por Aracy Xavante. Publicado originalmente no livro Povos Indígenas no Brasil 2011/2016.

Eu nasci aqui nesta aldeia [Pimentel Barbosa], nasci e vivo aqui onde estão estas casas e onde minha mãe mora hoje, minha mãe Pewapa. Meu pai Warodi, meu pai. E depois, quem acabou de me criar foi meu tio, Serebzabdi, e me levou para um lugar próximo do Rio das Mortes, no lago chamado Ötõ, onde tinha uma outra aldeia. Vivi lá e terminei de crescer em Wedeze [São Domingos]. Quando eu era baõno, meu tio me criou, me assumiu, foi o pai que me criou. Ele era um bom caçador, eu comia o que ele caçava, aihö (veado campeiro), uhöri (caititu) e tudo o que ele caçava; como filha, tinha uma parte que ele sempre guardava para mim. Logo depois de Wedeze, nos mudamos para Ötõ, e de Ötõ para a beira do Rio das Mortes, na aldeia chamada Barreira. Quando viemos para cá já era azarudo, aqui onde nós estamos morando agora, depois de baõno, azarudo. Depois de azarudo, o meu namorado fez dabasa e casamos, depois de azarudo, tsoimbá, é o começo da nossa relação com o marido. O marido decide, dependendo da formação, se ele é ritewá ou ipredu, quando faz as visitas frequentes e é a partir daí que começa a nossa relação. A gente começou a conviver porque eu já era adabá.

Quando eu era baõno, eu aprendi a coletar com a minha tia; ela sempre me levava, a gente acom- panhava o grupo. Quando eu era baõno, eu não tinha preguiça de andar, eu gostava demais de andar, eu não cansava. Dependia da época de coleta… podia ser mooni, mooni’höiré ou nororẽ. Eu comecei a coletar nororẽ porque era a época que as mulheres estavam fazendo essa coleta lá no Wedeze. Comecei a conhecer um tipo de palmito que se chama noroĩpó (coco) e eu aprendi a tirar noroĩpó. Não é como hoje, as jovens têm muita preguiça de andar, eu gostava de andar e até hoje eu gosto de andar e de fazer coleta.

Quando pequena, a gente aprende observando as nossas mães, a gente aprende brincando. Nós que temos curiosidade e é a primeira vez que estamos vendo aquilo, a gente observa as nossas mães e vendo, a gente imita as nossas mães fazerem as coisas: fazer cesta, fazer cesta grande para carregar criança, fazer esteira, tudo. Eu aprendi vendo a minha mãe.

Outra atividade que a gente observa é tecer algodão. Eu comecei a fazer quando eu tive a primeira filha, não era mais adabá. Tudo o que a gente aprende é observando. Eu tinha em mente o jeito de fazer, só não tinha experi- mentado fazer na prática. Só comecei quando tive a primeira filha. E fazer esteira eu aprendi quando era adabá, observando o meu pai de criação. O material de tecer o algodão que se chama wató, é com isso que a gente aprende. Também aprendi como preparar o palmito de macaúba olhando a minha mãe: foi com ela que aprendi a abrir o sé, que tem muito espinho. Aprendi a procurar coco, onde tem coco e tirar qualquer tipo de batata, mooni’höiré, aodo, coquinho da macaúba. Então tudo isso a gente aprende vendo as nossas mães. Não como hoje, que as meninas não conseguem nem andar.

Quando a chuva parar, nós vamos tirar mooni’höiré. Eu gosto demais de tirar mooni’höiré. Quando eu saía para fazer coleta sozinha, matava muita caça durante a coleta; matei tamanduá, matei caititu, padi e uhöri. Tudo é importante, até fazer algodão, porque é com ele que se faz a cerimônia. É bom não esquecer que nós começamos aprender a tecer com cabaça quebrada, a gente improvisa esse material para tecer algodão e até com semente de algodão a gente tece. Depois dessa experiência, usamos aquele material, o wató. É importante não esquecer que, sem o algodão, não é possível acontecer a cerimônia. O tempo que a gente leva para aprender o algodão pode ser um dia, dependendo de cada pessoa. Eu mesma fiquei um dia inteiro querendo aprender aquilo ali, levei um dia para pegar o jeito. Arrebentando e você se interessando, aprende no mesmo dia.

Hoje a comida do warazu não presta, não é boa para o nosso organismo. Eu gosto mais de abahi, mooni, mooni’höiré. A comida tradicional que é gostosa! Hoje eu não sei como vai ser a reação desta geração. É muito difícil eu falar como vai ser depois de mim a função das mulheres, é muito importante as jovens seguirem a nossa trajetória, mas é muito difícil prever, falar que eles vão andar por outro caminho, baseado nas coisas que eu falei. Para mim é muito difícil dizer se vai ser bom, se vai acabar ou não. É difícil.

A decisão sobre o casamento é de nossas mães e nossos pais. Meu pai decide quem escolheu, avisa minha mãe, minha mãe pensa e talvez apoia a decisão do marido e a função dela é socar milho e fazer bolo depois de decidido. Não é a partir do momento que fica comprometida que o namorado vai visitar: leva tempo, tem época certa para ele me visitar e quando ele foi a primeira vez me ver eu já era azarudo, ele só foi lá para ver, conhece o lugar, o quarto dele, a cama dele. É assim. Todo mundo participa da negociação do compromisso: minha mãe fez minha cama e logo depois a gente vira adabá. São os pais das pessoas que são comprometidas, no caso, a família mais próxima de nossos namorados, que decide a caçada e o dia do casamento; os tios, os pais, os primos decidem essa caçada e logo depois ele vai me visitar, qualquer adabá, e a nossa relação de casado começa nessa primeira visita. O homem é sempre mais corajoso nessa hora e nós, que somos mulheres, mesmo tendo muita coragem de andar sozinha, essa é a nossa primeira experiência e é por isso que eu falo que eu fiquei com medo dele, da respiração dele e de ele deitar do meu lado. Eu não sabia o que ia acontecer. A gente sempre lembra a orientação de nossas mães, mas, mesmo assim, naquela hora a gente fica com medo, porque é a primeira vez que nós vamos namorar aquela noite. Eu fiquei com medo. Logo depois o homem fica contente, a partir daí nossa relação começa a se aproximar cada vez mais. Eu penso assim dos homens.

A maneira de se comportar durante a gestação e quando chega o dia de sentir as dores, nossas mães também orientam: não temos que ficar assustadas, temos que ficar calmas. Quando eu tive a primeira filha, eu senti a primeira dor. Eu não sei se todo mundo pensa assim, mas temos que enfrentar a dor porque somos mulheres e não temos que deixar nosso marido ou a família dele envergonhados. Falando a verdade, eu tenho medo. Eu tenho medo, porque nem todas as mulheres são fortes, mesmo assim a gente enfrenta, a gente vence. Existem mulheres muito fortes, que não sentem dor. Eu acho que não existem coisas que não tem dor, tudo tem dor, mas como mulher a gente tem que deixar nosso marido contente e não deixar ele envergonhado, mas eu tenho medo.

Hoje tenho um pouco de idade e vejo que naquela época não precisava levar comida: no zöomo’ri tinha tudo. Durante o zöomo’ri, comiam-se frutas, batatas e noroĩpó, palmito do coco. Todos os lugares tinham coisas diferentes, uma região para cada coisa e, por isso, durante o zöomo’ri, tanto homem quanto mulher, buscam alimentos, os homens caçadores e as mulheres coletoras. A mulher usa um certo tipo de material para que nenhuma coisa ruim se aproxime. O homem usa o brinco na orelha para fazer uma boa caçada. Nós, mulheres, usamos um certo tipo de madeira que se chama norozãpsatazé para evitar que a onça ataque as coletoras, porque não temos armas. Isso funciona e evita um monte de coisas. Também usamos broto de coco, que se chama norõrewaipó, e é usado também para que nada de ruim se aproxime ou atinja as mulheres. Assim retornamos sem que nada aconteça. Não é só o homem que tem conhecimento da região onde tem a melhor caça: nós também conhecemos a região onde tem muita batata, muita fruta do cerrado. É difícil a mulher se perder; as nossas mães, as nossas avós já andaram ali, esse lugar já é conhecido e elas que transmitem o conhecimento do lugar. O que eu conheço é que na região de campo aberto só tem caça e além da caça tem os cocos; não tem batatas naquela região. Para fazer a melhor coleta é no tabocal onde tem wededu, onde tem qualquer tipo de batata é na região onde tem muita taboca.

Nós, mulheres, sonhamos muito. Algumas mulheres sonham com choro, sonham com qualquer tipo de sonho, mas a gente esquece muito. Acorda pensando, mas depois que come qualquer coisa, aquilo ali some de uma hora para outra. Eu mesma sonho mais com choro, acordo lembrando do choro, mas depois esqueço.

Nós, mulheres xavante

por Camila Gauditano, Antropóloga

Aracy nasceu na aldeia Pimentel Barbosa. É neta de Apowë Xavante, liderança que fez o contato de seu povo com os homens brancos na década de 1940. Hoje, Aracy vive na mesma aldeia em que nasceu. Quando menina morou em outras aldeias de seu povo, percorreu e conheceu o território xavante em expedições conhecidas como zöomo’ri, junto à sua família e comunidade. Os Xavante andavam grande parte do ano em expedição, onde a vida acontecia: crianças nasciam e cresciam, cerimônias eram celebradas, homens e mulheres praticavam seus conhecimentos em diferentes ambientes do cerrado. Os ritewá eram os responsáveis por retornar à aldeia, avaliar o crescimento do milho e avisar o pessoal da expedição que voltasse para a colheita. Neste depoimento, Aracy fala sobre a importância da observação e da brincadeira para o aprendizado das crianças; sobre as principais fases de vida para a mulher xavante; sobre a importância da alimentação baseada em cocos e carás; e sobre a proteção física e espiritual.

O depoimento foi gravado na aldeia Pimentel Barbosa, TI Pimentel Barbosa, Mato Grosso, em 2010. A tradução foi realizada por Cipassé Xavante.

Fonte: PIB Sociambiental

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