Quando a escuridão nos visita

Desde então passei a amar também a escuridão, pois é dela que nasce a luz!”

Por: Maria Félix Fontele

A noite tem lá seus caprichos. Não pensemos nela somente como dimensão do tempo, quando este escurece. Mas em véu que nos envolve, embora não possamos tocá-lo. Apenas senti-lo, tal qual percebemos a luz do sol. Caminhar durante a noite, em plena escuridão, sem qualquer réstia de luz, pode causar medo. Imagine-se sem saber o que há diante de seus olhos, a não ser breu a emanar de fonte misteriosa depois que o Sol desaparece em seu sossego. Sem alternativa, resta-lhe mergulhar na escuridão à procura de luz.

Apreendi um pouco dessa sabedoria indígena quando visitei a aldeia dos Apinajé, situada ao Norte do Estado do Tocantins, em pleno sertão do Bico do Papagaio. Ainda criança, tive o privilégio de conhecer o pajé Pekobo, o qual tratava certos substantivos como se fossem seres: a noite, o dia, o sol, a lua e as estrelas. Ele mesmo conversava com esses entes, ao soltar longas baforadas do cachimbo. De todas as suas histórias, a que mais me impressionou — e por isso ainda me lembro –, foi a da noite. Talvez por ser a mais inspiradora. 

Sob o luar, sentados em toras de madeiras, contemplávamos o céu inteiramente estrelado, enquanto crianças índias e nuas corriam desinibidas pelo espaço de areias brancas que circundava as ocas. Eu não brincava. Preferia ouvir os contos do pajé. Dizia ele que antes da apartação da luz das trevas, a escuridão era uma deusa que amava escutar cânticos e poemas ritmados, quando se extasiava completamente pois o seu sentido mais aguçado era a audição.

No processo de criação do mundo, a deusa engravidou de seres e os deu à luz. À medida em que paria, um esplendor de luz aparecia. E, assim, o mundo ficou claro e escuro. A luz, portanto, seria filha da escuridão. 

A musa, entediada com seu universo, sem vestígios de dor e sofrimento, onde tudo era placidamente feliz, descia todas as noites com seu véu escuro em busca de entretenimento com os humanos. Fustigava e ao mesmo tempo inspirava artistas a criarem de madrugada especialmente para ela. Com seus caprichos, também gostava de embebedar pessoas, criar emboscadas e estimular paixões. Pensei: por isso que os índios tocam tambores, pintam o corpo com tintas de urucum, usam colares coloridos, dançam e cantam ao redor de fogueiras. Tudo para agradar aos deuses, principalmente à escuridão, de modo que não lhes façam nenhum mal. 

Aos 13 anos, impressionada com aquelas lendas e mitos, cheguei um dia em casa, tomei papel e caneta, apaguei a luz, acendi a lamparina e disse: agora sou eu e você, escuridão! E escrevi freneticamente um romance ao som de uma música imaginária a qual até hoje me lembro. O nome do romance era “Vidas vazias”. Não as vidas dos humanos, mas as dos deuses. O livro sumiu como que por encanto. Desde então passei a amar também a escuridão, pois é dela que nasce a luz!

 

ANOTE:

Maria Félix Fontele, poetisa, jornalista, editora, escritora e ghost writer na empresa  Marianete, trabalhou como chefe de reportagem no jornal Correio Braziliense, da capital federal do Brasil e também no Governo do Distrito Federal. Maria Felix Fontele é casada com o poeta e cordelista Gustavo Dourado, presidente de Academia Taguatinense de Letras do Distrito Federal, com Gustavo Dourado, com quem tem dois filhos: Gustavo e Elias.
Foto da autora: Acervo Maria Félix Fontele
Fotos ilustrativas: Aldeia indígena (capa) – Ion David. Indígenas ao amanhecer – Agência de Notícias do Acre.

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