Sou uma semente peregrina. Venho de um tempo muito distante. Minhas ancestrais, chamadas angiospermas, brotaram há pelo menos 100 milhões de anos, inaugurando um capítulo da história da Terra denominado Cretáceo.

Dispersada inicialmente pelo vento, cobri o planeta de clorofila. Quando me originei, a Pangeia já estava fragmentada em Laurásia e Gondwana, há 70 milhões de anos. Na época, eu também fui para o Norte e para o Sul, como um tapete macio, esperando o pisoteio dos recém surgidos mamíferos. Algum tempo depois, o planeta fragmentou-se em unidades menores, formando os continentes atuais. A partir de então, fiquei isolada dos meus ancestrais e na nova terra me adaptei a cada ambiente. Adquiri feições particularizadas, dando origem a várias outras plantas, que hoje os botânicos classificam como espécies endêmicas.

Do alto das grandes árvores, pude presenciar a transformação do planeta. Presenciei o nascimento do homem, e vi este se esparramar pelo mundo, conquistando de forma acanhada, depois de forma violenta, os espaços que eu e minhas irmãs preparamos para ele e para os outros animais. Presenciei a extinção de vários parentes, nossas matrizes, pelas ferramentas e tecnologias que o homem foi inventando.

Um belo dia entrei em estado de dormência e acordei com um pesadelo horrível. Sonhei que o planeta Terra havia ficado estéril e eu me encontrava dentro de uma grande estufa, num canto qualquer de uma estação espacial. No meio do meu sonho, cheguei a ouvir o som de uma viola. Senti naquele momento uma grande dor e chorei de saudade da terra. Acordei encharcada pelas lágrimas doloridas. Hoje, com os olhos lacrimejando, lhe imploro para me semear em algum cantinho fértil deste pequeno planeta, antes que meu sonho se torne realidade.

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Altair Sales Barbosa

Professor, Pesquisador do CNPq, Doutor em Antropologia e Arqueologia pela Smithsonian de Washington DC

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