Get back é gira! É fixe! Vê logo, gente!

Por Angélica Torres/ Portal Vermelho

Aí, você passa três, quatro noites – se quiser ir saboreando aos poucos e se mantendo assim, nos dias seguintes, enquanto espera pra ver o episódio seguinte – naquele clima de hipnose, de estrelas brilhando em seus olhos, vidrados na beleza, no carisma, no humor, na espontaneidade, na harmonia, nas surpresas, na genialidade deles, Paul, John, George, Ringo, criando os arranjos, mudando palavras ou trechos das letras, arredondando as canções, naquela intimidade de estúdio e na frente das vinte ou sei lá quantas câmeras que os produtores, meio século e dois anos depois, põem diante de nós, os espectadores.

Se fui cutucando de pouco em pouco os amigos especiais e os mais chegados pra não demorarem muito a ver (os músicos, poetas e os filhos, sobrinho, sobretudo), ao chegar em estado de graça ao fim, com o concerto no terraço do prédio da Apple, aviso o mesmo a quem estiver lendo aqui este anda logo! perde tempo não e assiste, gente! Sabe por quê? Porque o filme tira você do clima odiento, de horror, de guerra, de ruínas, de fim de mundo que se vive aqui há anos, para o de alegria, de enlevo, de encantamento, de amor e principalmente de esperança, a mesma esperança que os quatro trouxeram nos anos 1960 ao mundo e mais ainda ao Brasil, então não muito menos em frangalhos que o de hoje – e ainda que assim mesmo, em tons saudosistas.

Depois de tudo o que jornalistas especializados em música publicaram, o que mais se pode dizer a não ser que Get Back é gira! é fixe! – parodiando a tradução lusa da legendagem desse documentário dirigido por Peter Jackson, que o streaming da Disney oferece ao público como presente de festas de fim de ano? Todo mundo que ama os Beatles precisa ver Get Back. Músicos, compositores, então, é um dever.

Decerto que todos já sabem ser o filme um baita show, de técnica em som e imagens e mais ainda em termos de montagem, realizado por aquela equipe de feras, que passa ao espectador todo o clima do que rolou ao longo do mês de janeiro de 1969, na preparação do último disco e do concerto ao vivo do antológico quarteto de Liverpool. E se bate preguiça, tipo, ah, já chega, já se viu, ouviu, já se sabe muito sobre eles…?
Bem, os das gerações que vieram depois de nós, os veteranos que vivemos The Beatles em tempo ao-pé-da-letra real, pode ser que saibam mesmo tudo, porque já receberam mastigada toda a história da banda, “teoricamente” minutada, repisada, historiada em várias versões, muitas das quais eu pessoalmente discorde, aliás. Até porque há no filme surpresas, por exemplo, quanto à relação entre os quatro, incluindo suas mulheres, com destaque para Yoko, claro, que muitos sabidos desconhecem – e não serei eu a estragá-las aqui, entregando o jogo.
Afinal, quem ainda ignora que a fake new nunca foi um “fenômeno” da era virtual? Quem não cogita ser ela, na verdade, da idade da humanidade, pelo menos desde a era gutemberguiana? E o bacana é exatamente não se sentir direcionamento para interpretações assim ou assadas. Está tudo ali às claras, você que deduza e tire suas conclusões. Se quiser. E se não quiser encucar, apenas curta o showzaço exposto nos três episódios de duas horas e alguns quebrados, cada.

Os Beatles no porão da Apple, onde as coisas voltaram a fluir entre eles. l Foto: Disney +

Ficar ali na tela, devorando com os seus sentidos os quatro rapazes – John, com suas tiradas espirituosas, suas palhaçadas provocativas e referências (recorrentes aos Stones, a Eric Clapton, à Greta Garbo e outros mais); Paul, o líder, caramba, pelo menos no contexto do trabalho criativo dos quatro (e não o John, como quando garotos nós pensávamos?!; Lennon fazia sim esse papel, mas voltado para o público, ou era assim que se lia e se percebia, assim que a mídia o pintou, pela rebeldia, pelo atrevimento em declarações e performances); Ringo, zen, silencioso, observador, a coluna da estabilidade do grupo, adorável; George e suas dissonâncias, seu orientalismo, seus saques de jazz enriquecedores (e suas surpreendentes mágoas!) – mais o inesquecível, talentoso, alto astral, charmoso Billy Preston, amigo e parceiro deles da temporada no bom inferno da Reepperbahn, em Hamburgo, Alemanha; mais o ótimo Alan Parsons, ali como engenheiro de áudio; mais o belo, elegante, George Martin; ah, e tantos outros nomes tão familiares ao beatlemaníaco fã-clube de todas as idades; então, isso, de só ficar-se ali chapado naqueles rostos de garotos bonitos, nas cores extraordinariamente compostas nos cenários, na forma como construíam suas consagradas canções, no final apoteótico, é tudo o que se tem de melhor a fazer, assistindo Get Back.
E basta. Pra quê mais? Pois se programe e desfrute sem muitas delongas dessa deliciosa, generosa volta dos quatro em hora mais do que oportuna, para nós e para todo o planeta.
Fico aqui só imaginando o quanto Paul e Ringo, quando assistiram ao documentário finalizado, devem ter sentido fundas e doloridas saudades dos dois companheiros ausentes, mesmo com a fleuma típica que levam indissociavelmente colada em suas personagens populares. 
P.S.!! – Só lembrando, ainda, que hoje se comemoram 41 anos do assassinato de John Lennon. E, também, justificando que este é um texto irreverente, feito para amigos lerem, mas também conhecidos e quem mais chegar, sem nenhuma pretensão de minha parte em saber muito sobre as ditas verdades cristalizadas sobre eles, sem ter lido uma resenha sequer do muito que tem sido dito a respeito – simplesmente por direito adquirido pelos tempos de estrada e pela vivência da história deles, como já dito, em real tempo real. Pois.

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UMA REVISTA PRA CHAMAR DE NOSSA

Era novembro de 2014. Primeiro fim de semana do mês. Plena campanha da Dilma. Fim de tarde na RPPN Linda Serra dos Topázios, do Jaime Sautchuk, em Cristalina, Goiás. Jaime e eu começamos a conversar sobre a falta que fazia termos acesso a um veículo de informação independente e democrático, mas com lado. Ali mesmo, naquela hora, resolvemos criar o nosso. Um espaço não comercial, de resistência. Um trabalho de militância, tipo voluntário, mas de qualidade, profissional.
Jaime propôs um jornal; eu, uma revista. O nome, Xapuri, eu escolhi (ele queria Bacurau). Dividimos as tarefas. A capa ficou com ele, a linha editorial também. Correr atrás de grana ficou por minha conta. A paleta de cores, depois de larga prosa, ele escolheu (eu queria verde-floresta).
Fizemos a primeira edição da Xapuri lá mesmo, na Reserva, praticamente em uma noite. Já voltei pra Brasília com uma revista montada e com a missão de dar um jeito de diagramar e imprimir.
Nos dias seguintes, o Jaime veio pra Formosa, pra convencer minha irmã Lúcia a revisar a revista, no modo grátis. Daqui, rumamos pra Goiânia, pra convidar o arqueólogo Altair Sales Barbosa para o Conselho Editorial. Altair foi o nosso primeiro conselheiro. Até a doença se agravar, Jaime fez questão de explicar o projeto e convidar, ele mesmo, cada pessoa para o Conselho.
O resto é história. Jaime e eu trilhamos juntos uma linda jornada. Depois da Revista Xapuri veio o site, vieram os e-books, a lojinha virtual (pra ajudar a pagar a conta), os podcasts e as lives, que ele amava. Em 80 meses, Jaime fez questão de decidir, mensalmente, o tema da capa e, quase sempre, escrever ele mesmo a matéria.
Na tarde do dia 14 de julho de 2021, aos 67 anos, depois de longa enfermidade, Jaime partiu para o mundo dos encantados. No dia 9 de julho, quando preparávamos a Xapuri 81, pela primeira vez em sete anos, ele me pediu para cuidar de tudo. Foi uma conversa triste, ele estava agoniado com o agravamento da doença e com a tragédia que o Brasil enfrentava. Não falamos em morte, mas eu sabia que era o fim.
É isso. Agora aqui estou eu, com uma turma fantástica, tocando nosso projeto, na fé, mas às vezes falta grana. Você pode me ajudar a manter o projeto assinando nossa revista, que está cada dia mió, como diria o Jaime. Você também pode contribuir conosco comprando um produto em nossa lojinha solidária (lojaxapuri.info) ou fazendo uma doação via pix: contato@xapuri.info. Gratidão!
Zezé Weiss
Editora

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