Pescaria indígena: mergulhos em rios cristalinos e fartos, até quando serão possíveis?

Por Adriano Gambarini/Conexão Planeta

Apesar de ser bastante conhecido como o “fotógrafo de cavernas e das onças”, não é de hoje que me dedico a documentar comunidades tradicionais, sejam elas ribeirinhas, sertanejos ou povos indígenas. Beirando meus 30 anos de carreira, já documentei e convivi com mais de 15 povos indígenas da Amazônia e do Cerrado. Cada qual com suas culturas, tradições e maneira de viver. Alguns em situações relativamente tranquilas, em suas terras reconhecidas e demarcadas. Outros à sombra de projetos que podem mudar negativamente o rumo de suas histórias.

Este é o caso dos povos Nambiqwara, Manoki e Pareci, cujas terras são banhadas por rios cristalinos e com fartura. Os três mantêm a tradição de mergulhar em busca de peixes, e ao longo de anos foram aperfeiçoando a técnica de pesca subaquática à qual deram o curioso nome de Mascreação e que pode se tornar Patrimônio Imaterial da Humanidade. Para a prática, usam equipamentos que eles mesmos produzem: as máscaras são feitas com câmeras de pneu e os arpões com vergalhões de ferro – sim, aqueles usados em construção civil!

Mergulham assim há décadas, em grupos de cinco ou seis, com estratégias próprias para cercar os cardumes. Com um detalhe: pescam apenas o suficiente para o sustento da família, promovendo uma pesca equilibrada e sustentável. E ainda respeitam e mantêm tradições místicas, dedicando uma parte da pesca como oferenda em agradecimento aos ‘espíritos do rio’.

Mas tudo isso vem sendo encoberto por uma ameaça eminente, não apenas para esta tradição mas também para o meio ambiente. Vários projetos de barragens e PCHS (Pequenas Centrais Hidrelétricas) colocam em risco a ecologia dos rios locais, principalmente no que se refere ao fluxo e migração dos peixes. E a pescaria, qualquer forma que seja, é uma atividade primordial para todos os povos indígenas brasileiros.

Dessa forma, a tradição e a cultura destes povos estão ameaçadas pela triste perspectiva de se tornarem, num futuro não muito distante, apenas parte de uma história oral contada na roda da fogueira.

Fonte: Conexão Planeta    

 

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