– Tô te dizendo Yube, rato não vira morcego!

– Vira sim! Claro que vira.

– É impossível! Você está enganado, nunca um rato viraria um morcego, pois são animais diferentes! Essa é uma verdade estabelecida pela ciência. Essa tua ideia aí é superstição!

– Tá certo. Você diz isso, mas se passar um tempo na minha aldeia você vai ver que o rato vira morcego.

– Não seja por isso, vou mesmo, e tenho certeza que mesmo que eu passe uma vida lá, ainda assim o rato não vai virar morcego.

Tive este diálogo com o grande amigo José de Lima Yube Huni Kuin, na cidade boliviana de Cochabamba, durante uma viagem que fizemos juntos pelos Andes, em 2001, quando este ainda era um jovem Agente Agrofloroestal de 19 anos. Nos anos que se seguiram a tão estranho diálogo,  Yube tornou-se um grande cineasta e Assessor de Assuntos Indígenas do governo do Acre. O ponto da teima era justamente o fato de que, culturalmente, muitos povos da floresta, entre esses o indígena, crê que rato vira morcego.

Na semana que passou o brasileiro descobriu estar se alimentando de carne podre, condimentada com ácidos e outros temperos criminosos do tipo, fiquei pensando no tanto em que essa sociedade “perfeita” e colonizadora é dependente química. Sim, é isso mesmo que quis dizer, dependente. Pense no que você consome durante um mês e procure descobrir a composição desses produtos e verá que mais que a metade dos componentes são químicos que mantém o produto limpo, durável e que, em muitos caso, dão sabor e fragrância aos mesmos.

Acho bem interessante observar a chacota que tomou conta da internet, nas redes sociais de comunicação, sobre esse tema, onde pessoas que se acham “limpas” do mau costume de comer carne postam mensagens que, por mais que pareçam corretas, mascaram a verdadeira mensagem: vocês se deram mal, seus carnívoros miseráveis, comedores de papelão e de carne verde.

Claro que muito do que vem se dizendo na internet não tem eira nem beira, mas, enfim… Acho interessante é que se zoa com a carne,  mas não se tocam que, por outro lado, envenenam-se bebendo cerveja feita com produtos transgênicos,  ou comendo vegetais perfeitamente conservados e livres de pragas através de agrotóxicos que, além de envenenar este vegetal, muitas vezes, envenena a terra que os produziu.

Até aqui, onde habito, no extremo ocidental da Amazônia, onde poucos desses produtos chegam, as pessoas não estão de todo protegidas ou livres dessa quimera. Moral da história: somos uma sociedade envenenada, altamente tóxica e quimicamente dependente.

Mas, faz tempo que eu sei disso, bem antes desta crise toda que tomou de assalto a atenção nacional. Já passei por diversas desintoxicações e me intoxiquei outras tantas nesses movimento aldeia-cidade-aldeia.

É impressionante como sentimos o peso dessa dependência quando nos internamos em um lugar sem acesso ao ar, alimento, bebida, sociedade e cultura dos meios urbanos (ou urbanoides). Os primeiros dias são de total alegria mas, por alguns dias depois disso, passamos por um processo doloroso de desprogramação e desintoxicação. Não estou falando de uns dias, mas, sim, de semanas ou  meses. Quem já passou um tempo grande em uma comunidade isolada sabe bem do que falo.

Caramba! Como nós, em nossas Agente Agrofloroestal de cultura e sociedade enlatada somos alienados. Sim, totalmente alienados de algo muito importante, não se trata de política, moda ou da “revolta” do momento. Esse algo é justamente nós mesmos, nossa relação com a natureza e com o nosso EU.

Cada vez mais as cidades transformam-se em uma bolha, conectada pela globalização e pela liquidez, que, ao passo que nos soldam às suas engrenagens, nos individualizam, nos tornam dependentes e superficiais, aspectos necessários para viver nesse espaço artificial onde nada é realmente o que parece ser, nem mesmo as pessoas.

Estar em contato com a natureza nos transforma. Contato mesmo, não aquela caminhadinha ridícula no parque da cidade.

Tenho acompanhado com satisfação as aventuras da jornalista Maria Fernanda que, após uma vivência na amazônia, como uma andarilha em peregrinação, voltou à sua cidade natal e, num ato de desprendimento, vendeu tudo, fez uma bonita campanha para arrecadar camisas de times de futebol para crianças das comunidades, em seguida  voltou para o “mato”.

Hoje vi uma foto sua numa aldeia Yawanawá, toda feliz, sem pintura tradicional, sem penacho, sem maquiagem, sem nada do tipo que indicasse ser ela uma típica visitante turista, que logo que chega numa aldeia quer logo beber cipó, se pintar, tirar milhões de fotos para por no Facebook, e dar no pé, de volta para o falso conforto.

Na foto, Fernanda estava um tanto descabelada, mas com um sorriso verdadeiro de felicidade, enquanto segurava uma criança no colo. Criança esta que recebeu seu nome.

A cara de felicidade verdadeira da jornalista me é bastante conhecida, já vi muitas vezes em mim mesmo, e em outros que realmente buscaram este caminho de desintoxicação total (social, cultural, orgânica, espiritual, etc).

Fernanda veio, foi, voltou e se “embrenhou” nessa floresta em busca de algo bem mais valioso:  Ela veio por ter percebido, desde sua primeira visita, que os povos da floresta – e a própria floresta – são, antes de mais nada, um estilo de vida com uma filosofia própria, sem artificialidades e que muito tem a oferecer para quem verdadeiramente os recebe em seu coração e os abraça como parte de sua existência.

Pois é. A gente só se dá conta da artificialidade que vivemos quando nos inserimos num mundo mais natural, onde nos alimentamos do que está disponível naturalmente nas plantações, nos rios e na floresta. Comer carne quando tem, beber mingau de macaxeira, de milho, comer macaxeira cozida, pupunha cozida; Carregar água para cozinhar; banhar-se nas águas correntes do rio ou na frieza dos igarapés, onde emergimos nossos corpos no suco natural de proteínas da floresta que tanto limpa nosso corpo material quanto o espiritual; ouvir os sons dos animais e da natureza; sentir calor quando faz calor, frio quando faz frio, sem artificializar as sensações térmicas com condicionadores de ar ou calefação; Tratar o corpo material e o nosso yuxin (espírito) com suas medicinas tradicionais e ancestrais, tão puras quanto a essência da natureza; Dançar e se pintar em festas que nos remetem à natureza primeva da ancestralidade humana.

É também se inserir em uma coletividade onde se conversa sobre coisas mais simples; Ouvir histórias antigas e cheias de simbolismos; Onde se ri de piadas simples; Onde os dramas da vida estão logo ali, na casa vizinha ou na aldeia vizinha. É estar, muitas vezes, ouvindo a própria voz interior nos intermináveis dias que se seguem sem a pressão do relógio e dos compromissos marcados.

É o sentimento pleno de liberdade, possível somente quando seu RG e CPF não servem para nada e quando você se encontra literalmente “fora do sistema” – inclusive de telefonia e internet – libertando-se da obsessiva necessidade, sentida por alguns,  de autopromoção e autoafirmação constante através de intermináveis postagens de auto-retrato (que o povo chama de selfie), como se procurasse gritar para todos: Ei! Vejam, sou eu! Estou aqui ó… olhem como sou feliz e diferentão do resto de vocês! – Como se a existência e satisfação interior dependesse de ser constantemente notado pelos demais.

Passado este refrigério existencial, propiciado por esta vivência,  quando voltamos à nossa rotina citadina é que percebemos a velocidade louca e a esquizofrenia alucinante, que nos lança num redemoinho de emoções e sensações, e onde não percebemos a passagem do tempo ou temos tempo para ouvirmos a voz interior. Nos envenenamos conscientemente com o que compramos nos supermercados ou nas feiras.

Nos isolamos egoisticamente e conversamos um diálogo de “mão única” que a televisão, os programas de rádio, os jornais ou as mídias sociais virtuais nos propiciam, que nos alienam sem notarmos, deixando-nos insensíveis para os dramas que se passam numa velocidade e profusão que não nos dá possibilidade de nos comovermos com tal e que nos faz passar apressadamente  pelo mendigo da esquina ou fazer de conta que são invisíveis as crianças vendendo doces ou pedindo ajuda ao longo das vias quentes e esfumaçadas que trilhamos todos os dias.

É um mundo de certezas prontas e volúveis, onde a cada momento surgem teorias e descobertas que desconstroem o que antes era verdade. É um coliseu onde se criou conceitos de minorias e maiorias que se enfrentam intermitentemente e onde uma oligarquia política conspira em plena luz.

O bicho horrendo do lucro e a manutenção do status nos faz refém nestas cidades, ao gosto de políticos e de uma elite financeira que claramente vivem em outra realidade. Somos reféns sem ninguém que queira pagar nosso resgate, onde os únicos interessado em nossa liberdade somos nós mesmos.

Dito tudo isso, também entendo que existem sim esforços por parte desse tal “mundo globalizado” em destruir estes oásis de humanidade, pois isso representa um perigo. Ora, se todos buscassem, vez por outra, buscar uma convivência do tipo, certamente os costumes alimentares, sociais, culturais e ambientais seriam outros e, assim, certamente isso transformaria esse mundo e, claro, essa transformação não é de interesse de quem, tal qual um parasita, necessita para sua sobrevivência e manutenção do status quo, da dependência total da população.

É por isso que sempre vi as comunidades indígenas como um verdadeiro oásis de sanidade e humanidade, onde é possível nos conectarmos com tudo que nos rodeia de maneira mais pessoal e ativa. Onde é possível nos desintoxicar e higienizar nossas mentes, sermos “humanos” novamente. É onde o ambiente interage totalmente conosco e percebemos este ambiente como um ser vivo que pulsa tanto quanto nosso coração e que está intimamente ligado à nossa existência.

Assim como Fernanda, eu, em algum momento de minha vida, saí da artificialidade e tive a mercê de conhecer os Povos Originários que tão simplesmente chamamos de “índios”. Iniciei uma busca que me direcionou a um caminho que me propiciou (e ainda me proporciona) os maiores ensinamentos de vida que tanto prezo, e que me fazem viver sem embaraços neste meio urbano e tóxico e que, apesar de todas as considerações que já tracei acima, ainda chamo de “lar”, e que acredito ser possível transformá-lo em algo bem mais salutar para os que nele habitam. Um local onde o foco no medo e no lucro não moldem as gerações em seres insensíveis ao próximo e à natureza.

Entrei de cabeça nesse mundo indígena, desconstruindo e reconstruindo a cada momento as certezas marteladas em minha mente e espírito, buscando meu “eu” em cada curva de rio, em cada nova subida de barranco, em cada aldeia que conhecia. Aprendendo a cada roda de conversa em torno da fogueira ou nas rodas de danças. Nos momentos coletivos da alimentação, das pescarias, dos roçados. Desintoxicando meu organismo, desanuviando minha mente, humanizando-me.

Até hoje esse processo ainda está em andamento e faz parte de minha vida, pois, sempre sinto o “sinal” que me indica ser o momento de por a mochila nas costas e buscar o ambiente acolhedor e real de uma aldeia.

E quanto ao rato virar morcego?

Bem, nesses últimos dezesseis anos ainda não vi o rato virar morcego, viu, amigo Yube! Mas também não teimo mais com você sobre isso, afinal, vai que…

 ANOTE AÍ:
Jairo Lima, indigenista e escritor acreano, publica seus escritos semanalmente em seu blog www.cronicasindigenistas.com.br .  Por gentileza de Jairo, seus textos são publicados também aqui o site da Xapuri, em geral às terças-feiras.
As fotos que ilustram esta matéria foram selecionadas por Jairo e são da autoria de:
Imagem 1 – Foto Sérgio Vale – Capa
Imagem 2: Foto  Ion David
Imagen 3 “Maria Fernanda segurando a… Maria Fernanda”
Imagem 4: Foto Agência de Notícias do Acre
Imagem 5:  Foto Talita Oliveira 
Imagem 6: Foto Sérgio de Oliveira 

About The Author

Jairo Lima

Indigenista, graduado em Pedagogia pela UFAC. Casado, estudante da natureza e das pessoas. Amante da cultura e observador do cotidiano indígena. Atua há quase duas décadas junto aos povos indígenas do Juruá acreano.

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