Para o povo indígena Ashaninka, que vive nas terras do Acre, uma maneira de marcar a passagem do tempo e de orientar-se nele, para saber em que período da estação se está, é observar os hábitos dos animais.

Os Ashaninka sabem, por exemplo, da chegada do verão pelos cantos do kaawa (sapo-canoeiro), do kôpero (surucuá ou dorminhoco, Trogon sp.) e do owiiro (espécie de gavião). A jia, com seu canto que atravessa as noites úmidas do inverno, é uma das primeiras a anunciar a chegada do tempo das águas.

E assim, observando elementos de diferentes domínios da natureza e operando os respectivos conhecimentos acumulados, transmitidos oralmente e aprimorados de acordo com o interesse e a curiosidade individuais, os Ashaninka criaram seus mecanismos de orientação temporal e o calendário Ashaninka.

Erotsi. Papagaio-estrela. É a época de postura do papagaio. Alguns já estão começando a chocar. Quando o kotatoki (joão-mole) está com as folhas amarelando, o papagaio está chocando.  Quando todas as folhas já caíram, os filhotes estão nascendo. Quando o kotatoki está cheio de folhas, os filhotes estão empenados e prontos para voar (agosto-setembro).

Tsitxoki.Periquito-estrela. Quando desponta o botão da flor do mapiitoshi (arbusto com cerca de 1,5 metros de altura, também referido como iyomawo tsitxoki “medidor de periquito”), o periquito está nascendo. Quando a fruta da topa está se partindo ao meio para que as sementes saiam, o filhote de periquito já está bom para ser apanhado e criado. Isso ocorre durante o mês de setembro.

Kemari. Anta. Quando a biorana (kapariki) está com fruta madura, no meio da estação chuvosa, a anta está com filhote. Esse período corresponde aos meses de janeiro e fevereiro.

Samani. Paca. No final da estação seca, por volta de outubro, a paca está com filhote.

Shima. Curimatã. Quando o hayriki (espécie de árvore) está com sementes, a curimatã está ovada. Isso ocorre no final da estação seca, durante o mês de outubro. Desova na estação chuvosa, com as primeiras águas. Ela desce o rio para escolher o lugar para a desova. Aquelas que estão no lago saem com as primeiras enchentes para desovar, ficando apenas os machos. Depois da desova, elas sobem o rio novamente.

Kenpitsi. Bode. O medidor dele é a urtiga-da-beira-do-rio. Quando essa espécie de urtiga está com sementes, o kenpitsi está ovado. A desova dá-se entre os meses de julho e agosto.

Kitayriki. Porquinho. Quando a fruta da jarina está madura, no mês de agosto, o porquinho está gordo.

Kaawa. Canoeiro. Eles só cantam durante a estação seca. Nas primeiras semanas do verão (maio), cantam no alto das árvores, anunciando a chegada da nova estação. Em meados de junho, começam a descer em direção à beira do rio, aonde chegam no meio do verão (julho). Cantam do começo da noite até a chegada da madrugada, quando se acasalam. Cavam buracos rasos e largos, na beira da água, para desovar. O canoeiro é o primeiro a anunciar a chegada da estação seca e a anunciar que é tempo de fazer roçado.

Amikomotsi. Alencó (espécie de pássaro). O alencó canta quando os lagos estão secando, no final da estação seca (setembro).

Mããki. Cobra.  Quando a cana-brava está soltando pendão (sawopi: haste da flecha), as cobras estão com filhotes. Isso ocorre quase no meio da estação chuvosa, durante o mês de dezembro.

Shawo. Cutia. No ano em que a cutia engorda, dá grande alagação.

NOTA: Informação extraída da “Enciclopédia da Floresta”, organizada por Mauro Almeia e Manuela Carneiro da Cunha, no Vale do Juruá, Acre.

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