Por Zezé Weiss

Os meses de setembro e outubro foram assim: a cada dia, as praias do Nordeste amanheceram coalhadas de manchas e pontos pretos, algumas grandes, gosmentas, assustadoras, outras menores, bordando vastidões de areia com grandes pingos de óleo-petróleo, todas trazidas pela força

das marés que movimentam as ondas das águas do mar.

A cada manhã, ante a completa inoperância do Estado, centenas de voluntários e voluntárias tomaram para si a tarefa hercúlea de combater com as próprias mãos esse monstro terrível, como se fosse uma cobra com uma imensidão de cabeças e com o poder de disparar veneno a esmo, insistindo em tingir de dano e medo as areias nordestinas.

Embora medidas tardias tenham surgido por parte do governo federal, quase sessenta dias depois da primeira mancha, novembro entrou com o mar em plena atividade de devolver à terra um piche que não é seu, infelizmente para  uma areia que também não é dona sua, tristemente nas belas e  ensolaradas praias dos estados do Nordeste.

É como se Hidra, a besta imortal com corpo de dragão e cabeças de serpente, filha de Tifão e da metade mulher-metade cobra, Equidina, da mitologia grega, tivesse resolvido despertar da morte desde os pântanos do lago de Lerna, na região de Argólida, na Grécia Antiga, onde nasceu e viveu, para migrar, com toda a força de sua monstruosidade, para as bandas do oceano Atlântico, nas costas brasileiras.

Conta a lenda que, ainda bebê, Hera, a esposa do deus Zeus, adotou Hidra, dando ao maior monstro do pântano alimento, proteção e incentivo para desenvolver todos os seus instintos destrutivos. Treinada para destruir o que lhe viesse pela frente, com o tempo, Hidra tornou-se infinitamente mais perigosa do que a cobra, sua parente mais próxima.

Os números variam, mas conta-se que Hidra teria entre meia dúzia e uma centena de cabeças, cada uma delas sustentada por um enorme pescoço, com capacidade    de se enrolar ou se afastar e atacar os adversários em todos os ângulos possíveis.  Com toda essa mobilidade, o monstro consegue atacar amplas áreas, destruindo comunidades inocentes, devorando biodiversidades inteiras.

No caso de Hidra, entre as suas várias cabeças, conta a lenda que apenas uma era imortal, porém essa cabeça imortal era protegida por todas as outras cabeças mortais que cresciam ao seu redor. Se alguma das cabeças mortais fosse cortada, duas outras surgiriam no seu corpo para substituir a perda. O monstro só poderia ser morto se fosse cortada sua única cabeça imortal.

Um dia, Heracles, filho de Zeus, para também tornar-se imortal, recebeu como missão enfrentar e destruir a cabeça imortal de Hidra. Heracles então entrou no pântano e, com a boca e o nariz cobertos para não respirar o cheiro venenoso do monstro, começou a cortar as cabeças de Hidra o mais rápido que podia. Mas, quando mais cabeças cortava, muitas mais cabeças surgiam.

Então, Heracles pediu ajuda a seu sobrinho Iolaus que, com uma tocha acesa, ia queimando as cabeças à medida que Heracles as cortava, impedindo que outras nascessem. Dessa forma, o herói conseguiu alcançar a cabeça imortal de Hidra e, com uma espada de ouro que havia ganhado de Athena, teria dado fim ao monstro do pântano de Herna.

Seria o caso agora de invocar aos céus para que nos mande Heracles, acompanhado das tochas de fogo de Iolaus, para dar fim a essa nova cabeça de Hidra, já que o governo brasileiro parece não saber de onde vem nem como combater a destruição causada por este novo monstro dos mares?

Zezé Weiss – Jornalista

 

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