Por Zezé Weiss

Rubão me contou um dia como um filho de seringueiro, que colheu castanha no Pará e depois virou operário de mineradora de manganês na Serra do Navio, escapou do seu provável destino histórico e foi mudar o mundo no Acre de Chico Mendes, nos anos 1980.

Rubens Gomes, o luthier da esperança, aportou em Rio Branco como professor de música, ali tornou-se liderança do movimento cultural e, a convite do militante Abrahim Farhat, o Lhé (encantado em 16 de maio, poucos dias antes do amigo), ajudou a organizar o apoio da classe artística acreana para o movimento dos seringueiros que Chico Mendes organizava a partir de Xapuri.

“Assim começou a minha relação com o Chico Mendes. Eu trabalhei e, quase sempre como voluntário, fazendo a animação cultural dos encontros dos seringueiros. Eu fazia também a parte dos registros e da sonorização, que era a minha área. Foi aí que eu aprendi que dentro da floresta tinha muita gente. Foi aí que começou meu compromisso com as lutas dos povos da floresta, com as pessoas da floresta.”

Depois da morte do Chico, Rubão passou a usar parte do seu tempo para cuidar de sua paixão da vida inteira: as crianças. Fundou, em Rio Branco, uma pequena Oficina Escola de Lutheria, na casa de passagem das crianças e adolescentes em conflito com a lei. A preocupação era, segundo Rubão, que a oficina servisse mais de terapia ocupacional do que de curso profissionalizante.

Com o tempo, esse pequeno esforço local abriu portas fundamentais no campo da música para milhares de adolescentes e jovens no Acre, onde a Oficina Escola de Lutheria começou e, mais tarde em Manaus, onde a Oela cresceu e brotou mudas de esperança naquele outro mundo que o Rubão morreu acreditando ser possível: um mundo mais justo, menos desigual, um mundo sustentável.

Pra Manaus, Rubão se mudou porque encontrou um emprego de professor de música na Universidade do Amazonas. O ano, ele não me disse, nem eu à época perguntei, mas o objetivo era criar o primeiro curso de lutheria em uma universidade pública do Amazonas. Pressões muitas fizeram a reitoria recuar. Mas, pra ele, era um caminho sem volta.

Talvez por conta do retrocesso da burocracia acadêmica, a Amazônia ganhou um de seus mais imprescindíveis militantes das crianças e dos povos da floresta. Rubão mudou-se para a periferia de Manaus, aproximou-se das “galeras” de rua e, em março de 1998, inaugurou ali sua premiada Oficina Escola de Lutheria da Amazônia.

O resto é história conhecida. Por meio do investimento na Oela como espaço de convivência e de profissionalização, Rubão mudou a vida de milhares de crianças e jovens das periferias de Manaus. Por meio de seu engajamento radical na defesa da Amazônia e dos povos que nela e dela vivem, Rubão tornou-se dirigente nacional do movimento socioambiental.

Em 2018, o pulmão do guerreiro pediu reparo. Foi feito um transplante em Porto Alegre. Vieram tempos difíceis, com Jéssica, a companheira, sempre ao seu lado.  Mesmo assim, a cada respiro da recuperação, lá estava o Rubão nas redes, falando da Oela, do projeto socioambiental do Bailique, no Amapá. Em fevereiro, Rubão voltou pra Manaus.  Por lá andava, de quarentena, cumprindo rigorosamente as regras do isolamento social.

No domingo, 24 de maio, faltou ar para os pulmões de Rubão. Na Manaus em pandemia, ele precisou ser internado.  Deu ruim, o quadro se agravou. Rubão partiu deste mundo na noite do dia 28, aos 60 anos de idade, com diagnóstico de insuficiência respiratória. Foi um choque. Depois de sofrer tanto em Porto Alegre, com o transplante, morrer assim, tão de repente, em sua Manaus tomada por esta trágica pandemia.

De você, meu bom companheiro, aprendi muito. Aprendi, sobretudo, a apostar na esperança. Pra você, meu bom companheiro, depois dessa fase do choro sentido, fica o meu compromisso de seguir sonhando, e de seguir lutando!

Zezé Weiss – Jornalista. Editora da Revista Xapuri.

 

 

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