Frente democrática e os “sapos do pântano”

O avanço da direita é um fenômeno mundial. O capitalismo parece preferir hoje regimes autoritários. O “Estado de exceção” está se tornando a regra geral. Governos autoritários e ditatoriais convivem bem com a economia de mercado

Por Liszt Vieira
Frente democrática

Créditos da foto: (Auguste Couder, 1839)

Sapo não pula por boniteza, mas porém por precisão
(Guimarães Rosa)

Entre as várias causas em geral mencionadas para explicar a vitória do candidato de extrema direita encontram-se a violência urbana, a corrupção, o esgotamento do sistema político representativo e o anti petismo disseminado pela grande mídia nas últimas décadas. O candidato vencedor fugiu dos debates, não apresentou programa de governo e deixou para cada um imaginar o que seria mudar “tudo isso que está aí”. Mas conseguiu canalizar o sentimento popular de rejeição aos políticos com ideias simplistas, medíocres e equivocadas para resolver problemas complexos como, por exemplo, o porte de armas para acabar com a violência.

Entretanto, ainda na campanha, Bolsonaro anunciou alguns pontos de sua agenda obscurantista baseada em três overdoses: a do liberalismo econômico, a do autoritarismo político e a do conservadorismo moral. Alguns exemplos são a lei anti terrorismo que criminaliza movimentos sociais, inclusive qualquer manifestação contra o Governo, a Escola Sem Partido (na verdade de partido único), ataques às Universidades etc. Isso sem mencionar as famosas declarações do deputado a favor da tortura, guerra civil para matar 30 mil, porte de armas para todos, discriminação de mulheres, gays, negros e índios. Essa agenda fascistóide e hiper conservadora angariou o apoio do segmento militar, de grande parte do Judiciário, do empresariado, do mainstream da mídia e das igrejas evangélicas.

É preciso reconhecer, a bem da verdade, que tudo isso foi possível porque a esquerda em geral persistiu em erros históricos e assistiu, impotente, ao deslocamento do centro para a direita. Tradicionalmente, a direita tem 30% do eleitorado, a esquerda idem, e os 40% restantes constituem o chamado “centro” que tem um movimento pendular: pode se deslocar para a esquerda, como ocorreu na eleição de Lula, ou para a direita, como ocorreu agora.

Ressalvadas as diferenças, lembra metaforicamente o papel da “Planície” ou “Pântano” na Revolução Francesa. Os membros do Pântano ficavam no centro, entre os jacobinos, à esquerda, e os girondinos, à direita, e foram chamados ironicamente de “sapos” por Jean Paul Marat em seu jornal O Amigo do Povo.

Hoje, um erro persistente da esquerda foi chamar o centro de direita. Quantas vezes vi lideranças de esquerda chamarem Marina e FHC de direita! Eu próprio fui chamado de direita por setores do PSOL e do PT porque defendi o patrimônio público do Jardim Botânico do Rio de Janeiro: fui contra a privatização desse patrimônio do Estado em favor dos atuais ocupantes que lá fixaram residência. Em vez de um debate respeitoso, preferiram me desqualificar.

Esse erro tem raízes históricas. As analogias são sempre perigosas, porque os contextos históricos são diferentes. Mas vale recordar o famoso erro do partido comunista alemão nos anos 30 que identificou como inimigo principal os socialistas e os social democratas. Veio o fascismo, e destruiu todos.

Muitos erros foram cometidos pelo PT no poder. Deixando de lado as denúncias de corrupção, houve no mínimo uma política de alianças mal concebida: Temer vice da Dilma já na época era um horror. Tivemos decisões estapafúrdias na política econômica conduzida por Palocci e Meireles e decisões políticas desastrosas como, por exemplo, a nomeação de ministros do STF: os quatros ministros nomeados pela ex-presidente Dilma votaram contra a libertação de Lula! E o que dizer do Toffoli, antigo advogado do PT, que tentou apagar o golpe militar de 64, chamando o golpe de “movimento”!

O avanço da direita é um fenômeno mundial. O capitalismo parece preferir hoje regimes autoritários. O “Estado de exceção” está se tornando a regra geral. Governos autoritários e ditatoriais convivem bem com a economia de mercado. Respeitadas as diferenças, podemos citar a Rússia, Turquia, Hungria, Polônia, a maioria da Ásia, com destaque para a China e o regime sanguinário das Filipinas, a maioria da África, alguns países da América, com Trump à frente, embora contido pelo sistema de contrapeso norte americano (check and balance) e agora Bolsonaro no Brasil, cuja vocação de ditador troglodita deverá – espera-se – ser contida, pelo menos em parte, pelo Senado e pelo STF que, mesmo fazendo concessões, não pode abrir mão dos direitos fundamentais, sob pena de suicídio institucional.

Outro limite ao impulso ditatorial do presidente eleito pode talvez ser a imprensa liberal que até agora deu corda ao candidato fascista. Segundo lembrou em artigo recente o cientista político Leonardo Avritzer, a imprensa ajudou a propagar dois mitos: associar a corrupção ao PT, quando de longe o partido mais corrupto e mais processado na Lava Jato é o PP, com 31 políticos, enquanto o PT tem apenas 6. Outro mito é o de que a crise econômica foi criada no governo Dilma, quando já temos, há 4 anos, uma política econômica neoliberal. Apesar disso, não é improvável que a imprensa possa se sentir ameaçada com a truculência do novo presidente e passe a defender as liberdades democráticas que havia desprezado.

Diante desse quadro assustador, democratas lúcidos, em todo o Brasil, levantam a voz para propor a formação de uma Frente Democrática Pluripartidária. Além de necessária, a proposta é urgente. Ela pode ser encaminhada pelos candidatos de esquerda que alcançaram importante liderança na recente campanha eleitoral. Mas, para isso, essas lideranças teriam de agir de forma autônoma em relação às suas respectivas burocracias partidárias. Refiro-me aqui, principalmente, a Haddad e Boulos, que saíram da campanha com ótima imagem política. Já Ciro Gomes saiu arranhado por haver abandonado o Brasil, como FHC, para não apoiar Haddad no segundo turno.

Como os partidos começam a pensar na próxima eleição em 2020, esses líderes políticos teriam imediatamente de se lançar e mobilizar a sociedade civil para participar da Frente Democrática Pluripartidária. Não sei se terão a coragem política para fazê-lo, pois vão enfrentar obstáculos em seus próprios partidos. O PSOL não tem tradição de apoiar Frente, muito pelo contrário. E o PT costuma querer protagonizar os espaços políticos que ocupa. O PDT é fraco e dividido enquanto partido. Seu candidato, Ciro Gomes, já anunciou que apoia uma Frente sem o PT, o que mostra que não superou seu ressentimento por ter sido passado pra trás pelo Lula. Já o PCdoB tem tradição de apoiar uma Frente contra a direita. E o PSB é uma incógnita, mas os diretórios estaduais progressistas deverão apoiar a Frente.

Assim, a possibilidade de criar e consolidar uma Frente Democrática Pluripartidária depende, não só mas principalmente, da decisão de líderes políticos se lançarem, independentemente dos partidos, na mobilização da sociedade civil – movimentos sociais, Universidades, Sindicatos, Associações, ONGs, entidades representativas diversas etc. Se isso não for possível, cada partido fará sua oposição e poderá mais facilmente ser neutralizado.

O general prussiano Karl von Clausewitz, conhecido estrategista e historiador militar, disse certa vez que o vencedor é amigo da paz. Todo presidente, recém eleito, diz que vai governar para todos. Mas Bolsonaro, ao contrário, diz que vai destruir a oposição. O inimigo é interno – 47 milhões de pessoas votaram em Haddad – com alvo preferencial nos gays, indígenas, negros e mulheres. E prioridade para propostas autoritárias e tresloucadas como porte de arma para todos, Escola Sem Partido etc. Na verdade, toda a oposição é vista como inimigo a ser abatido. Invertendo outra máxima de Clausewitz, para Bolsonaro a política é a continuação da guerra por outros meios.

O ministério anunciado está à altura da ignorância e mediocridade do presidente eleito. Declarações idiotas, decisões absurdas que obrigam a desdizer o que foi antes anunciado, como mudança da embaixada brasileira para Jerusalém, extinção dos Ministério do Meio Ambiente e do Trabalho, críticas levianas à China, nosso maior parceiro comercial, ao Mercosul e à Noruega, o principal financiador da preservação da Amazônia. A inexperiência, incompetência, arrogância e ignorância do presidente e sua equipe brancaleone são garantias do caos a ser instalado no país. O Brasil já é hoje objeto de zombaria, escárnio e desprezo em todo o mundo. Um exemplo recente, entre muitos, é o jornal The Guardian que, ao comentar as declarações idiotas do anunciado Ministro chefe do Itamaraty – que escandalizou os cientistas ao dizer que as mudanças climáticas são invenção da esquerda – publicou reportagem, cujo título é: “Novo ministro das Relações Exteriores do Brasil acredita que mudança climática é uma trama marxista”.

Nessa eleição, prevaleceu uma perversa “terceira margem do rio”. A “boniteza” dos nossos argumentos não sensibilizou os sapos do pântano que promoveram uma verdadeira reação termidoriana. Mas os pobres e boa parte da classe média, em pouco tempo, sentirão na pele os efeitos da política neoliberal dos Chicago Boys, com tempero pinochetiano. Se não pularam por “boniteza”, vão pular por “precisão”.

Nesse momento, então, passarão a ouvir os argumentos que rejeitaram na campanha eleitoral. É importante lembrar, entretanto, que uma aliança meramente parlamentar não será suficiente para barrar o retrocesso cultural, social e econômico que já se vislumbra no horizonte. Diante da sanha destruidora desse fascista tupiniquim, impõe-se, desde já, a formação de uma Frente para defender a democracia e os direitos humanos. A oposição, unida, terá alguma força. Dividida, será derrotada.

Somente mobilizando as forças vivas da sociedade civil será possível salvar a democracia e garantir os direitos sociais, as liberdades políticas e a soberania econômica ameaçados pelo governo de extrema direita que em janeiro começará a destruir o Brasil. É possível e necessário mobilizar a sociedade e trazer os sapos do pântano de volta às posições democráticas e republicanas.

ANOTE AÍ

Fonte: Carta Maior

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