NÏ NAWA: Relato de um encontro com o “Povo da Floresta” –

Nos meus primeiros anos de indigenismo sempre tinha um sonho recorrente que, vez ou outra, insistia em assombrar as minhas noites: eu andando na floresta, tentando chegar a algum local e, de repente, topava com um grupo de índios isolados que passavam a me perseguir. Correndo deles, acabava por ser acertado por algo jogado contra mim e… eu acordava!

E sempre que eu estava em alguma uma aldeia, vez ou outra o assunto dos “parentes brabos” entrava na roda, geralmente após a janta quando, “de bucho cheio”, passávamos o tempo conversando e soltando fumaça de nossos piúbas (cigarros de palha)  e cachimbos.

Também, nas leituras que fazia, principalmente do “Papo de Índio” e dos relatórios de Marcelo Piedrafita e Terri Aquino, o tema era uma constante, com relatos de aparecimento desses povos isolados em torno de algumas terras indígenas.

Creio que essas informações, aliadas às histórias ouvidas nas aldeias, devem ter contribuído com a recorrência do sonho envolvendo esses povos da floresta. O tempo passou, minha experiência aumentou juntamente com minha idade e maturidade, e aquele  sonho deixou de me assombrar.

Exceto pelo sonho bizarro e as impressões de meus primeiros anos, o assunto “índios isolados” nunca me suscitou maiores atenções além de algumas leituras esporádicas. Nunca tive o fascínio, quase divino para alguns, por atuar nessa área.

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Foto: gazetadopovo.com.br

Mesmo depois do recente contato de um grupo de indígenas na Base Xinane, e da repercussão deste contato, sempre mantive uma “certa distância” do assunto ou das atividades ligadas a essa frente de ação indigenista. Pude, ainda, observar o acirramento de ânimos, os petardos textuais e os posicionamentos públicos de alguns contra a equipe de indigenistas que estavam atuando junto a esse grupo de recente contato.

Porque esse povo nunca rebate as críticas? – pensava com meus botões.

No entanto, assim como creio ser nossa vida um rio caudaloso como o Juruá, com muitas curvas e surpresas, onde as moiras (aquelas três irmãs da mitologia grega que determinavam o destino, tanto dos deuses, quanto dos seres humanos)  se divertem enquanto traçam nosso destino, questões institucionais acabaram por me aproximar dessa seara, mesmo que indiretamente.

As facilidades e afinidade institucional propiciaram-me oportunidades de visitar e apoiar as ações de campo junto a esses txais recém-contatados. Porém, não sei porque, nunca achei um espaço na agenda que me liberasse para esse tipo de empreitada, também, nunca me esforcei para tal.

Apesar da distância física da ação,  fui dando minha contribuição e assim como os colegas da Frente de Proteção, silenciei sobre o assunto, apesar de estar vivenciando ou aprendendo coisas novas e interessantes a cada momento.

Não sei se conseguirei expressar o que se passou, ou o que senti, mas tentarei…

Na semana que passou, numa das curvas deste rio da vida, as Moiras deram mais um nó em seu trançado, mostrando que tudo pode mudar a partir de momentos que, mesmo sendo pontuais, nos marcam para sempre.

Por força de uma situação singular tive que me disponibilizar, juntamente com os demais de minha equipe, para dar suporte a uma atividade direta envolvendo esses indígenas. E assim, sem pensar muito a respeito, ou refletir mais que o necessário, acabei por ficar, literalmente, frente a frente com dois destes txais.

Certamente eu fui a primeira pessoa tatuada que viram na vida, e eu estou seguro em dizer que o assombro era recíproco, pois, estes eram os primeiros indígenas “do tempo das malocas” que eu encontrava. O interesse de um deles pelo desenho de uma cobra em meu braço direito foi evidente, pois a tocou com um misto de surpresa e indagação: que desenho será esse? – deve ter pensado.

Minha atuação indigenista sempre esteve intrinsecamente ligada à questão espiritual, por isso, sempre acreditei na crença dos “yuxin e yuxibu”, os dois espíritos que habitam o corpo humano, assim como naveguei muito nos rios espirituais e visitei as aldeias siderais quando participei de inúmeros rituais de huni (bebida sagrada, muito conhecida como Ayahuasca) com pajés e demais iniciados.

Assim, quando, nesse encontro, um dos txais  encarou-me por um período em que ficamos nos olhando, o brilho e a profundidade dos seus olhos me transportaram, por segundos, a tudo o que vivenciei e senti nesses anos todos. Foi como se eu tivesse tomado um copo cheio de huni.

Em seu olhar senti a profundidade da floresta, o cheiro dos animais, vi as curvas dos rios e o sabor vegetal das águas dos igarapés. Senti o medo da noite profunda onde sons avisam do perigo iminente. Senti a fome saciada pela carne tenra dos animais que, além de alimentar meu corpo. repassavam-me a força espiritual dos seus protetores e do seu conhecimento.

O que será que se passava na mente dele enquanto me olhava nos olhos? Quais seriam seus pensamentos?

Estendi a mão para cumprimentá-lo e ele somente ficou me olhando, não retribuindo meu gesto. Não me ofendi, entendi perfeitamente a situação. Esse costume que temos de ir tocando e apertando tudo, invadindo o espaço individual para tocar as pessoas realmente é algo invasivo.

Continuamos nos olhando por um tempo e me coloquei rapidamente no meu lugar. Estava ali somente para apoio e segurança, enquanto o grupo da base tomava a frente e assumia a situação.

Não senti vontade de perguntar nada, nem saciar dúvidas sobre questões antropológicas. O intérprete que nos acompanhava nos deu informações gerais sobre a situação “mais imediata” do que estava ocorrendo, citando que o quebra-jejum do dia foi carne de anta, enquanto me estendia um cacho de banana comprida, retirada do novo roçado aberto pelos txai. Passei a tarde dando o apoio previsto na atividade, sempre observado, à distância, pelos txai.

Finalizada a ação do dia me recolhi, mas fiquei com a imagem do olhar daquele txai em meus pensamentos. Fiquei pensando e refletindo sobre o que foi este encontro.

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Para mim foi impactante, pois não se tratou só de “conhecer mais um povo” ou de “ter contato com um grupo de recente contato”. Foi além, pois estou nesse caminho há anos, sempre nas comunidades, sempre com os indígenas, nas florestas deste Juruá onde sabia que, em alguns lugares, olhos escondidos nos observavam.

Sempre soube das perambulações de indígenas isolados, mas na minha dinâmica do indigenismo de cada dia, eles eram algo como um “ser inalcançável”, que “estava ali sem estar”. Fiquei pensando: estes txai estavam em um “outro mundo” até dois anos atrás.

Voltei no dia seguinte e fiquei impressionado com a atuação dos colegas da Frente de Proteção Etnoambiental do Envira (FPEENV) que estão com eles desde o contato. Para minha surpresa, vi que alguns não utilizavam interpretes, falando na língua indígena dos txai com uma eloquência impressionante. Eles me apresentaram, falando um pouco de mim e, finalmente, pude apertar a mão de um deles.

Fiquei ali, observando tudo e bastante impressionado com tudo o que via. A relação entre os txai e os colegas indigenistas, a confiança construída nestes dois anos e meio de contato é algo nítido, visível. Ouvir suas vozes, estar presente em sua presença é algo que pude sentir além do contato físico, foi algo que me ticou no fundo da alma, no meu yuxin.

Foi como juntar mais uma pecinha nessa escolha de vida que fiz pelo indigenismo. Lembrei-me da Dedê Maia e do txai Antonio Macêdo, sobre como esses grandes indigenistas se comportariam diante da mesma experiência que tive. Sei que outros já tiveram esta experiência, com muito mais profundidade.

Para mim foi isso, uma experiência forte, desprovida de interesse antropológico midiático ou profissional. Foi algo pessoal que guardarei comigo.

Este encontro que tive foi rápido, pontual, mas, que, para mim, coroou os últimos meses em que estou atuando, mesmo que indiretamente, junto a este tema. E depois de inteirar-me de tudo o que vem ocorrendo, dos desafios, obstáculos e conquistas vivenciadas não só pela equipe da FUNAI, como pelos próprios indígenas, eu entendo o porquê deste silêncio “do lado de cá”. Entendo perfeitamente o porquê de não rebaterem “na mesma moeda” as críticas que recebem.

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Escrevi este texto para eternizar em palavras esta experiência que vivenciei, pois acredito na importância de deixar que nossas vozes ecoem para além de nosso tempo. Do contrário, se eu estivesse no lugar dos meus companheiros da Frente, me recolheria ao silêncio também, aprendendo, vivendo cada momento, construindo algo sem a necessidade de ser reconhecido mundialmente por isso, ou ter o nome em destaque no palco das redes sociais, nas colunas de jornais.

Não posso finalizar este texto sem expressar minha admiração e respeito pela equipe que está atuando junto àqueles txais. Como disse a eles: chamam vocês de “meninos da frente”, como para indicar que vocês não sabem de nada, mas estão errados, nesses últimos dois anos vocês cresceram, deixaram de ser meninos e já são homens crescidos. Tiro o meu chapéu para vocês.

Não sei se voltarei a ter uma  experiência dessas de novo. Prefiro não ficar planejando isso, afinal, acredito que cada um deva ficar “no seu quadrado”, não se intrometendo no espaço do outro. Mas sei que as curvas desse rio da vida hão de me propiciar muitas experiências ainda, e que as velhas tecelãs do destino ainda me guardam muitos momentos de crescimento profissional e pessoal.

Torço para que as notícias de cortes de orçamento não atinjam esta importante frente de ação. Infelizmente, nas “alturas” e interesses do Planalto Central, as florestas e a realidade de seus povos é algo muito distante. Essa é uma triste realidade que precisa ser mudada e todos nós devemos contribuir para essa mudança.

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ANOTE AÍ:

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Jairo Lima, indigenista acreano radicado na região do Alto Juruá, onde se encontram os indígenas  isolados da Base do Xinane, optou por não usar  usar imagens dos txai de recente contato na publicação deste texto em seu blog www.cronicasindigenistas.com.br

Em respeito à decisão pessoal do autor, a Xapuri também não utilizará nenhuma imagem dos indígenas isolados do Acre nesta matéria.

Assim como Jairo, a Xapuri optou por usar imagens que se mesclam com simbologia indígena da Floresta.

 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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