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Olga Freitas: Um olhar feminista sobre a educação e a política – 

Por: Zezé Weiss

Olga Freitas é uma dessas pessoas lindas que brotaram nesse planeta para lutar pelo bom, pelo justo e pelo melhor do mundo, uma mulher que honra a história de seu próprio nome.

Ao voltar do cartório com a certidão de nascimento da filha, Edson, o pai operário daquela menina nascida num acampamento da Barragem de Três Marias, sequer pôde entrar em casa. Uma patrulha da polícia o aguardava para levá-lo à Delegacia de Polícia local.

Vivia-se os tempos tenebrosos da ditadura e o dono do cartório havia informado aos setores da repressão que um comunista acabara de registar uma criança como nome da mulher de Prestes.

Do camburão, o pai da menina foi direto pra sala de interrogações, onde apanhou por horas. Mesmo assim, o simpatizante de Prestes, que nem comunista era, convenceu o delegado da inocência da escolha e manteve o nome da filha. Mas a perseguição não acabou ali, por anos foi vigiado e sentiu-se perseguido pelas garras da ditadura.

Por fim, Edson cansou da agonia e mudou-se coma família para Sobradinho, em Brasília, onde tornou-se um corretor de imóveis, mas mesmo assim teve uma vida difícil, causando sofrimento a si mesmo, à esposa e aos filhos. Diagnosticado com esquizofrenia, Edson acabou alternando seus dias entre agressões e ausências.

Andarilho, desaparecia por tempos. Sem nenhum tipo de formação, sua mãe precisou sustentar os filhos e filhas  lavando e passando roupas, como diarista.

Com tudo isso, Olga compreendeu bem cedo que a educação era a única solução para sair da encruzilhada a ela imposta pela vida. Como nunca imaginou para si uma profissão que não fosse o magistério, fez o curso Normal, formou-se professora.

Depois foi pra faculdade, fazer Pedagogia, sempre trabalhando durante o dia e estudando à noite. Mesmo assim, Olga passava um cortado, já que que ganhava mal dava pra pagar os custos da faculdade.

Durante os estudos conheceu o marido, Carlos Magno, filho de família nordestina. Acostumado aos mimos de uma criação machista, ele foi aprendendo a lidar com uma companheira autônoma que, mesmo sem falar no feminismo, trazia pra dentro de casa a essência da plataforma das mulheres feministas.

Muito cedo, aos 16 anos, Olga começou a militar no movimento estudantil pelo Partidão (Partido Comunista). Foi ela quem criou o primeiro grêmio estudantil na Escola Normal de Brasília. Foi Secretária da UMESB (União Metropolitana dos Estudantes Secundaristas de Brasília), ajudou a organizar a Marcha dos Estudantes no movimento Diretas.

Olhando em retrospectiva, ela sente que agia pela indignação, sem ter noção da rica história que ajudava a construir. Moradora do Gama, um ato ousado de rebeldia naquela época era sair pelas ruas da cidade cantando em voz alta o “Caminhando” de Geraldo Vandré sem, segundo ela, “saber que o buraco era mais embaixo.” Ela era movida pela energia, pelo sonho, pela utopia da sociedade possível, tão cara à juventude amante de todas as liberdades.

Daquele movimento em diante, Olga passou a militar a partir do seu espaço de formação, como professora, porque ela ainda acredita que são os professores e professoras que podem contribuir de forma mais direta para fazer a diferença. “Do mesmo jeito que o machismo é pedagógico, o feminismo também pode ser também, a partir da sala de aula.”

Em 1992, ingressou na Secretaria de Educação do DF. Desde então usa o espaço de fala na sala de aula para formar consciências críticas. E como professora, foi estudando, estudando, chegou ao doutorado, foi construindo uma vida uma vida mais acadêmica, porém sem se deixar sequestrar pelo mundo acadêmico, sem se distanciar das lutas do povo.

Na academia, escolheu por se especializar no ensino para pessoas com deficiência, na feminização da educação,  e na  garantia dos direitos  de cidadania para quem não se enquadra nos padrões exigidos pelo mundo tradicional do mercado de trabalho. Do seu jeito, Olga usa da sua ciência para fortalecer a luta para “libertar o povo.”

Executiva, foi primeiro diretora da Escola de Governo e em seguida diretora da Escola de Aperfeiçoamento dos Profissionais da Educação (EAPE) no governo Agnelo Queiroz.  Hoje, coordena do Setorial de Educação do Partido dos Trabalhadores no Distrito Federal.

Por fim, a mãe de dois filhos, Lucas e Carolina, assumidamente feminista, uma vez mais resolveu transformar sua indignação em luta, e como candidata a suplente do candidato a senador Wasny de Roure pelo PT nas eleições de 2018. É a partir dessa plataforma que Olga pretende dar visibilidade à defesa da participação da mulher nos espaços da política e do poder.

O que foi tomando corpo na trajetória de Olga, torna-se causa para os tempos presentes e para o pós-eleição. “Nós somos mulheres em todos os seguimentos da comunidade escolar, somos 76% do magistério, somos mais de 80% na carreira assistência, mesmo na terceirizada, somos mais de 60% responsáveis legais pelas matrículas da crianças, e somos também 56% como alunas, e nós não nos escolhemos para gerir os espaços, e a gente não se escolhe onde o homem, mesmo sendo minoria, está. Ele quem concorre aos cargos das escolas.”

Para os tempos futuros, a luta de Olga continuará sendo pra  mover os critérios da escolha do cultural para o técnico, para que as mulheres não sejam colocadas em segundo planos por valores misóginos, machistas. Serão tempos em que a mulher, que segundo os valores sociais que a subjugam “nasceu apenas para parir e cuidar dos pequenos” também vai poder gerir e decidir sobre os destinos da educação.

Sorte tem o PT, sorte tem a educação do DF, sorte tem Brasília em ter uma mulher como Olga Freitas na luta pela formação das novas professoras com um viés, com um olhar político e feminista para a educação de nossas crianças. Sorte nossa ter em nosso meio uma professora assim, tão engajada na luta por um olhar libertador da mulher pra si mesma, porque é daí que surge a esperança desse outro mundo possível, desse outro mundo mais sustentável, menos injusto, mais igualitário!

 

ANOTE AÍ:

Fotos do Acervo pessoal de Olga Freitas

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