Por Ailton Krenak

Talvez estejamos muito condicionados a uma ideia de ser humano e a um tipo de existência. Se a gente desestabilizar esse padrão, talvez a nossa mente sofra uma espécie de ruptura, como se caíssemos num abismo. Quem disse que a gente não pode cair? Quem disse que a gente já não caiu?

Houve um tempo em que o planeta que chamamos Terra juntava os continentes numa grade Pangeia. Se olhássemos lá de cima do céu, tiraríamos uma fotografia completamente diferente do globo.

Quem sabe se, quando o astronauta Iuri Gagarin disse “a Terra é azul”, ele não fez um retrato ideal daquele momento para essa humanidade que pensamos ser. Ele olhou com o nosso olho, viu o que a gente queria ver.

Existe muita coisa que se aproxima mais daquilo que pretendemos ver do que podia constatar se juntássemos as duas imagens: a que você pensa e a que você tem. Se já houve outras configurações da Terra, inclusive sem a gente aqui, por que é que nos apegamos tanto a esse retrato com a gente aqui?

O Antropoceno tem um sentido incisivo sobre a nossa existência, a nossa experiência comum, a ideia do que é humano. O nosso apego a uma ideia fixa de paisagem da Terra e de humanidade é a marca mais profunda do Antropoceno.

Essa configuração mental é mais do que uma ideologia, é uma construção do imaginário coletivo – várias gerações se sucedendo, camadas de desejos, projeções, visões, períodos inteiros de ciclos de vida dos nossos ancestrais que herdamos e fomos burilando, retocando, até chegar à imagem com a qual nos sentimos identificados.

É como se tivéssemos feito um photoshop na memória coletiva planetária, entre a tripulação e a nave, onde a nave se cola ao organismo da tripulação e fica parecendo uma coisa indissociável.  É como parar numa memória confortável, agradável, de nós próprios, por exemplo, mamando no colo de nossa mãe: uma mãe farta, próspera, amorosa, carinhosa, nos alimentando forever.

Um dia ela se move e tira o peito da nossa boca. Aí, a gente dá uma babada, olha em volta, reclama porque não está vendo o seio da mãe, não está vendo aquele organismo materno alimentando toda a nossa gana de vida, e a gente começa a estremecer, a achar que aquilo não é mesmo o melhor dos mundos, que o mundo está acabando e a gente vai cair em algum lugar.

Mas a gente não vai cair em lugar nenhum, de repente o que a mãe fez foi dar uma viradinha para pegar um sol, mas como estávamos tão acostumados, a gente só quer mamar.

Ailton Krenak – Escritor, Em “Ideias para adiar o fim do mundo”, Companhia das Letras, 2019. 

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