Por Fernando Brito

Espalhe-se a espuma com que sempre se tenta tampar a superfície da política.

Esta história de aprovar mudança constitucional para impor a prisão antecipada é pura marola, esperteza covarde de Dias Toffoli para “empurrar” para o Congresso a soberania da decisão que o STF teve – o verbo é esse – que exercer no julgamento de quinta-feira.

Marola, porque serve à simples agitação: terá de formar maioria de dois terços para um casuísmo – e desta vez sem o empurrão que Rodrigo Maia deu à Previdência – , superar uma decretação de nulidade por reformar cláusula pétrea e, afinal, aprovar algo absolutamente inócuo, pois não retroage para quem interessa: Lula, que dependeria de condenações posteriores à eventualíssima mudança constitucional, pois a Carta estabelece no inciso XL do art. 5º, que “a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu”.

A sequência de tuítes de Joice Hasselmann conclamando os “bolsonaristas-raiz” para obstruírem a pauta da Câmara até a votação desta PEC esdrúxula dá ideia do quanto é patético este movimento.

A outra marola, esta densa como as borras de óleo que aportam em nossas costas, é a questão da perseguição judicial a Lula, que levará mais tempo para ser dissolvida, mas que o será, porque há ainda tonéis de solvente a saírem da Vaza Jato e porque os personagens desta trama esvaziaram-se.

Concluso este processo – lento, doloroso e imundo – voltaremos às águas da disputa política.

Está evidente que ao atual governo interessa a polarização.

José Roberto de Toledo – uma dos melhores analistas de pesquisas de opinião, penso eu – resume a equação: “Lula solto + Bolsonaro live = centro esvaziado”, embora este conceito de centro, no Brasil, abranja o que em toda a parte se chamaria direita, como Dória e companhia.

Nas contas de Bolsonaro, a presença de Lula no leque da política deixa mais fracos aqueles que poderiam ser uma alternativa para o antipetismo que o levou à vitória eleitoral no ano passado.

Não é uma avaliação estúpida: o horror das elites brasileiras a qualquer coisa que se possa classificar como popular é histórico, imenso e incessante.

Fosse apenas isso, acho que Jair Bolsonaro teria dado um grande passo político, até porque seu principal adversário no campo do autoritarismo, Sergio Moro, sai mais fraco deste episódio porque, para usar os conceitos do atual presidente, acabou por não cumprir sua “missão”.

Mas acho que o decisivo é outro fator, que não depende de planos e tem uma força difícil de reprimir: a realidade.

É que, ao contrário do que figurou ser na sua escalada ao poder, Jair Bolsonaro não é mais um “Mito”, é o governante de um país desgovernado, economicamente estagnado e institucional e politicamente avacalhado.

Percebe-se um sentimento de enfado – que tende à impaciência – na população, esgotada por cinco anos de crise e degradação do convívio social.

Diante do qual o passado da “Era Lula” é quem tem potencial de se tornar (mais) mítico.

É o paradoxo da guerra: depois que se a tem, com seu horror, sua destruição, seus escombros pelas ruas, nada é mais desejado que a paz.

Fonte: TIJOLAÇO

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