Manoel de Barros

 

Biguá passeava no corixo, arregaçando água. Fazia avenida de tarde, o valsante!

Cachorro observa das margens, com olho gordo. Biguá costura o rio na frente do cachorro. Desliza de leve, remenda água de baixo pra cima. Desfila.

Cachorro espicha o olho úmido. E súbito pula sobre a ave.

Biguá mergulha e aparece do outro lado.

Cachorro se desgoverna.

Biguá mergulha de novo. Aparece mais longe. Dá adeusinho.

Cachorro volta sem graça, rabo entre as pernas.

Biguá se despede. Sobe no sarã.

Cachorro desiste humilde.

Biguá se desfralda no sarã. Toma porre de sol.

 

Manoel de Barros. Escritor, em “Livro de Pré-Coisas”, Editora Record, 1985.

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