Ana Patté, graduada em licenciatura intercultural, com ênfase em direitos indígenas,  mostra, com embasamento teórico e indignação os ataques racistas, cheios de ódio, que os povos originários vêm sofrendo, principalmente:  nas redes sociais: “por que querem mais terra se não plantam?”, “índio vagabundo”, “índio não produz renda”…  e muitos outros vários adjetivos e xingamentos  usados para amedrontar e colocar em pauta que os indígenas não precisam de suas terras. Ela também luta pelo fortalecimento da causa, para a demarcação e pelo reconhecimento do seus territórios sagrados  e  contra o Marco Temporal

 

Por muitas décadas, os povos indígenas vivenciam ataques estrondosos. Mais recentemente, lutam diariamente para sobreviver aos ataques do atual governo que, desde sua campanha, já se dizia contrário à demarcação de terras indígenas.
Nos últimos anos, o povo Laklãnõ Xokleng tem reivindicado e lutado para a garantia da demarcação do seu território tradicional. O caso, classificado como de repercussão geral pelo STF, tem sido um dos assuntos mais comentados no meio indígena, e também problematizado no campo político dos ruralistas e da bancada do agronegócio, pois a demarcação da terra indígena Laklãnõ repercutirá na demarcação de tantas outras terras indígenas.
A questão é que a bancada anti-indígena entrou com uma ação chamada de Marco temporal, que vai contra todos os fundamentos demarcatórios de terras indígenas, ou seja, chega como um processo genocida aos povos indígenas, pois a tese exige que só poderão ser demarcadas as terras onde os indígenas estavam exatamente no dia 5 de outubro de 1988, ou seja, na promulgação da Constituição Federal.
Percebemos aí a inconstitucionalidade do chamado Marco Temporal, pois o processo de “integração” dos povos indígenas no Brasil foi historicamente pensado para o genocídio e para a aculturação dos povos.
Nós não conhecíamos as fronteiras, vivíamos desde o norte do Rio Grande do Sul até o sul de São Paulo, éramos considerados nômades, pois fazíamos os ciclos das regiões conforme as estações, no inverno estávamos nas serras, pois era de onde tirávamos nossos alimentos, como o pinhão e a caça, e, no verão, íamos ao litoral em busca do peixe.
Vivíamos nesse ciclo até o homem branco chegar em nossas regiões e se declarar dono do nosso território; nossos ancestrais foram mortos pela ganância do homem branco, começou-se junto ao Serviço de Proteção ao Índio (SPI) a caça aos bugres, para que fizessem a “limpa” na região do alto vale, hoje conhecida como a região mais alemã do Brasil. A verdadeira história genocida não é contada, o fato é que esta região conhecida hoje com tal nome foi construída em cima de sangue indígena, sangue Xokleng, sangue guarani e sangue Kaingang.
Lembrando que a criação do SPI já teria acontecido anos antes, por conta do genocídio que os Xokleng estavam vivenciando com o processo de imigração de refugiados alemães e italianos na região hoje conhecida como Alto Vale.
Por muitos e longos anos, criou-se uma narrativa de que não havia mais indígenas na região de Ibirama e José Boiteux, pois estes já haviam sido massacrados pelos bugreiros, homens pagos para matar homens, mulheres e crianças, ou seja, queriam o extermínio do povo Laklãnõ Xokleng, mas isso não nos enfraqueceu. Toda a luta daqueles que sobreviveram aos ataques, e que nos deixaram seu legado, nos fortalece mais, e a demarcação da nossa terra não diz respeito só aos que estão vivos, mas diz respeito principalmente aos que morreram lutando para que sobrevivêssemos.
Essa tese do marco temporal não é só anti-indígena, mas é como um tiro, um ato genocida contra os povos indígenas, que vivenciamos diariamente o racismo, o preconceito, a falta de conhecimento sobre a causa.
A retirada de pauta do processo conhecido como de repercussão geral pelo STF, o chamado Marco Temporal, que ia para votação no dia 28 de outubro último, mostra mais um vez a estratégia do governo genocida, que quer ganhar tempo para que estratégias possam ser montadas para a aprovação do projeto.
Naquele mesmo dia 28 de outubro, os indígenas Laklãnõ Xokleng foram às ruas, fecharam a BR-470, para mostrar ao povo e ao governo sua indignação quanto à retirada de pauta do processo. Isso gerou opiniões diversas dos brancos que moram ao redor, pessoas com falta de conhecimento do caso, pessoas que nasceram e cresceram ouvindo que terra pra ser útil tem que ser explorada, tem que plantar.
Os ataques racistas, cheios de ódio, circularam nas redes sociais: “por que querem mais terra se não plantam?”, “índio vagabundo”, “índio não produz renda”, “seus bandos de vagabundos, vão trabalhar” e muitos outros vários adjetivos e xingamentos foram usados para amedrontar e colocar em pauta que não precisamos da nossa terra.
Essas e outras falas racistas que ouvimos e vimos não nos amedrontam e nem nos calarão, lutaremos para o fortalecimento, para a demarcação e pelo reconhecimento do nosso território sagrado. Tentaram nos enterrar, mas não sabiam que éramos semente.

 

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