Desde que descobri essa encrenca desse câncer no dia 30 de junho de 2015, tomei a decisão de levar todo o processo de  tratamento com coragem, dignidade, transparência e, acima de tudo, com esperança.

Optei por esse caminho com o sonho de que talvez  possa ajudar outras pessoas a lidar com seus momentos difíceis ancoradas na mesma fé, na mesma solidariedade. Sempre penso que o antídoto para o medo (imenso, apavorante, paralisante), é o abraço fraterno que alimenta a esperança.

Contribuir para que alguém em algum lugar possa se fortalecer para tratar do inusitado que é se descobrir com câncer, ou ter que enfrentar um tratamento de câncer com coragem e confiança era,  e segue sendo,  a minha intenção.

De volta, recebi o prêmio maior que a um ser humano se pode dar em vida: o carinho de uma incrível rede de anjos e anjas que me animam na descoberta de tratamentos alternativos, na energia do pensamento positivo e no movimento contínuo das rezas e mandingas (que também me chegam muitas, e das boas).

É essa presença coletiva de anjos e anjas que mais me levanta nos tempos de maior tranqueira. Na verdade, é o que me salva!  São esses pequenos gestos que contam, da mesma forma que são os pequenos gestos de descortesia que me pioram, mais do que os resultados dos exames (mas eles são tão poucos que, para se salvar, basta se afastar do que te  causa dor).

Como sempre ganho das pessoas e das forças da natureza essa incrível quantidade de afeto, carinho, amor e proteção, do meu jeito torto e imperfeito,  todo santo dia vou agradecendo a Nhanderu e aos céus pelo privilégio e pela honra de contar com tanta gente  linda em meu viver.

É por essa razão que sigo sempre dando  “gracias a la vida, que me ha dado tanto“. É a minha maneira de expressar a mais profunda gratidão por esse universo de luzes que povoam o meu caminho. É em respeito a esse imenso “tanto” que venho recebendo que tento compartilhar o que vai passando comigo, aqui no Bem-Querer ou em Brasília.

Pra começar, depois da mastectomia radical no dia 3 dezembro, que me deixou sem seios mas não me tirou o peito para seguir lutando,  tenho tidos bons momentos e alguns momentos muito punks.

Terminei as doses do Taxol, que em tese é o que causa o mal-estar da quimioterapia, e continuo até o final de outubro com o Herceptin. Não era pra me sentir tão mal, diz a doutora, mas o fato é que sinto dores terríveis,  topo com náuseas estupendas, e de vez em quando meus olhos se arroxeiam  que nem casca de jabuticaba antes de virar licor.

Um erro grande que cometi foi embarcar na onda da modernidade e colocar esse tal de expansor. Além do inchaço frequente nos braços, das dores na barriga e nas costas, o incômodo desse estrupício é 100 vezes pior do que todas as seções de químio juntas.

Só que com a químio você vomita a alma, toma um bom chá de gengibre e no outro dia levanta sem maiores incômodos, enquanto que com o expansor, todo dia é dia de canseira,  de total e extrema canseira.

Pois bem, agora que o tratamento está encerrando, decidi trocar a plástica pela retirada dos expansores. Vou ficar que nem tábua, mas não ligo nem um pouco. Só quero ficar livre disso, mesmo sabendo que o desajeito pode ser permanente. Mas não custa tentar, penso eu.

Comecei, em julho, uma rodada de exames minuciosos para ter a certeza de que estou bem, de que avanço no processo de cura. Comecei, também, os exames do risco cirúrgico para o pré-operatório da retirada dos expansores. E aí foi que o bicho pegou.

Os exames de agosto encontraram um outro linfonodo suspeito na minha axila esquerda. Pequeno, na verdade ainda diminuto, mas com as mesmas características da metástase da axila direita no ano passado.

Confesso que pela primeira vez, desde o começo de julho de 2015, bateu uma onda de pânico (que já passou – essa é minha sorte, sou por natureza esperançosa). Meus exames gerais não estão perfeitos mas também não me mostram com o pé na cova. 

Ao contrário, esse mês até ganhei um quilo de peso. Mas voltei à estaca zero, tô de novo na fase doída das biópsias. Já fiz duas, mas o material coletado foi insuficiente. Então semana que vem tem mais, até descartar nova metástase ou definir o tratamento para a nova metástase.

Enquanto avanço nos procedimentos, vou aproveitando essa nova fase de parada  obrigatória para cuidar mais Xapuri (quem não recebeu ainda vai receber uma cartinha minha) e para começar a trabalhar na nossa edição de segundo aniversário (anote aí, edição de outubro).

Decidi também aproveitar o tempo para compartilhar dicas e sentimentos que talvez possam ajudar fortalecer o tratamento de outras pessoas:

  1. SERENIDADE, ACIMA DE TUDO: Eu, particularmente, estou muito irritada com esse novo linfonodo, mas me sinto serena com respeito ao meu destino. Espero que não seja um outro câncer, mas se for, vou seguir com disciplina o tratamento, vou cuidar melhor da minha dieta e, na medida do possível, vou tentar passar mais tempo com meus netos. O resto, o que  pertence ao imponderável, seja o que seja.
  2. MENTE ATIVA, SEMPRE ATIVA: Desde o dia em que esse segundo linfonodo apareceu, eu nunca mais consegui dormir direito. Confesso que fico com preguiça do sono, porque quero viver o mais alerta possível. Como durmo pouco, tenho lido mais e escrito mais. Claro que nem tudo sai de primeira qualidade, mas pelo menos mantenho minha mente ativa, alerta e longe da depressão.
  3. ESPERANÇA, O QUE SALVA A GENTE É A ESPERANÇA: Tive, ao longo do tratamento, os medicamentos mais avançados, daqui, de Cuba, dos Estados Unidos; os fitoterápicos mais poderosos da flora brasileira; as rezas de meio mundo; o afeto de minha família e dessa multidão de anjos e anjas que me cuidam.

Tudo isso me fortalece, me faz querer viver.

Mas o que me salva mesmo, é essa danada dessa fé na vida, é essa bendita dessa esperança!

 

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Zezé Weiss

Jornalista Socioambiental

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