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Luis Turiba: saga de poesia e jornalismo

É certo que hoje em dia, na grande mídia tupiniquim, a gente já não consegue separar jornalismo de ficção, tamanha a inventividade (e mentiras) que se vê, ouve e lê. Mas, quando a polícia política da ditadura prendeu, em 1971, o estudante Luiz Artur Toribio, não esperava estar criando ali, na mesma pessoa, um poeta e um repórter que sempre soube muito bem separar o olho do umbigo.

É bem verdade, também, que aquele jovem vestibulando da Escola e Comunicação e Arte (ECA), da USP, já trazia boa bagagem cultural e política de berço. Ele nasceu no bairro Casa Amarela, em Recife, Pernambuco, mas aos 4 anos foi morar no Rio de Janeiro com a família, junto ao Morro da Mangueira.

Desde menino, pois, ele se habituou ao som da bateria, ao burburinho do samba, e conviveu com gente como o genial Cartola. Hoje, nos carnavais, ele próprio desfila na Escola São Clemente como tocador de cuíca e não se cansa de dizer que “sem samba eu não sei viver, juro”.

Contudo, dentro de casa, tinha mais. A mãe, sertaneja de Alagoas, era uma pacata mulher do lar, mas alçava voos como o de ter entre seus amigos nada menos que Chico Buarque, de quem tinha todos os discos e livros, carinhosamente autografados. E o pai era jornalista e militante das altas esferas do Partido Comunista.

Pra sair da cadeia, com ajuda do pai, ele arranjou emprego no jornal Diário de Notícias, do Rio, como repórter esportivo, com a incumbência de cobrir o dia a dia do time Vasco da Gama. E ali mesmo pegou gosto pela profissão, mais propriamente pela função da reportagem, a ponto de ter entre seus projetos futuros o de escrever um livro com o título Bom Mesmo é Ser Repórter.

O fato é que, em 1978, ele seguiu a dica de se mudar pra Brasília, onde as chances profissionais eram maiores, no crescente mercado de trabalho da Capital. E virou repórter da sucursal do jornal econômico Gazeta Mercantil, onde ficou por muitos anos. Mas já trazia na bagagem o “Kiprocó”, seu primeiro livro de poesias, de 1977, em que se apresentava como poeta marginal.

Em seu novo ambiente, porém, ele seguia escrevendo versos, em mesas de bares, em andanças de altas horas pela vastidão da cidade sem esquinas ou no recanto do lar. Farta produção, que foi sendo burilada e rendeu o livro “Clube do Ócio” (1982) e fez com que trocasse o nome de batismo pelo apelido Turiba. Ficou Luis Turiba. “Era a maneira de diferenciar o jornalista do poeta”, explica ele.

No entanto, os dois acabaram se encontrando nas quebradas da vida. Foi em 1985, quando ele e dois outros jornalistas-poetas (Lúcia Leão e João Borges) e o programador visual Luis Eduardo Resende, o Resa, lançaram a revista Bric-a-brac, um premiado veículo cultural que marcou época na capital federal e no país inteiro. Durou seis edições, de robustas 100 páginas cada, até 1991.

Turiba classifica a publicação como “uma ponte entre as poéticas de Brasília com outras vanguardas do país”, como Arrigo Barnabé e Arnaldo Antunes, de São Paulo. Mas não era só isso. Seu aspecto mais jornalístico, digamos, trouxe entrevistas antológicas com gente como Augusto de Campos, José Mindlin, Manoel de Barros, Paulinho da Viola, Caetano Veloso e Pierre Verger.

Vale destaque a duas delas, as do Mindlin e do Manoel de Barros. A do empresário paulista porque levou ele a escrever o livro Uma Vida Entre Livros, que o transformou em escritor membro da Academia. E a do poeta pantaneiro porque o tirou do seu esconderijo no Mato Grosso do Sul. Foram seis meses de troca de cartas e três viagens dos entrevistadores a Campo Grande, sempre regadas a muita cachaça e ao saboroso caldo de piranha, típico da região.

Com Lúcia Leão, Turiba teve muitas outras conversas. Eles foram marido e mulher por muitos anos e tiveram três filhos, dois homens e uma mulher, já adultos e espalhados no mundo. Aliás, em três casamentos ele teve, até agora, um total de cinco filhos e quatro netos. Dos outros parceiros da revista, Resa já é falecido e João Borges é comentarista da Rede Bandeirantes.

No meio tempo, Luis Turiba atuou como assessor de Comunicação de parlamentares, antes e depois da Assembleia Constituinte de 1988. Nesta mesma função, trabalhou com o ministro Gilberto Gil, no Ministério da Cultura, durante o primeiro governo de Lula. Conheceu, assim, um Gil executivo, muito ativo, como ele conta, e juntos viajaram pelo Brasil e pelo mundo em viagens de trabalho, com as quais muito aprendeu.

Como cidade, ele prefere morar no Rio de Janeiro, pra onde voltou por alguns anos, por causa do mar e do samba carioca. Mas, por razões profissionais, reside atualmente em Brasília e tem o sonho de viver uns anos em Lisboa, Portugal. Lá, pretende se embrenhar na escrita de um romance com histórias das décadas de 1970 a 2000, a maioria delas vividas na capital brasileira.

De fatos curiosos por que já passou na vida, tem um que ele não gosta de contar, mas me contou:

“É o meu maior fracasso como jornalista, quando fui entrevistar o poeta argentino Jorge Luís Borges, por indicação de Tancredo Neves, em 1985. Quando me vi diante de ‘El Bruxo’, simplesmente empaquei, fiquei paralisado, não conseguia fazer perguntas, coloquei meus olhos nos olhos cegos de Borges, e ele, pegou no cajado e bateu na minha perna: Adelante, hombre: adelante! Foi um mico.”

Em compensação, ele acumula dois prêmios Esso regionais, por matéria sobre os condomínios no Distrito Federal e um caderno especial sobre a vida do roqueiro Renato Russo, cantor e compositor candango. E outros mais, entre os quais o Prêmio Candango de Cultura de 1989 pelo livro “Cadê?”.

Como poeta, ele tem oito livros publicados, o último dos quais, o “Qtais”, é de 2015. E está preparando a edição de “Desacontecimentos Extraordinários”, uma coletânea de 40 poesias de um total de umas 400, que ele crê ter escrito em 2017.

ERGO

não desapego

desse chamego

de voo cego

chego cedo

seco em segredo

desassossego

apelo aos elos

não peço arrego

– cruz credo! –

revelo a esmo

meu desmantelo

& ao sê-lo

ergo

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