Maria Maia: Noigandresas

Noigandresas

Para Thiago de Mello, poeta amazônico e universal

Por Maria Maia

poeta, de onde vem tua poesia?

ela sempre brilha e entontece e

encanta

mesmo quando, sólida, se

desmancha

e quase liquefeita no meu canto vibra

 

tua flauta de Orfeu já me convida

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– Eurídice que estou no Hades tão

perdida –

a desatravessar o labirinto, ávida

por encontrar a pura via da poesia

 

é cedo, amigo, ainda é pleno dia

“vejo vermelhos, verdes, blaus,

brancos, cobaltos”

mesmo aqui, da insuportável estatura

do planalto

do oco do Brasil q me sufoca  e exalta

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– ser da Grande Planície, como tu

gerado –

a contar as malfeituras desta malta

que vomita fel no meio do Cerrado

espalhando malvadeza em todo canto

traz teu canto que desfaz tristezas

e dos recantos mais profundos das

funduras amazônicas

traz o alho, a alfavaca, e a ova fresca

da curimatã

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já está posta a mesa que amanhã te

espera

com o verde que cheira a

noigandresas

Maria Maria – Poeta. Conselheira da Revista Xapuri.

Block

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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