O rio São Francisco nasce no Cerrado de Minas Gerais, na Serra da Canastra, e percorre mais de 3.000 km até sua foz. Ao longo desse percurso, vai engrossando suas águas, principalmente com seus afluentes da margem esquerda, que formam as sub-bacias dos rios Paracatu, Urucuia, Carinhanha, Corrente e Grande.

Todos esses rios e seus alimentadores menores estão morrendo a cada hora que passa. Alguns já desapareceram para sempre.

Isso acontece porque os dois grandes aquíferos que fazem o São Francisco brotar e o alimentam ao longo do seu percurso estão secando. Para entender esse fato, é necessário recuar no tempo pelos menos 45 milhões de anos.

É nessa época que o Cerrado adquire suas feições atuais, cuja vegetação possui um sistema radicular complexo e, por esse fator, começa a reter as águas das chuvas que caíam principalmente nos chapadões do Noroeste de Minas, Oeste da Bahia, Distrito Federal, Nordeste Goiano e parte do Tocantins.

Essas águas são, primeiro, armazenadas nas rochas decompostas, que formam o lençol freático, depois, pela abundância, infiltra pelas brechas das rochas do subsolo e se acomodam nos lençóis profundos, que formam o aquífero Bambuí, de idade Proterozoica e o aquífero Urucuia, de idade Mesozoica.

Quando os aquíferos retiveram água suficiente, essa começou a brotar, na forma de nascentes, principalmente nas testas da Serra e na forma de pequenas lagoas nas áreas aplainadas, formando as veredas. Com o tempo as águas, como lágrimas milagrosas, começaram a descer em direção ao leste, alimentando a calha do seu condutor-mor, o rio São Francisco.

E assim foram se formando paisagens que deveriam ser maravilhosas. Ao longo dos rios surgiram lagoas e banhados, onde se multiplicavam em grande quantidade os peixes que outrora eram abundantes, não só no São Francisco, mas em todos os seus afluentes.

Na realidade, os afluentes da margem esquerda são os principais responsáveis pela perenização do rio São Francisco e pela sua oxigenação e, em última instância, pelo seu nascedouro e existência.

A água armazenada nesse grande espaço geográfico, abrange desde a Serra da Canastra, ao sul, até a Chapada das Mangabeiras, ao norte, e se limita a oeste pelo Espigão Mestre, que separa Goiás e Tocantins de Minas e Bahia.

Esses rios são perenes durante toda época do ano e até cerca de 30 anos atrás o volume era no mínimo 5 vezes maior que o atual.

A partir de 1970, as áreas dos chapadões, onde se situam as nascentes e os cursos médios desses rios, vêm sofrendo uma grande transformação, com a retirada da cobertura vegetal natural, para a produção de grãos e outras plantas exóticas. Esse fato tem impedido a realimentação normal dos aquíferos, contribuindo para o desaparecimento de inúmeros afluentes menores e a diminuição drástica do volume dos cursos maiores.

A maior parte dos afluentes da margem direita do rio São Francisco é formada por rios temporários, que costumam desaparecer na estação seca. Isso ocorre porque esses rios não são provenientes de aquíferos, dependem das águas armazenadas no fino lençol freático que repousa sobre rochas não porosas que constituem o Cráton do São Francisco.

O lençol freático está na dependência das águas pluviais e da vegetação. Portanto o desmatamento associado a um período de estiagem prolongada o afeta totalmente. O rio mais importante pela margem direita não é temporário, porque vem do aquífero Bambuí. Trata-se do rio das Velhas.

A retirada da cobertura vegetal natural do Cerrado tem influenciado a própria vida do São Francisco, já que este depende de fatores ecológicos extremamente complexos e interdependentes. O processo de desaparecimento dos seus alimentadores hidrográficos está acontecendo num ritmo muito acelerado, em função desse fator.

Vez em quando, vão ocorrer cheias estrondosas, provocadas ciclicamente por fenômenos naturais com El Niño e La Niña. Mas isso não significa que o rio tenha ressuscitado, pois são fenômenos efêmeros, provocados por enxurradas resultantes de chuvaradas que se deslocam pelos antigos caminhos das águas.

O que aconteceu com o quadro vegetacional vem acontecendo também com os animais, incluindo os insetos polinizadores, que se encontram em acentuado processo de extinção. No caso específico da fauna aquática do rio São Francisco, essa era abundante, com variadas espécies de peixes que saciavam a fome das populações ribeirinhas e ainda mantinham comércios dinâmicos. Esse panorama não existe mais.

Com a concretização do atual projeto de transposição das águas do rio São Francisco para os dois eixos adutores maiores e para os eixos menores, prevista para ser totalmente finalizada em 2017, em consonância com o funcionamento total das bombas sugadoras instaladas em Cabrobó e Itaparica, todo o sistema hidrográfico da bacia será afetado drasticamente. Isso porque a dinâmica do grande rio e toda sua bacia é formada por rios senis, que já atingiram seu estado de equilíbrio, e será também drasticamente afetada.

As consequências da transposição serão danosas e num curto espaço de tempo levará à morte a maioria dos afluentes do São Francisco, incluindo o próprio rio. Isso acontecerá porque, com a dinâmica alterada, o transporte de sedimentos arenosos aumentará de forma assustadora, gerando o assoreamento, já que a maioria dos seus afluentes corre por áreas da Formação Urucuia, cuja característica principal é a ocorrência de um arenito frouxo.

A transposição, da forma como se nos apresenta, aumentará também a velocidade dos rios na sua calha principal, isto provoca em todos os afluentes o fenômeno denominado sugamento dos aquíferos, que serão sugados em velocidade maior para alimentarem os rios agora mais velozes, desde seus cursos superiores, transformando-os em cursos d’água intermitentes.

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