Por Glória Moura

Os mais velhos sabem, porque ouviram seu avô contar.

São histórias daqueles primeiros tempos, contados pelo pai do seu avô e, antes dele, pelo avô de seu bisavô. Dizem que ali naquelas serras da Chapada dos Veadeiros havia uma mina chamada Boa Vista.

Ali os escravos trabalhavam de sol a sol, cavoucando as grupiaras para tirar aqueles montões de cascalho que depois eles lavavam nos regos que traziam a água dos rios e córregos, para separar o ouro.

Porque, como era de costume, por qualquer pequena falta que o escravo cometia, lá estava o senhor para aplicar-lhe os castigos. Eram presos no tronco pelos pés e pelas mãos. Amarrados no pelourinho, apanhavam com o chicote molhado que lanhava suas costas. E a palmatória cantava, batendo em suas mãos.

Os mais velhos ouviram até mesmo contar que, quando um escravo fugia e o senhor pegava de volta, costumava queimar os pés dele com gordura quente, para não poder mais fugir.

Mas quem segura um escravo que sonha com a própria liberdade? Por isso os escravos, apesar dos castigos, continuavam tentando fugir.

Glória Moura – Coordenadora do Projeto “Uma História do Povo Kalunga”, MEC, 2001.

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