Uma Travessia pelos terreiros do Povo do Japó-Ashaninka do Rio Amônia

Por instantes fiquei matutando como descrever essa travessia pelos terreiros do povo do Japó, famílias Ashaninka do rio Amônia, Município de Marechal Thaumaturgo, casa do meu amigo Benki Piyãnko, local onde está sendo construído o Centro de Cura Yorenka Tasore (saberes da criação), coordenado pelo nosso anfitrião, e que tem como base os seus conhecimentos ancestrais no uso das medicinas tradicionais e tratamento na “recuperação das energias que as doenças e muitos remédios químicos consomem dos seres humanos” (Benki Piyãnko)

“… As plantas… as nossas medicinas têm espírito e são esses espíritos que vão nos curar… Dar-nos a energia necessária para estabelecer a cura do corpo e do espírito… Mas é preciso acreditar… E concentrar nos curadores que estão em nossas ervas medicinais…

Nossa Ayhauaska… Nosso kamarãpy… Essa é a nossa ciência… Nossa intenção também é trabalhar junto com a ciência dos brancos… Com médicos… Fisioterapeutas… Terapeutas, que estão dispostos a realizar esse intercâmbio com a gente para atender não só nossa comunidade Ashaninka, como também a comunidade do entorno que vêm buscar tratamento com a gente… Esse é o nosso projeto… Construir no Centro de Cura Yorenka Tasore o nosso hospital para atender a quem nos procurar…” (parte de uma palestra onde anotei pontos importantes da fala de Benki Piyãnko).

Foi nesse contexto que fiz uma imersão durante 9 dias nos “rios do meu interior”.

Não é fácil olhar no espelho do interior. Vai além do reflexo que o espelho de “narciso” costuma nos mostrar.  É preciso ter a vontade e a coragem de nos vermos pelo avesso. Vermos realmente quem somos. Ou como estamos com nossas belezuras e nossas feiúras.

Não é fácil também expor esses processos de transformações. Acho por isso o tanto “matutar”.
Matutando no cuidado em expor essa viagem única, de múltiplos sentires e intensidades, em diferentes momentos, e tão pessoais!   Cuidado, pois não tenho a intenção de passar “receitas” nem estou fechada em verdades absolutas. São apenas experiências pessoais, que por força de um mistério criei coragem em compartilhar.

Não vou me ater a contar as maravilhosas mirações que também tive nos terreiros iluminados pela lua cheia, a qual nos acompanhou nessa viagem. Foram oásis refrescantes para minha alma nessa “viagem” de tantos desafios! Guardo na memória para usar nas horas de precisão.

Tento escrever sobre o que encontrei na viagem pelos “rios do meu interior”. Esses rios com várias vertentes. Complexo… Não é fácil!

E o que me move a escrever, expor e compartilhar essa vivência, e o quanto me ajudou os cuidados do Benki, as medicinas tradicionais do seu povo nas reflexões que fiz durante a árdua caminhada, é a possibilidade de somar a outras reflexões, de outras  pessoas e amigos que passaram pela experiência de ter um câncer, e ou  que estão passando por esse processo de transformação, as quais fazem parte do “ser humano”,  e que eu também chamo de processo de cura. Término de um ciclo, necessidade do vazio para novo começo.

Outro motivo que me move a escrever é cumprir a promessa que fiz ao meu amigo Jairo Lima, em escrever sobre essa viagem entre os parentes Ashaninka, ainda durante a produção da viagem, na qual pude contar com a sua força fundamental para o meu deslocamento de voadeira (uma lancha mais veloz), nova opção nesse caminho de água, além do avião, das canoas e batelões tradicionais.

Então vamos lá!

Deslizando pelo rio Juruá, que nessa época do ano oferece navegação tranquila com suas águas ainda fartas nesse final do inverno amazônico, viajamos no “novo” meio de transporte, que nos desloca pelo custo de cento e setenta reais (R$170,00) de Cruzeiro do Sul até Marechal, em 10 horas, em assentos relativamente confortáveis, mas seriamente necessitando de reparos, numa velocidade que às vezes tinha a impressão de que íamos levantar voo chegamos ao destino.  Para mim experiência inteiramente inusitada entre tantas viagens realizadas pelos rios do interior. No mais amplo sentido.

Pela primeira vez, nestes quarenta anos de andanças pelas aldeias desse Aquiry, sempre a trabalho junto aos parentes, me encontrei indo para a floresta com o objetivo quase exclusivo em cuidar da minha saúde, e justamente tendo o meu amigo Benki Piyãnko Ashaninka como meu “médico da floresta” para me ajudar nessa travessia.
Meu desejo mais íntimo era me entregar aos cuidados de conhecimentos ancestrais de seu povo sem nenhuma outra preocupação que não fosse à cura do meu corpo e do meu espírito.

 

Digo quase, pois tive como parceiro de viagem, o cineasta Carlos Eduardo Magalhães, o Txai Maga, meu amigo do coração, com o intuito de estabelecer os primeiros contatos com Benki, para a realização das gravações da série para TV, Sou Moderno, Sou Índio, no qual somos parceiros na autoria, e Benki é, entre outros personagens nacionais, um dos nossos escolhidos.

Em alguns momentos nos debruçávamos sobre o projeto e das possibilidades de gravações. O que foi muito prazeroso para meu espírito ver essa porta aberta, e Benki acolhendo o projeto também com muito carinho.
Prazeroso também foi ver esse parceiro fazendo sua travessia.

Além de ter demonstrado ser um profissional sensível, respeitoso ao pisar esses terreiros, demonstrando estar inteiramente disponível ao mergulho no universo do povo do Japó, observando e vivenciando as situações que iam se apresentando, Txai Maga foi um esteio de força, companhia divertida, leve, gerando bons e alegres momentos, mesmo nas passagens mais difíceis pelas quais passei.

Falar dessa relação ocuparia algumas laudas e tantas. Mas também não é o foco dos meus escritos nesse contexto, muito embora Txai Maga tenha sido um esteio de força, repito, e com o qual, numa cumplicidade de sentimentos trocamos algumas vivências e observações, durante essa travessia tão cheia de encantos e desafios. As guardo na memória com carinho e gratidão.

Creio que essa viagem já estava agendada no astral desde sempre. É como eu estivesse cumprindo uma profecia. De certa forma sim. Eu sabia disso. Conheci Benki ainda menino, quando visitei pela primeira vez a Apywtxa, em 1991. Naquele tempo já havia percebido sua força e o seu ser iluminado da vontade em mergulhar nos conhecimentos ancestrais que seu avô havia lhe iniciado.

O tempo passou e meus reencontros com Benki, embora em sua maioria relacionados a trabalho, foram marcantes nas raras, mas fortes rodas de Kamarãpy* que tive o privilégio de participar com ele. Foram nesses reencontros que pude perceber o crescimento espiritual desse amigo.

Admirava-o, mesmo de longe, e me encantava o jeito de Benki doar ao mundo os seus conhecimentos de cura das mazelas que adoecem o nosso corpo e o espírito. Assim como aplaudia seu desempenho também como um guerreiro Ashaninka em defesa da natureza, do Meio Ambiente como um todo.

O último reencontro com Benki, que se deu em outubro de 2016, em Rio Branco foi determinante para a decisão de ir ao seu encontro quando ele me disse: “É… ta na hora de cuidar da saúde… e vamos cuidar!”.  Entendi dois meses depois o quanto também de profético estava contido naquelas palavras.

 

 

 

Nesse reencontro ficou a minha promessa que em 2017, sem definir datas ainda, mas com a certeza que teria de arranjar um jeito de realizar a viagem até a aldeia de Benki para cuidarmos exclusivamente desse assunto. Minha atenção até então, a saúde que eu buscava estava intimamente ligada a uma renovação de energia, e me fortalecer espiritualmente para viver esse meu novo ciclo de vida terrena que tenho pela frente.

Em dezembro de 2016, dois meses depois do meu reencontro com Benki fui diagnosticada com um câncer no colo do útero. Doença silenciosa que se instalou sem me dar nenhum sinal, e se expande se você displicentemente não a monitora anualmente com exames preventivos já a disposição de todas nós Mulheres. Esse foi o meu caso. Não monitorei. Durante três anos consecutivos, até o diagnóstico eu acreditei que estava imune a esse mal. “Dei mole” como diz meu neto Lucas Coube.

No entanto, tive a sorte de ser bem amparada espiritualmente. Através de um sonho veio à mensagem que algo não estava bem com esse órgão que gera vidas, fonte da energia feminina… Era preciso investigar. Quando recebi o diagnóstico, como um socorro veio de pronto na memória as palavras do Benki: “É… tá na hora de cuidar da saúde… e vamos cuidar”.

No entanto, logo de imediato fui atrás da cura, em Rio Branco, Hospital do Câncer, levada pelos meus esteios de vida, meus filhos amorosos, no mundo das máquinas e dos químicos que te curam o câncer, mas reviram tua alma com diferentes efeitos colaterais, que às vezes me dava à sensação de estar num banzeiro forte, navegando em águas caudalosas em forte repiquete.

O apoio de amigos queridos, dos parentes de longe e de perto, da minha família, especialmente de minha filha Patrícia Coube, que esteve ao meu lado o tempo todo nesse processo foi de fundamental importância para vencer essa etapa dolorosa de diferentes sentires.

Após dois meses e alguns dias de tratamento intenso, finalizada a primeira etapa das sessões de quimioterapia e radioterapia, com resultado “excelente”, segundo avaliação dos médicos, firmei o desejo de ir ao encontro de Benki. Havia chegado à hora. E, mais uma vez,  com o apoio da minha família e de amigos queridos segui nessa viagem, rumo aos terreiros do povo do Japó.

Ao reencontrar Benki me emocionei muito ao relatar o que tinha acontecido comigo após o nosso reencontro em Rio Branco, relembrei com ele a sua profecia em outubro de 2016, e lhe informei como foi o meu tratamento em Rio Branco, a base de muitos químicos e radiações no meu corpo.

Necessitava de limpeza e renovação de energia. Meu corpo e meu espírito pediam isso. Benki, que me escutou atentamente, olhando nos meus olhos, me deu um abraço tão acolhedor e carinhoso, que senti como um bálsamo para minha alma. Logo depois ele me explicou como seria todo o meu tratamento, que teve seu início na primeira noite de minha chegada. O tratamento se deu através de chás de ervas medicinais durante o dia e rituais com Kamrãpy (Ayhauaska) a noite, guiado pelo Benki, durante nove (9) dias.

Não existe pagamentos pelo trabalho de cura no Centro de Cura Yorenka Tasore   . “O pagamento é a sua entrega e sua vontade de ficar curado”, assim me falou Benki quando abordei sobre esse assunto. Na maior parte do tempo, ficamos concentrados no Centro de Cura Yorenka Tasore, ainda em construção a infra-estrutura, afastada poucos minutos de caminhada pela floresta do Centro Cultural Yorenka Ãtame a da casa do Benki.

O Centro Yorenka Tasorre, que em português significa “saberes da criação” tem como objetivo atender a comunidade Ashaninka, outros parentes que chegam: como Kaxinawá, Kuntanawa, Arara, como também os regionais do município, e outros visitantes, como nós. “… O Centro Yorenka Tasore é para curar os seres humanos com as medicinas tradicionais e espirituais, os orientando para o equilíbrio em seu destino de vida” (palavras de Benki Piyãnko)

Uma alimentação diferenciada também fez parte do tratamento. Benki orientou e nos serviu uma alimentação com dieta de sal, açúcar e gordura nas refeições principais, (almoço e jantar): uma sopa a base de fubá de milho e verduras colhidas de sua horta (maxixe, couve e outros verdes), macaxeira, pão de milho, banana cozida, banana assada, preparados por Dona Isa e seu Hilarino, dedicados ajudantes de Benki e pais de Roseli, sua atual esposa. Também era servido chás de várias plantas medicinais, muitas frutas (mamão, várias espécies de banana, açaí, laranja, tangerina, cajarana), produção com muita fartura da Yorenka.

Fiquei encantada e me lembrei muito do Moisés Piyãnko, irmão mais velho de Benki, meu querido amigo que se encontrava na Apywtxa, distante três horas de viagem de onde eu estava. E ele diz: “A gente luta, mas come fruta!”
Durante a noite concentração nos rituais com o Kamarãpy e cantorias de cura que iluminavam minhas mirações mais profundas, mesmo sem entender a língua, mas podia sentir a força e a luz que os cantos traziam primorosamente para mim.

Durante o dia, logo após o café da manhã, servido a base de muitas frutas, pão de milho e chás, Benki como uma verdadeira liderança, fazendo junto, organizava um pequeno grupo de pessoas, para ajudar nas melhorias do Centro que se encontra ainda em fase de construção, como já mencionei.

Para mim o dia transcorria em alguns momentos conversando com os parentes Ashaninka presentes, alguns regionais, pessoas conhecidas de outras viagens, com as crianças, sereias encantadas, Lindas! Outros momentos, na minha rede, lugar onde me sentia bem confortável. Era onde eu me aninhava e me entregava aos diferentes pensamentos e reflexões. Às vezes sentindo vazios… Silêncio… Outras vezes sentimentos profundos inundavam minha alma.

Nessa imersão, além do meu parceiro, Txai Maga e de uma amiga, Simone Bichara que estava de visita a comunidade Ashaninka, a quem agradeço profundamente a atenção e cuidados que dispensou a minha pessoa, tive a companhia de um grupo de quatorze belgas, composto por fisioterapeutas e médicos, coordenado pelo fundador e presidente da House of Indians, Marcelo Nunes Valladão, brasileiro que há onze anos vive na Europa, e principal apoiador do projeto do Benki. Esse grupo também se encontrava realizando uma dieta de cura e atendimentos a comunidade de Marechal Thaumaturgo.

No entanto, não houve muita aproximação com essas pessoas pela barreira da língua. Apenas dois deles entendiam e falavam um pouco o português. Não falavam o espanhol, onde eu me safo um pouco na comunicação, só falavam francês ou inglês, e aí não aconteceu aproximação com conversas longas. Apenas cumprimentos amistosos como, bonjour, bonne nuit, merci...

Encontro bom e de grande emoção foi o encontro com Macari Sereno Inu Bakê, filho de uma grande amiga Huni Kui do Breu, Irani Sereno. Macari também estava chegando ali em busca de cura da sua saúde e Benki o acolheu para ajudá-lo. Travessia forte desse Txaizinho que me emocionou muito com sua história, sua inteligência e sua lúcida loucura.

Eu, pessoalmente me encontrava, na verdade, muito voltada para a imersão no meu interior. Mas não tinha como não dar atenção a esses encontros prazerosos que atravessavam o meu caminho.
Creio que por estar sob o efeito dos chás e do Kamarãpy ingeridos todos os dias, embora em doses pequenas, sentia uma necessidade muito forte de estar só, o que não foi muito fácil. O movimento de visitantes do entorno em busca de atendimento, ou simplesmente por curiosidade era grande.

Muitas situações da minha vida vinham como flashs... E eu entrei nesse “cinema de caboco” , como chamam meus parentes Huni Kui, que me levou ao balanço da minha vida. Os balanços mais fortes aconteciam quase sempre durante os rituais de Kamarãpy com uma grande roda em baixo de uma sumaúma majestosa, iluminada pela lua cheia. Nesses momentos após compartilhar alguns instantes daquela energia coletiva, eu me retirava e me recolhia a minha rede. A necessidade de estar só era muito forte. Talvez pela minha incapacidade de concentração na energia do Kamarãbi em ambientes coletivos.

 

 

Esses balanços vinham também durante o dia, eram como ondas, vinham, mas passavam com as distrações do cotidiano. Quando eu tinha a oportunidade de ficar a sós, aí eu me entregava ao trabalho da “viagem” pelos rios do meu interior. Benki, embora nem sempre do meu lado, mas eu podia sentir espiritualmente sua presença cuidadora. Ajudou-me a aprofundar esse movimento, o qual já vinha acontecendo timidamente durante todo o processo do tratamento do câncer, ainda através das máquinas e químicos.

Foi tantos pensares e repensares! Lembranças tristes e outras alegres. Momentos de dor e outros prazerosos. Mas também de silêncio interior, e nesses momentos era como eu estivesse num vácuo interminável… Mas, eu não sentia medo e nem desconforto. Nesse vácuo tudo era transparente… claro… E uma forte luz me conduzia a um enorme espaço vazio… O nada. Em silêncio ouvia cantos que vinham de longe e de perto… Cantavam versos que me incentivavam a plantar novas sementes naquele espaço vazio… Davam-me força… Novas energias.

Assim fui atravessando esses terreiros do Povo do Japó. Realizando uma faxina interior. Uma limpeza do corpo e do espírito. Tentando fazer “Novo roçado”.

Mas, o que seria a vida sem essas faxinas? O redesenho no caminho? Apreciar e refletir nossos vôos…
Foram encontros desafiantes que tive comigo mesmo nessa travessia. Mas acho que seria muito monótona a vida sem desafios! Minha natureza que no movimento encontra o equilíbrio não suportaria. Não seria eu.

Nessa imersão vieram, de forma mais clara, as causas das minhas doenças. A causa do câncer, por exemplo. E chegar a luz das causas é fator fundamental para trabalhar a cura. Creio que grande parte de nós entende isso. Difícil é chegar às vezes as causas. Sobre tudo por que requer também vermos a nossa responsabilidade inclusa.

Mas, nesse processo consegui ver o quanto eu era responsável pelas minhas mazelas. O quanto é fundamental para a cura a gente entender a relação simbiótica que estabelecemos ao longo da vida com determinados padrões de comportamento, e que acarretam, na maioria das vezes, o desenvolvimento dos organismos envolvidos, numa inter-relação de tal forma íntima entre esses organismos, que nos faz pensar, equivocadamente, que não podemos sobreviver de forma diferente.

E aí ficamos nos repetindo… Repetindo… Os “vôos” não acontecem e voltamos para nossas “gaiolas”, porto seguro (?).  Às vezes até temos a intenção de mudar alguma coisa. Mas na mesma energia da repetição de padrões caducos. Terreno propício para essas células, chamadas malignas se instalarem e se reproduzirem. Alimento essencial para o seu desenvolvimento, pois tudo que elas sabem fazer no nosso organismo é se reproduzirem… Se repetirem eternamente sem segundas intenções.

Cheguei à conclusão, que o câncer não é tão maligno assim. O mal está na ignorância sobre o nosso corpo… Sobre nosso espírito… Sobre as escolhas do que nos alimenta e nos sustenta numa vida saudável, física e espiritualmente falando.

Na maioria das vezes assumimos o papel de vítimas do mal. E reclamamos… Reclamamos com o dedo indicador voltado para fora. Sempre para o outro, fora de nós. E nos angustiamos, o que eu pessoalmente acho um bom sinal quando chegamos nesse estágio. Sinal de que estou além daquilo que se apresenta bem maior, e que não cabe dentro de mim.

Assim entendo a sensação de angústia. De algo que parece me sufocar. Mas sinto como um sinal de alerta de que algo precisa mudar. Que cresci. Expandi. Que preciso de universos maiores. De vazios.

Mas, geralmente, a maioria das pessoas busca nos medicamentos (geralmente calmantes de farmácia) a solução de suas angústias. E aí retornam a condição anterior, no recolhimento, em sua gaiolinha segura (?), impedindo a expansão da inteligência, a evolução espiritual, e a vivência em sintonia com energias que vibram na positividade da existência, de sermos seres felizes.

E raramente, muito raramente tomamos a decisão de pensar o que fazemos com o que fazem, ou que achamos que fazem com a nossa pessoa… Com o nosso ser… Com a nossa vida.

Essa travessia nos terreiros do Povo do Japó, aos cuidados do meu amigo Benki Piyãko me proporcionou essa “viagem pelos rios do meu interior”  “para o equilíbrio em seu destino de vida” como diz meu amigo Benki.
Agradeço a sorte dessa travessia, com tudo que é de seu! Foi uma travessia também feliz e que me deu muitas alegrias e ensinamentos.

Estou feliz!

“Irooperori aseiki kameta” (O melhor da sorte é estar feliz!)*
Finalizo esses escritos com um texto de Rubem Alves, que minha amiga Nieta Monte, numa sincronicidade incrível acabou de me enviar.

“Somos assim. Sonhamos o voo, mas tememos a altura. Para voar é preciso ter coragem para enfrentar o terror do vazio. Porque é só no vazio que o vôo acontece. O vazio é o espaço da liberdade, a ausência de certezas. Mas é isso que tememos: o não ter certezas. Por isso trocamos o vôo por gaiolas. Às gaiolas são o lugar onde as certezas moram…” (Rubem Alves)

ANOTE AÍ:

Dedê Maia é indigenista acreana. Sua trajetória de vida mescla-se com a história do indigenismo acreano. Junto com  grandes indigenistas como os Txais Terri e Antonio Macêdo ajudou a construir o que hoje chamamos  “a história do Acre Indígena” . Mesmo desenvolvendo vários projetos diferentes em sua trajetória, sempre se destacou como incentivadora e apoiadora do processo de fortalecimento da cultura tradicional em sua expressão artística e material, sendo autora, coautora ou participante de um-sem número de projetos voltados à esta frente indigenista.

 

 

Todas as imagens desta matéria foram  selecionadas por nosso parceiro Jairo Lima (www.cronicasindigenistas.com.br) e  são de autoria do cineasta, Carlos Eduardo Magalhães (Carlos Maga), que acompanhou Dedê Maia nessa viagem de cura e descobrimento.

*Tradução: Prof Isaac Toto Ashaninka

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