Por Zezé Weiss

Ainda bem menino, o cidadão de nome Jair Pedro Ferreira, nascido na cidadezinha paulista de Sabino, de pouco mais de cinco mil habitantes, mudou-se com a família para Amaporã, no Paraná. Era o que muitas famílias da agricultura familiar faziam nos anos 1960: deixavam o interior de São Paulo para plantar café e algodão nas terras férteis do norte do Paraná.

Em Amaporã, município também agrícola, de seis mil  e poucas almas, cerca de 550 quilômetros distante da capital do estado, Curitiba, o garoto Jair cresceu conforme os ritos da tradição local: alfabetizou-se aos seis anos, na escola rural próxima ao sítio dos pais; aos dez, começou o trabalho regular na roça, como parte da mão de obra familiar; aos 25, ainda estava por lá, morando com a família.

Enquanto viveu na área rural,  estudou do jeito que deu: completou os quatro primeiros anos do ensino fundamental, curso primário naquela época, parou dois anos, fez o quarto ano de novo, porque os pais, que nunca frequentaram uma sala de aula, achavam que os quatro filhos e as três filhas deviam estudar, mas não tinham condições de mandá-los para seguir os estudos em  Amaporã.

Essa situação só mudou quando a prefeitura passou a levar as crianças para as escolas da sede do município. Para o adolescente Jair, veio então a oportunidade de, em 1977, completar o ginásio (hoje os quatro últimos anos do ensino fundamental) e fazer o ensino médio, estudando à noite, depois da lida diária no sítio. Por essa razão, entre uma interrupção e outra, só conseguiu terminar o ensino médio já “com uma idade alta,” aos 22 anos de idade.

A mudança para a cidade aconteceu aos 25 anos, por razões de saúde. Como Jair nasceu com uma perna mais curta, o médico alertou que se ficasse na roça mais cedo ou mais tarde teria problema. O pai, agricultor respeitado, articulou para que o filho, que gostava de números e tinha o ensino médio completo, conseguisse seu primeiro emprego urbano.

Jair foi então trabalhar na Corretora de Seguros do Bradesco, em Amaporã, em um emprego que durou três anos. Demitido, precisou voltar pra roça, onde ficou por mais um ano. Em 1988, passou no concurso do Banco do Estado do Paraná e foi para a cidade vizinha de Planaltina do Paraná, onde trabalhou por outro ano e pouco, quando, em 1989, foi aprovado no concurso da Caixa Econômica, assumindo seu posto na cidade de Loanda, também no Paraná.

Já a militância social, Jair começou enquanto vivia na roça, como membro da Juventude de Ação Mariana (JAM), da Igreja Católica. A vida na cidade, no entanto, o aproximou da Pastoral da Juventude e, depois, na faculdade, da Pastoral Universitária. “Nessa época o teólogo Leonardo Boff estava no auge das disputas com a Igreja pela Teologia da Libertação, e a Pastoral fazia uma leitura mais crítica da realidade. Não tinha como ficar de fora”, conta Jair.

Gilberto Carvalho, Secretário-Geral da Presidência da República nos mandatos do presidente Lula (01/01/2003 – 01/01/2011) relembra o Jair daqueles tempos: “Quando conheci o Jair, ele era um jovem militante da Pastoral da Juventude. Seu engajamento na Pastoral o levou, como aconteceu com muitos de nós, a dar consequência à sua fé numa militância social e política. Foi assim que se tornou um dos construtores do PT, partido ao qual é filiado desde 1991, em um trabalho muito corajoso, enfrentando a discriminação e a perseguição, e um dirigente sindical fundamental para a classe trabalhadora brasileira”.

Do debate político nacional, o militante Jair conta que começou a participar mais intensamente a partir do Movimento Diretas Já, entre março de 1983 e abril de 1984. Em 1991, foi para Londrina, umas das grandes cidades do estado do Paraná, onde havia a efervescência de um Sindicato dos Bancários forte e combativo, o terceiro sindicato a se filiar à Central Única dos Trabalhadores (CUT).

No início dos anos 1990, assistiu e vivenciou duas demissões em massa de bancários, promovidas pelo recém-empossado presidente Fernando Collor.

Jair recorda o momento: “Nos anos 90, o presidente da República tomava posse em 15 de março. Em uma ação de marketing para marcar seus 100 dias de governo, Collor resolveu demitir todos os empregados da Caixa contratados no mês de março. Em meados de junho, 2.600 funcionários da Caixa foram colocados na rua”. Eles foram reintegrados em setembro do mesmo ano, durante a campanha salarial da qual Jair participou intensamente.

No ano seguinte teve greve forte, de 21 dias, de toda a categoria bancária. Mas depois do Tribunal Superior do Trabalho (TST) declarar a greve ilegal, a Caixa acabou por demitir 110 pessoas, 30 em Londrina, que era um ponto forte da greve, 30 em Belo Horizonte e 50 em São Paulo. Dessa vez, Jair entrou para a lista de demitidos. Começou, então, uma campanha de reintegração.

“E aí o lindo é que os empregados que não foram demitidos nos sustentaram durante um ano. Isso nos permitiu nacionalizar a luta. Nós íamos de estado em estado, mobilizando a categoria e captando recursos. Em um gesto lindo de solidariedade, 35 mil empregados da Caixa autorizaram descontos em seus salários para que nós pudéssemos seguir em luta”, diz Jair, emocionado.

Jacy Afonso, bancário e presidente do PT-DF, fala sobre o Jair desse período: “Conheci o companheiro Jair Pedro em 1992, quando ele fazia parte de uma comissão de bancários que veio para Brasília lutar pela reintegração dos demitidos, o que ocorreu em setembro daquele ano, imediatamente após o impeachment do Colllor. Desde então, com esse jeito só dele, tão simples, tão humilde, tão solidário, tão humanitário, e com essa incrível capacidade de fazer o interminável trabalho de formiguinha, tornou-se um dirigente respeitado nacionalmente e um exemplo para todos nós”.          

Depois dessa luta intensa, descrita no documentário “Não toque em meu Companheiro”, em fase final de produção pela cineasta Maria Augusta, Jair voltou pra casa e se tornou secretário-geral do Sindicato dos Bancários de Londrina, onde  ficou até 1996, quando foi eleito, com 26 mil votos,  para um mandato de três anos, como representante dos empregados na Caixa Seguros. Já casado com a também bancária Eliane, e com os filhos pequenos, mudou-se com a família para Brasília.

Encerrado o mandato, em 1999, foi trabalhar na agência da Caixa, no Conjunto Nacional de Brasília. Em 2001, tornou-se secretário-geral do Sindicato dos Bancários, no mandato de Jacques Pena como presidente. Em 2004, seguiu secretário-geral, na gestão de Jacy Afonso como presidente.

Em 2005, já no governo Lula, foi para Fenae, como diretor de administração e finanças. Foi nesse cargo que participou da fundação do Movimento Solidário, alinhado com os Objetivos do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU). Em 2014, assumiu a presidência da entidade e manteve o projeto, dando todo o suporte necessário à sua execução.

Durante essa rica trajetória, Jair deixou marcas em seus companheiros de jornada, como o  deputado federal Enio Verri, do PT do Paraná: “Eu conheço o Jair há muitos anos, nos conhecemos quando eu trabalhava na formação da Pastoral da Juventude, e fomos nos  rever muitos anos depois, quando ele já era dirigente sindical e já estava na Fenae.  Jair é uma pessoa de se admirar, e eu o admiro muito, sobretudo por sua simplicidade, pela maneira como se relaciona com as pessoas. Um dirigente sindical de uma entidade com a importância da Fenae tem um poder muito grande, e ele consegue dirigi-la com a mesma sensibilidade, a mesma visão humanitária e o mesmo compromisso de classe que ele traz consigo desde os tempos da Pastoral”.

Dessa singeleza única, também fala Gilberto Carvalho: “Ao longo de décadas, Jair seguiu sua luta no Movimento Sindical e, com seu amadurecimento, transformou-se em uma liderança exemplar, que não se burocratizou nem permitiu que cargos e funções administrativas lhe subissem à cabeça. À frente da Fenae, Jair tem sido essencial na organização e no apoio à luta da classe trabalhadora brasileira. Tenho muito orgulho de ser seu conterrâneo!”.

Em maio, Jair deixa a presidência da Fenae, mas fica na casa, como Diretor de Formação, onde quer fortalecer o Instituto Fenae, ampliar a Rede de Conhecimento, que disponibiliza mais de 100 cursos para os empregados da Caixa e, em especial, repensar, reorganizar e valorizar o Movimento Solidário, “espaço de oportunidade para que todos os funcionários da Caixa possam expressar sua solidariedade com aqueles que mais precisam”.

O parceiro do Movimento Nacional de Moradia, fundamental na construção do Programa Minha Casa, Minha Vida; o atuante membro do Fórum Nacional da Reforma Urbana e do Conselho das Cidades;  o amigo dos povos das águas, do campo, do Cerrado e da Floresta; o defensor irredutível da Democracia recebe de seu sucessor e vice-presidente por dois mandatos, Sergio Takemoto, os elogios mais sinceros:

Jair é um amigo leal e solidário, um dirigente sereno e firme. Um defensor incansável da Caixa como banco 100% público e de seus empregados. Um cidadão respeitoso no trato humano. Nesses anos todos trabalhando juntos, uma coisa que eu nunca vi foi o Jair perder a calma. Um ser humano extraordinário, imprescindível nessa nossa luta por um mundo mais justo, mais fraterno e mais solidário”.

Vivi Dourado arteZezé Weiss – Jornalista.

 

 

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