Por Zezé Weiss

Por 50 anos, dona Maria da Soledade esperou em vão pela chegada de um projeto social que pudesse gerar ocupação e renda em sua pequena e pobre comunidade de Cabeceira da Prata.

Durante meio século, dona Soledade seguiu o destino das mulheres camponesas de Belágua: casou cedo, pariu uma penca de filhos, desbravou capoeira, arrancou toco, formou roça, caminhou hora e meia de ida e volta para cuidar da plantação, porque perto da casa a terra é arenosa e a mandioca, matéria prima da farinha, fonte básica da alimentação da família, não viça.

A manhã de domingo é o único tempo em que, por décadas, dona Soledade tirou descanso. Domingo é dia de reza, uma semana em Cabeceira da Prata, outra semana caminhando “de pés” por pelo menos meia hora, haja água ou areia, para as orações comunitárias no Mosquito, comunidade vizinha.

Tudo isso dona Soledade vem fazendo desde que nasceu. O novo em sua vida é que, já faz um tempo, essa líder comunitária dos campos alagados de Belágua, mãe de 8 filhos e avó de 14 netos, começou a sonhar com outro jeito de viver, com uma vida de menos fome e mais fartura para as 11 famílias de sua comunidade, Cabeceira da Prata.

O direito à esperança ela descobriu em conversas com o comunitário Carlinhos de Morais, há quatro anos voluntário do Movimento Solidário, projeto implantado na região pela Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa Econômica Federal (Fenae), para erradicar a fome das famílias mais pobres e promover o resgate da cidadania nas comunidades mais vulneráveis.

Para dona Soledade, o sonho virou realidade em forma de açude comunitário, “com peixe o suficiente pra dar de comer às crianças e ter de sobra pra vender, pra fazer mais açude e melhorar a vida de todo mundo”. No dia 29 de fevereiro deste ano da graça de 2020, o presidente da Fenae, Jair Pedro Ferreira, inaugurou, com recursos da solidariedade, o primeiro projeto de geração de ocupação e renda de Cabeceira de Prata.

BELÁGUA

Cabeceira da Prata faz parte do conjunto das 59 comunidades rurais de Belágua, o município com o terceiro menor IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) do estado do Maranhão. Os dois primeiros são Marajá do Sena e Fernando Falcão, uma área indígena na região central do estado. O mais pobre, Marajá do Sena, com cerca de 6 mil habitantes, encontra-se localizado em um fundo de vale que alaga todos os anos.

Distante 280 km de São Luís, a capital do Maranhão, Belágua conta com uma população de 7.191 habitantes, apresenta alta taxa de mortalidade infantil, reduzida taxa de alfabetização e está entre os municípios com a menor renda familiar per capita do país: R$ 146,70.

Localizada em uma área de transição entre duas regiões do Maranhão, a região de Lençóis Munin e a região do Baixo Parnaíba, além do clima de semiárido, além da grande pobreza, Belágua enfrenta também uma desassistência muito forte dos serviços públicos.

Para Bruno Lacerda, secretário-adjunto de Direitos Humanos e Participação Popular do governo do Maranhão, essa condição de desassistência e de pobreza extrema advém principalmente da dificuldade de acesso, “já que as pessoas moram em locais praticamente isolados, em uma região que tem muitas formações de dunas, de areia, tornando o acesso aos povoados bastante difícil, complicado”.

Conforme registro da memória comunitária, o povoamento de Belágua se deu em virtude da especulação imobiliária, da disputa de terras e da grilagem em outras áreas do estado. As pessoas foram sendo expulsas, por assim dizer, pela pressão do grande capital nas áreas próximas aos centros urbanos.

Seguindo o curso dos rios, essas pessoas foram se interiorizando, foram se estabelecendo em locais distantes, perto de uma nascente de água. Como o regime de chuvas na região é irregular e como os rios foram sendo assoreados, com o tempo o acesso foi ficando cada vez mais difícil e as comunidades cada vez mais isoladas.

Fátima Carvalho, coordenadora do Movimento Solidário em Belágua, nascida e criada na comunidade de Preazinho, uma das mais distantes e isoladas do município, traduz o tamanho da dificuldade:

Além da areia, metade do ano Belágua é também uma região de campos alagados. Aqui a gente vive entre duas estações, o verão e o inverno. No inverno, que vai de janeiro a maio, às vezes junho, tudo vira um campo alagado, é só água até as portas das casas. No verão, é areia, muita areia por todo lado. Nos dois casos, aqui não chega carro pequeno, só carro alto, traçado.”

ECONOMIA

Uma das características mais marcantes do terceiro município mais pobre do Maranhão é que sua população se encontra extremamente desconcentrada do centro urbano, com cerca de 70 a 80% dela vivendo dos plantios de subsistência em suas comunidades rurais, dependendo quase que exclusivamente dos programas de transferência de renda para a sua sobrevivência.

Domingos Barros de Souza, conhecido como Domingos Cosmo, Agente Comunitário de Saúde (ACS) no município desde a emancipação, em 1994, e parceiro do Movimento Solidário desde 2015, conhece praticamente todas as comunidades de Belágua e, em todas elas, identifica o difícil acesso, o analfabetismo e a ausência de empregos como causas da persistência da pobreza:

Aqui, emprego só na prefeitura, e são poucos, se tiver 300 é muito. Fora disso, tem muito pouca gente empregada nas plantações de eucalipto, como bate-toras e forneiros, e o resto depende mesmo é da aposentadoria dos idosos e do Bolsa Família.”

Domingos alerta também para as condições de trabalho, sobretudo dos forneiros: “forneiro é o emprego da morte, a pessoa entra no forno queimando, sem proteção, depois sai pro tempo, depois entra de novo no forno… em pouco tempo o cara morre, não tem salvação”.

Há também, segundo moradores locais, uma “renda esquisita, que chega para poucos”, por meio da Colônia de Pescadores.  Os mais antigos contam que, desde os anos 1990, o governo federal criou colônias de pescadores para subsidiar os meses do defeso, nas regiões de pesca, no período em que não é permitido pescar.

Em Belágua, são poucos os rios perenes. Embora o lençol freático seja raso, fartura de água só tem na região chuvosa, quando as nascentes se expandem, formando imensas lagoas, que transbordam e fazem das estradas arenosas rios estreitos e extensos.

Nesse período, conta Fátima Carvalho, pequenos peixes sobem para as áreas alagadas. “Depois, quando as águas vão embora, tudo vai secando e, nos poções de água que resistem por mais tempo, ficam só as piabas, que os locais pescam pra complementar o alimento das famílias. Ninguém aqui vive de pesca, porque não tem peixe, e onde não tem peixe não tem pesca, não tem como ter pescador”.

Os comunitários reclamam que as Colônias de Pescadores se tornaram poderosas máquinas eleitorais, “com deputado eleito e tudo”, que atuam para desmobilizar as organizações comunitárias, como os sindicatos de trabalhadores rurais, e, mais recentemente, para desmobilizar os programas de transferência de renda, como o Bolsa Família. “A tática é colocar o marido na colônia porque aí corta o Bolsa Família, depois que acaba o defeso, a família fica sem nada”, afirmam.

Embora não tenha sido possível verificar essa informação, o fato é que, segundo dados do governo do Estado, de janeiro a março de 2020, houve um corte de 20% do Bolsa Família em Belágua e em todo o estado do Maranhão. Maria Silva (nome fictício), oito filhos pequenos em idade escolar, grávida do nono, vive na carne a dor do retorno à desesperança:

Tem seis meses que não recebo o Bolsa Família. Pararam não sei por quê. Já fui pra Belágua tentar resolver, mas por lá ninguém sabe o que fazer.  Mandam voltar depois, dão um número pra gente olhar na internet, sem considerar que na comunidade tem gente que nem sabe o que é internet, e a maioria nem sabe ler”. Já entrando pro oitavo mês de gravidez, Maria hoje vive da solidariedade de parentes e vizinhos tão pobres quanto ela, não sabe como mandar os filhos pra escola, nem como vai ser quando o bebê nascer: “eu não sei, eu não sei, eu não sei…”.

Segundo Domingos Cosmo, o mesmo acontece com os aposentados. Os processos, que antes eram resolvidos rapidamente, hoje se arrastam por meses.  “Os idosos até tentam resolver, se sacrificam pra pagar o transporte, vão a Belágua, mas chegando lá o que ganham é um número que chamam de protocolo, mandam acompanhar pela internet, como não sabem o que é isso, nem conseguem ler, vão ficando na pobreza, sem aposentadoria e sem ter como viver”.

EDUCAÇÃO

Para as famílias camponesas de Belágua, a educação dos filhos é ainda, na maioria das vezes, um sonho impossível. Do jardim ao 4º ano, onde existem mais de 15 crianças, é formada uma sala de aula multisseriada, com um único professor ou uma única professora para ensinar todas as matérias de todas as séries. Com a dificuldade do transporte, os professores com frequência se atrasam.

Há também, ocorrências regulares de falta durante dias, às vezes semanas, pela ausência do transporte. “Como aqui só entra caminhonete e caminhão traçados, quando um deles quebra, não tem outro pra substituir, o jeito é as crianças ficarem sem aula até consertar o transporte”, explica Fátima Carvalho, do Movimento Solidário. Domingos acrescenta que nas comunidades com menos de 15 crianças não tem escola, então todos têm que ir pra próxima comunidade, muitas vezes “de pés”.

Do quinto ao oitavo ano, quando tem carro e as estradas permitem, as crianças estudam em escolas-polo, implantadas nas comunidades maiores. Depois disso, com raras exceções, “a alternativa é casar cedo, ir construindo a casa aos poucos com a ajuda dos pais e da comunidade, ter muitos filhos, montar a própria roça, plantar mandioca e  produzir a farinha para alimentar a filharada e, sobrando um pouco, comprar o arroz, comprar o  feijão, que é só que dá pra comprar  com produção da farinha”, diz Fátima.

ESPERANÇAS E DESAFIOS

Desde 2015, a mudança de orientação política no estado e a entrada do Movimento Solidário no município vêm contribuindo para mudar um pouco essa realidade. Da parte do Estado, uma das primeiras ações do governador Flávio Dino foi, em ação pactuada com os municípios e com a sociedade civil, criar o programa Mais IDH, para cuidar das demandas mais emergenciais dos 30 municípios mais pobres do Maranhão.

Coordenado por Bruno Lacerda, em Belágua o programa atua em parceria com o Movimento Solidário. “Por exemplo, onde a Fenae coloca o açude, a gente entra com assistência técnica; e, onde o peixe já é produzido, o governo do Estado entra com a compra do excedente da produção”, explica Bruno, que vê avanços significativos na redução da pobreza no município:

A gente sabe que uma realidade como essa não muda da noite pro dia. Mas de 2014 pra 2019, houve um crescimento de renda relevante no Maranhão, de R$ R$ 461 per capita em 2014 para R$ 636, em 2019. Num momento de crise e de retração tão forte, com parcerias como a da Fenae a gente tem conseguido frear a curva de expansão da miséria e da pobreza, mesmo assim nós sabemos que o número de desalentos voltou a crescer vertiginosamente”.

Denise Viana Alencar, Analista de Responsabilidade Social do Instituto Fenae Transforma e Coordenadora do Movimento Solidário, vê com esperança os tempos futuros: “Da primeira vez que visitei Lagoas, a primeira comunidade que nós atendemos, e encontrei aquela situação de desesperança e desconfiança, com gente literalmente passando fome, as coisas mudaram muito. Hoje, depois de implantar mais de 40 projetos entre as 27 comunidades mais vulneráveis, o mais bonito é voltar agora e ver o brilho no olho das pessoas”.

Desse pontapé inicial vão surgindo os sinais visíveis de resgate da autoestima e de aposta na cidadania. “Com o peixe, criança não vai mais pra escola com fome, com a água do poço artesiano não tem verminose sem tratar, e criança com mais saúde aprende mais, aprende muito melhor, talvez um dia eles possam mudar o rumo dessa nossa vida sofrida”, diz Milagres Carvalho, líder da comunidade de Preazinho.

Domingos Cosmo atribui grande parte da mudança ao esforço solidário das comunidades: “Como o projeto não disponibiliza recursos para pagar pedreiro ou outro profissional, a Fenae compra os materiais e a comunidade se junta para fazer o trabalho. Aquilo que você consegue derramando o suor do seu rosto, você dá mais valor. Um exemplo que eu sempre mostro é que, quando o município entrega uma escola feita sem a participação da comunidade, tem pichação. O bonito do Movimento Solidário é isso, alguém que está longe doa os recursos, e a gente constrói coletivamente os açudes. Aí melhora pra todo mundo, as pessoas cuidam muito e ninguém destrói nada”.

David Borges, diretor do Instituto Fenae Transforma, atribui o sucesso do programa à crença na capacidade de mudança das comunidades:

O que faz do Movimento Solidário um sucesso é essa capacidade das pessoas em suas comunidades se unirem para melhorar suas próprias vidas. Nós contribuímos com nosso trabalho e com nossa solidariedade, mas o que faz a diferença mesmo é o esforço coletivo de cada comunidade. São aquelas pessoas simples e de vida sofrida que encontram na esperança um jeito de seguir em frente.”

Para o presidente da Fenae, Jair Pedro Ferreira, ele mesmo lavrador até os 25 anos de idade em Amaporã, no Paraná, os tempos presentes e futuros são de gratidão, alegria e esperança:

Gratidão a cada empregado e cada empregada da Caixa, a cada Apcef e a cada parceria pelas contribuições solidárias; alegria pela oportunidade de, por meio do Movimento Solidário, contribuir para a erradicação da miséria e da fome numa das regiões mais pobres do país; e esperança, esperança de que, com as comunidades organizadas e fortes, a vida será cada vez melhor para as gerações presentes e futuras.”

MULHERES SOLIDÁRIAS

Em grande parte, o trabalho braçal para a montagem do açude de Cabeceira da Prata foi feito pelas mulheres: “A máquina chegou, cavou, quando a máquina terminou de cavar, aí nós entramos pra dentro, mulher e homem, pra tirar todas as raízes, todo os tocos, pra assentar essa areia, com a enxada, cada uma com uma enxada na mão, cavando e acertando tudo. Então você vê que por aqui a coisa tá mudada, aqui a mulher pegou junto, pra hoje estar desse jeito, as mulheres tiveram que suar, e suar muito”, conta dona Maria da Soledade.

E acrescenta: “Eu, como líder, penso que somos nós mulheres que vamos ter que fazer esse controle da produção, pra gente balizar bem entre tirar um pouco pra cada, mas deixar uma boa parte pra vender, pra aumentar a criação e daqui um tempo fazer outro açude. Então nós, que aqui somos mais mulheres do que homens e não temos medo de serviço, vamos ter que cuidar do que é nosso, com muita felicidade.”

Em Brandura, onde no mesmo dia o Movimento Solidário entregou um poço artesiano, quem coordena tudo é dona Maria de Lourdes. “Aqui a vida é dura, a gente levanta cedo, caminha hora, hora e meia pra chegar na roça, gasta metade do dia capinando e plantando, depois volta pra cuidar da casa, dos animais, dos filhos, dos netos, mulher tem aguentar o tranco junto, não dá pra deixar por conta do marido, e nem nós queremos, nem agora nem nunca”.

Na boleia da camionete que nos leva de uma comunidade para outra entre estradas completamente alagadas, quem dá as coordenadas para o motorista experiente e, ainda assim assustado com a altura das águas, é Fátima Carvalho: “Vai por ali, mira aquele pé de murici, dobra aqui, antes daquele outro pé de murici.” Ante a surpresa diante de tanto conhecimento, Fátima comenta: “Aqui, o jeito é pensar com a cabeça e agir com o coração, costuma dar certo”.

Chegando, é ela quem vai checando tudo, do almoço coletivo à água do galinheiro, à cerca de proteção do açude, ao que precisa trazer da próxima vez. “Nada acontece nas comunidades sem o conhecimento do Domingos e da dona Fátima, mas quem manda mesmo é ela”, comentam os comunitários, entre um elogio e outro.

Agora, se é pra falar de elogios, a campeã do pedaço é Denise, o anjo bom de Belágua que, junto com o presidente Jair Pedro Ferreira e a diretora da Fenae para a região Nordeste, Giselle Vianna, ganharam, no ano de 2019, os títulos de cidadãs e cidadão Belaguense. De fato, “não tem comunidade que não goste da Denise, e não tem comunidade de que a Denise não goste. Aqui, ela está em seu elemento, descobrindo sempre um jeito novo de melhorar a vida das pessoas”, diz Jair.

Assim, desde suas vidas simples em casas de pau-a-pique, algumas de taipa, construídas com tijolos de barro, sem reboco, algumas de alvenaria, não finalizadas porque o Minha Casa, Minha Vida parou antes de terminar, as mulheres de Belágua resistem.

Assim, desde seus mundos de desafios ante a pobreza, a alimentação insuficiente, à base de farinha, as escolas distantes, o atendimento de saúde deficiente, o analfabetismo, o transporte inviável pelas dunas de areia no verão e pelos campos alagados no inverno, as mulheres de Belágua seguem em frente.

Assim, agarradas na esperança, as mulheres camponesas de Belágua, por seus exemplos de luta, companheirismo e solidariedade, vão construindo com suas próprias mãos esse outro mundo mais justo, mais igual e mais humano, em que elas por sonho e precisão apostam, e em que nós, por conta de projetos como o Movimento Solidário, acreditamos ainda ser possível.

Zezé Weiss – Jornalista. Matéria produzida nos dias 29 de fevereiro, 1 e 2 de março de 2020, durante visita, a convite da Fenae, às comunidades atendidas pelo Movimento Solidário em Belágua.

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