A água e o ser humano – do pecado original ao pecado mortal

Dedicado a Dom Pedro Casaldáliga, o peregrino do Sertão de Dentro

Os primeiros representantes do gênero humano, conhecidos como Homo-habilis, se apossaram das águas do antigo lago Turcana, impedindo que seus parentes, os Australopithecineos, fizessem também uso dessa água. E assim nosso primeiro ancestral conduz à extinção nossos parentes próximos e, com base na competição, se estabelece à margem do lago, transformando-o no seu território primordial. Com isso, a humanidade ainda no seu alvorecer, na disputa pela água, comete o “Pecado Original”, fundamentado no egoísmo e no desejo de não compartilhar.

Do alto do seu poderio, o Homo-habilis se transforma em Homo-erectus, conquistando, além da África, o Extremo Oriente e a Europa, sempre migrando ao longo de antigas fontes de águas cristalinas. Por volta de 200 a 150 mil anos atrás, o Homo-erectus dá origem ao Homo-sapiens primitivo, exímio caçador, nômade, cujo consumo de proteína animal o transforma num guerreiro fabuloso, mas extremamente dependente da água.

agua_e_o_ser_humanoPor volta de 30 mil anos, o Homo-sapiens primitivo, agora transformado em Homo-sapiens-sapiens, já se encontra disperso pelos quatro cantos do planeta. Os vestígios arqueológicos demonstram que há muito nossos antepassados escolhiam seus locais de acampamentos, ou para construir suas aldeias e cidadelas, levando em consideração a qualidade da água. Como artimanhas usavam sacrificar um animal e examinar o seu fígado; se este estivesse azulado, poderia ser indício de água ruim.

Não é de se estranhar, portanto, que os primeiros documentos escritos dos Sumérios já contivessem normas sobre a utilização da água. Os camponeses sediados às margens do Nilo, do Eufrates e do Tigre tinham de evitar que esses rios surpreendessem, por ocasião de suas enchentes. Inventaram primitivos, mas eficientes pluviômetros.

São incontáveis os registros, em antigos documentos, que assinalam o significado que se emprestava ao uso da água. No Eufrates, por exemplo, foi encontrada uma lápide em calcário de mais ou menos 400 anos antes do presente com a inscrição: “Ur-Namu foi quem ordenou que se realizassem as obras dos canais; mas ele cede aos deuses a honra de fornecer a dádiva que é a água, abençoada, que dá fertilidade às terras”.

Também, no Velho Testamento há inúmeros indícios da importância que se conferia à água. A noção de que se devia economizar água estava profundamente arraigada na mentalidade dos nossos antepassados. Foi Aristóteles o primeiro a estabelecer as relações entre a água da chuva e a água subterrânea.

Hipócrates faz inúmeras menções às fontes e a seus poderes curativos.

Ainda na Antiguidade, as fontes mereciam a veneração dedicada às mães que, por sua vez, eram as protetoras dos lagos.

A água era utilizada como fonte de purificação e motivou João Batista no rio Jordão a expurgar o pecado original no batismo. Todas as religiões da terra a usam, com seus poderes mágicos, nos seus rituais. É a madrinha dos querubins.

Foi na margem do rio Niger, em Timbuctu, que Ibn Batuta, pregador do Islão pelas terras do norte da África ao Iêmen, criou no século XI a primeira Universidade para estudar a relação dos povos com água.

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E, assim, acumulando conhecimentos, o homem da pedra lascada, quase que num passe de mágica transformas-se em agricultor, promove a revolução mecânica, a revolução elétrica e nas últimas décadas a cibernética, matriz da revolução eletrônica.

O fato é que hoje temos conhecimento suficiente para afirmar que a água é um recurso finito. Mas os donos do mundo já estão falando em privatização das águas, ou seja, querem considerar a água apenas um bem comercial, em contraposição aos que a veem como patrimônio da humanidade. Será o princípio do fim, porque a ganância associada ao egoísmo no seu mais elevado grau fará o gênero humano se destruir pelo “Pecado Mortal”.

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Altair Sales Barbosa

Professor, Pesquisador do CNPq, Doutor em Antropologia e Arqueologia pela Smithsonian de Washington DC

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