Dos mitos gregos, talvez este seja um dos menos lidos. Conta a lenda que, num dia de outono, Coré colhia flores no campo com suas primas quando, repentinamente, a terra se abre, e a jovem é raptada por Hades, o senhor do reino dos mortos. Ao sofrer pela perda da filha, Deméter passa a vagar pelo mundo, sua dor faz a terra secar e o alimento faltar, o medo da destruição faz Zeus interceder junto a seu irmão, Hades, e permite-lhe recuperar sua filha.

Para voltar do mundo das trevas, Coré, agora como Perséfone, sela um acordo. Ela deverá permanecer com Hades o equivalente em meses ao número de sementes de Romã que tivera engolido. Na releitura do mito, diz-se que ela teria engolido 4 e passaria um terço do ano com o senhor da morte. Em outra, se lembra da associação entre a cor vermelha da Romã e o sangue, uma referência ao ciclo menstrual, quando a mulher sofre a morte de uma vida em potencial, o que levaria toda mulher a conviver mensalmente com o seu Hades interior.

No mundo ocidental moderno, vivemos muito afastadas dos ciclos da vida, renegando inclusive nossos próprios ciclos biológicos, procuramos fazer de conta que eles não existem. A mulher moderna vive “aqueles dias” como um fardo da natureza. Bem distante da antiga sabedoria que destacava o aspecto mágico do sangue e luminoso do útero como um vaso, aquele que tinha por destino e missão receber e conter a vida.

Os estudiosos da psique feminina (na linha junguiana) apontam que a origem de uma série de transtornos menstruais (o mais frequente talvez seja a TPM) estão relacionados à inconsciência do ciclo vida (e morte). Vivemos a menstruação sem tomar consciência de sua importância; entretanto, o corpo se encarrega de nos lembrar o que esquecemos.

O retorno de Perséfone à sua mãe, Deméter, não é o retorno de uma donzela; esta “morreu”, mas de uma deusa madura, que conhece a sexualidade, a separação e a morte. Neste mito, a inocência de donzela precisa ser sacrificada. Por outro lado, representa a grande perda sofrida pela mãe quando sua filha primogênita se casa e deixa o seu lar, ou então quando todos os filhos saem de casa e a mulher sofre a síndrome do ninho vazio.

Acredita-se que as duas deusas são na verdade uma e que, juntas, representariam a totalidade da Grande Mãe, a deusa primordial. Ambas simbolizam a capacidade de morrer e renascer infinitamente, como mulher, como terra, como natureza. A grande mãe contém todos os contrários, é ao mesmo tempo donzela e mãe, jovem e velha, a que alimenta e a guerreira. Senhora da vida e da morte.

Fonte: https://ocladaslobas.wordpress.com/2011/05/29/persefone-a-roma-e-a-mulher/

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