Acontece o Festival da Utopia

Acontece essa semana em Maricá, cidadezinha de pouco mais de 40 mil almas, localizada no litoral norte do estado do Rio de Janeiro, o Festival Internacional da Utopia.

Chamado pela prefeitura de Maricá em conjunto com movimentos sociais brasileiros e de outros países, o Festival dura de 22 a 26 de junho. São poucos dias. Mas haverá de servir para, nestes tempos temerários, jogar uma faísca de luz nas paredes do obscurantismo que insiste em se erguer sobre corações e mentes em nosso país.

Durante os próximos dias, militantes, intelecturais, ativistas, políticos artistas, e rebeldes do mundo inteiro investirão seu tempo no reafirmar dos sonhos e no construir de novas utopias.

Na Internet, o jornal GGN (http://jornalggn.com.br/) publicou neste 22 de junho algumas reflexões de Franklin de Paula Júnior, que se traduzem como um chamado para “colocar a nossa amorosidade à flor da pele, evocar a nossa inventividade e fecundar intersubjetividades. ”

Oportuno, o texto explica, e convoca: “O momento-limite nos impõe um estado de perplexidade, mas não podemos arrefecer as trincheiras, perder o fio da meada, precisamos reinventar a luta por uma sociedade justa, democrática, amorosa, pacífica e sustentável. (…)

Precisamos da sabedoria adquirida a partir da fluidez das águas, elemento cósmico que é essencial à vida, como nos versos do poema “Como um rio” do Thiago de Mello: “se tempo é de descer, reter o dom da força, sem deixar de seguir. E até mesmo sumir para, subterrâneo, aprender a voltar e cumprir, no seu curso, o ofício de amar. (…) Como um rio, que nasce de outros, sabe seguir junto com outros sendo e noutros se prolongando e construir o encontro com as águas grandes do oceano sem fim”.

Como prólogo para a celebração do alvissareiro Festival da Utopia, Franklin
(https://www.facebook.com/franklin.depaulajunior/posts/275002496010458) nos presenteia com a reprodução da Carta Magna dos Ignorantes que, redigida pelo poeta TT Catalão, foi endereçada e lida como manifesto no I Encontro dos Ignorantes na Cidade da Paz, em Brasília, em 4 de Julho de 1991, organizado por Bene Fonteles, Pierre Weil, TT Catalão, Romulo Pintoandrade e Ary Pararraios, há 25 anos.

CARTA MAGNA DOS IGNORANTES
TT Catalão

Nenhum ignorante será magno no sentido da
magnitude soberana.

Na era da arrogância, assumir sua santa
ignorância é alimentar que o saber não significa
sobrar soberba, nem mesmo subir.

É buscar o sábio, e não o sabido.
Estar desperto sem se preocupar em ser
esperto.

A santa ignorância aprende, mas não apreende.
Entende que a besta é a fera que por si só se
basta, de si e seus sinais em seu casulo,
cláusulas de competência específica para
encerrar-se nos muros da certeza
que soam ocas como mortalhas.

A ignorância é radical porque toma as coisas
pela raiz. Está aberta, apaixona-se pelo
processo, encanta-se pelo enredo
mas não se enreda pelo novelo.

Ela entende que não são as asas que possibilitam o
voo, mas as tentativas. Quer o movimento irregular dos rios,
e não o dos pêndulos. Não tem planos nem metas,
mesmo para a metamorfose.
Faz do porto um ponto de partida em
permanente parto, porque celebra a vida.

A vertigem da ignorância é aceitar o “não sei”
feito lucidez lúdica para evitar o jogo belicoso do “não-sim”.

A visagem da ignorância é a constante luz além
do limbo.
Clama: a diferença nos une.
Proclama: a diferença nos unge.
Reclama: a diferença nos fará imunes ao
contágio totalitário.

Ao absoluto, o nosso luto.
A melhor resposta é aquela que provoca novas
dúvidas.
A insegurança é doce porque abriga inúmeras
descobertas.
A fraternidade é imprecisa porque o dom da
graça não tem raça.

O que ignora, ora, quando procura.
Está livre para todos os níveis por estar disponível.
Julga, mas não subjuga.
Usa bulas, mas não as acumula.
Se apega apenas como circunstância de
entrega, mas não se prega.

Quer a comunhão consigo,
com os outros e com o meio sem alterar
o modelo porque atua na medula.
Flutua sobre o que está demasiadamente
firme, rijo, cadavericamente incondicional.
Influi no que não admite contradição, sobre o
que está umbilicamente atado ao peso de sua
imobilidade.

O que está seguro está em apuros.
Aos que vivem sob extremado estado de
garantias, recomenda-se a fragilidade volúvel e
volátil da ignorância ativa. Tanta cautela é o elo
da tutela. Dar um assalto no escuro.

Aos que temem riscos sugerimos o final do
juízo e a fuga da narcose embalada pelo narciso.

Dependência é a morte.
Deus é grátis, mas guru cobra ingresso.
A herança do parcial é a apólice da parcela.
Sem resgate. Dívida eterna.

Pela ignorância se vê que divagar se vai ao
longo.
O ideal é começar pelo possível.
O erro é o melhor professor da rota.
O pleno não tem rumo, fronteira ou porta.
Todo é tudo que não se corta.
Arte não se reparte. Sem enfarte.
O sonho deixa de ser senha quando não acorda
e se transporta. Verdade se revela numa hora e
na outra já é torta.

Às vezes o frágil é mais ágil para sair do
estreito, do estrito, do restrito.
Só o sectário secciona.
O ignorante confia no desafio.
Quer mais autores e menos autoridades.
Desdenha a facção científica.
O que fraciona é fratricida.

Podemos reconhecer no desconhecimento uma
aliança quando a gente decide ser.

Quando a gente diz “sei”, seremos serenos,
leves, solidários, à espera do contrário, do
contraponto que rasga, não por mal, mas para
nos ensinar que nascemos para perder cascas.

A estupidez precisa de um basta, a ignorância
cria castas, as feras são as bestas que por si só
se bastam, mas os ignorantes serão este
improvável plasma infinito em exercício
permanente do vir-a-ser para servir.
Contra o demônio do domínio.

Pois se é do EU, é cÉU, se é do EGO, é cEGO.

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