Nos tempos passados havia só o Lua e a Sol. O Lua era um homem, e a Sol, uma mulher. A Sol era a menina mais bonita do céu, ôsu. O Lua, iraka kanâtakisu, sol da noite, era um homem que vivia sozinho. O lua só clareia à noite, por isso ele só andava à noite.

Certa vez ele pensou: “Preciso de alguém ao meu lado”.

Ele só dormia dentro de casa, onde era bem escuro, e andava apenas em volta dela. E a Sol também: só andava em volta da própria casa, porque havia trabalhado muito e estava muito cansada.

Um dia, ao acordar, a Sol estava em cima, olhando pra ele. O Lua gostou da Sol e decidiu dormir na casa dela. Mas a Sol não sabia que o Lua era muito namorador.

Desse dia em diante, o Lua passou a ir todos os dias à casa da Sol, que era bem grande, para namorar. O Lua pensou: “Se existirmos só eu e a Sol, não terá brilho no céu. Tenho de fazer alguma coisa”.

Toda vez que o Lua namorava a Sol, dela nasciam milhares de estrelas. Como namoravam todos os dias, nasceram milhares e milhares de estrelas, e a Sol começou a ficar brava com o Lua porque era muito trabalhoso ser mãe de tantas estrelinhas. No início, ela cuidava de suas estrelinhas dentro da casa, mas elas eram tantas que começaram a se espalhar pelo céu. Então, a Sol pensou: “Lua, você vai pagar muito caro por isso”.

A Sol saiu da casa, pegou um machado de pedra e uma cuia e foi para o campo à procura de uma magabeira, kadikisu, que soltava um leite parecido com cola, que ela pretendia jogar na cara do Lua.

O Lua, que não sabia de nada, ia só de noite à casa da Sol. Então, ela se deitou no chão, colocou a cabaça bem atrás do pescoço e ficou à espera do Lua. Ela sabia que o Lua vinha toda noite, porque ele não podia sair durante o dia. Então pensou: “Vou fazer fogo aqui na porta para não errar e não desperdiçar o leite da mangabeira”.

Assim, ela fez o fogo e esticou-se toda, ficando deitada de barriga para cima ao lado da porta.

Enquanto isso, o Lua pensava: “Que bom, hoje vou dormir com a Sol”. Ele se arrumou, penteou o cabelo e saiu, e assim que chegou à casa da Sol disse:

– Posso me deitar com você?

– Claro! – respondeu a Sol.

Ela sabia que ele ia se deitar em cima dela. Então pegou a cuia de leite de mangabeira e jogou no rosto dele, que ficou todo manchado.

O Lua ficou bravo com a Sol. Até hoje, quando o Lua está cheio, pode-se ver a cara dele toda manchada. Desse dia em diante, ele não foi mais à casa da Sol, e assim não nasceram mais iraka wêhalisu, filhotes de Sol, as estrelas. E cada qual ficou no seu canto: o Lua, a Sol e as estrelas.

Eles deixaram de ser gente e, lá de cima, passaram a cuidar do mundo aqui embaixo. Eles nasceram para fazer esse trabalho.

A Sol, então, disse:

– Eu cuido do dia. Você, Lua, cuida da noite, para clarear um pouquinho. E vocês, pequeninos, vão ter de brilhar para o céu ficar bonitinho.

Nem as estrelas, nem o Lua, nem a Sol morreram – eles estão vivos… lá no céu.

Renê Kithãulu – Professor Indígena. Escritor, em “Irakisu – o menino criador”, coordenação de Daniel Munduruku. Coleção Memória Ancestral do Povo Nambikwara. Editora Peirópolis, 2002.

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