Consternados, raivosos –

Por: Mario Benedetti

 

Estamos assim
consternados
raivosos
ainda que esta morte seja
um dos absurdos previsíveis.

Dá vergonha olhar
os quadros
as poltronas
os tapetes
pegar uma garrafa da geladeira
digitar as três letras mundiais do teu nome
na rígida máquina
que nunca
nunca esteve
com a fita tão pálida

Vergonha sentir frio
e encostar-se perto do aquecedor, como sempre.
Ter fome e comer
essa coisa tão simples
Abrir o toca-discos e ficar escutando em silêncio
sobretudo se é um quarteto de Mozart

Dá vergonha o conforto
e a asma dá vergonha
enquanto você , meu comandante está caindo
metralhado
fabuloso
nítido

Você é nossa consciência crivada

Dizem que te queimaram
mas com que fogo
vao queimar as boas…
boas novas
A irrascível ternura
que trouxestes e levastes
com a tua tosse
com o teu barro

Dizem que incineraram
toda tua vocaçao
menos um dedo

Basta ele para nos mostrar o caminho
para  acusar ao monstro e seus tições
para apertar de novo os gatilhos

Estamos assim
consternados
raivosos
claro que com o tempo a plúmbea
consternação
nos irá passando
a raiva diminuirá
se fará mais limpa

estás morto
estás vivo
estás caindo
estás nuvem
estás chuva
estás estrela

Onde quer que estejas
se é que realmente estás
se estás chegando…

aproveite enfim
para  respirar tranquilo
para encher de céu os seus pulmões.

Onde estiveres
se é que realmente estejas
se estás chegando mesmo
vai ser uma pena que nao exista Deus

Mas haverá outros,
com certeza que haverá outros
dignos de te receber…
comandante.

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