resolver conflitos e recordou conversas com líderes como Barack Obama, Shimon Peres, Yasser Arafat e Benjamin Netanyahu sobre o tema. Manifestantes fizeram referência ao perigo do autoritarismo e a manifestações simpáticas ao nazismo.

No início do ato, realizado na sede do Sindicato dos Químicos de São Paulo, na região central da capital, o músico e professor Jean Goldenbaum falou sobre a formação do coletivo Judias e Judeus com Lula e leu a carta dirigida ao ex-presidente, com aproximadamente 450 assinaturas. “Apoiamos o presidente Lula porque o vemos antes de tudo como um democrata e uma pessoa que sempre lutou consistentemente por justiça social, igualdade e direitos humanos a todos os brasileiros e brasileiras”, diz trecho do documento. O texto faz referência à “luta contra o extremismo e a intolerância que hoje ameaçam todas as minorias do país”.

Goldenbaum destacou ainda a “batalha contra a destrutiva extrema-direita brasileira”. Ele observou que o encontro de ontem não tinha a pretensão de falar em nome de toda a comunidade judaica, até porque muitos apoiam o atual governo, mas acrescentou que “o número de judeus e judias que estão na resistência também é grande”. A carta termina desejando shalom (paz, em hebraico) ao ex-presidente. Lucas, neto do jornalista Vladimir Herzog, assassinado pela ditadura em 1975, participou da homenagem a Lula.

O ex-chanceler Celso Amorim afirmou, pouco antes, que um verdadeiro diplomata é o que mostra capacidade “de se colocar no lugar do outro”. “E a paz só é obtida dessa maneira. A paz nunca é imposta. É conquistada, por concessões recíprocas”, acrescentou. Outros ex-ministros estavam presentes, como o também ex-candidato Fernando Haddad, Alexandre Padilha e Paulo Vannuchi. Também participaram a presidenta do PT, deputada Gleisi Hoffmann (PR), do vereador paulistano Eduardo Suplicy,  além de Clara Ant e Paulo Okamotto, do Instituto Lula.

“Eu não estou livre, estou solto”

O número de participantes superou com folga a capacidade do auditório, que é de 290 pessoas. Foram lidos poemas e textos de autores como o português José Saramago, o italiano Primo Levi – sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz, na Polônia – e do escritor israelense Amós Oz, um militante da paz, de quem Celso Amorim se tornou amigo. O chanceler citou observação do escritor, que definiu o conflito entre Israel e Palestina como “uma trágica luta entre duas vítimas da Europa”. Também houve cantoria: Goldenbaum, por exemplo, interpretou Lamento Sertanejo, de Gilberto Gil e Dominguinhos.

Em discurso de 41 minutos, Lula lamentou o posicionamento do governo norte-americano no acordo intermediado pelo Brasil com o Irã na questão do enriquecimento de urânio, ao mesmo tempo em que criticou a cobertura dada pela imprensa brasileira às negociações naquele momento. “Eles nunca tiveram interesse de contar 5% do que aconteceu”, afirmou. Dois anos depois, um novo acordo foi anunciado, “bem pior do que nós fizemos”. Para ele, isso se deve a uma preocupação de evitar o protagonismo internacional do Brasil.

Lula não fez menção ao atual presidente da República, mas criticou o ministro Sérgio Moro, da Justiça, que faria parte, juntamente com os que o condenaram à prisão, “de uma quadrilha que tenta destruir a soberania do país”. Ressaltou que ao afirmar que não trocaria sua dignidade para ser libertado não estava falando uma “bravata”. E relativizou sua liberdade: “Eu não estou livre, estou solto”.

Lula voltou a agradecer aos militantes que permaneceram na vigília em Curitiba durante sua prisão, e disse que leu muito durante o período e se esforçou “para não me deixar consumir pelo ódio”. “Tenho certeza de que o Moro não dorme de consciência tranquila, que eles tomam tarja preta para dormir”. O ex-presidente disse ainda que o agora ministro de Bolsonaro “dá sinais” de que pretende ser indicado ao Supremo Tribunal Federal, depois de “mentir ao Congresso, à imprensa e à sociedade”.

Ele não comentou sobre possíveis alianças  do PT com outros partidos visando as eleições deste ano. Por fim, lamentou que Haddad não tenha sido eleito em 2018, e emendou: “Tamos de boa. Porque nós amamos a liberdade, nós amamos a cultura, nós amamos a paz, e é por isso que vamos continuar lutando. A história vai nos fazer justiça neste país”.

Fonte: RBA

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