“Estou sonhando muito mais. Vêm outras doenças mais fortes que vão continuar matando”, alertou o xamã e líder Yanomami ao avaliar a campanha #ForaGarimpoForaCovid

Por Evilene Paixão

Davi Kopenawa Yanomami é reconhecido mundialmente como um grande guerreiro na luta pela defesa dos direitos dos povos da Terra Indígena Yanomami, a maior do Brasil, localizada nos estados de Roraima e Amazonas, na fronteira com a Venezuela.

Presidente da Hutukara Associação Yanomami, co-autor do livro “A Queda do Céu – palavras de um xamã yanomami” (Companhia das Letras, 2015), com o antropólogo francês Bruce Albert e, mais recentemente, nomeado membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências (ABC), Davi fez em Boa Vista (RR) uma avaliação da campanha #ForaGarimpoForaCovid antes de voltar para sua comunidade, a aldeia Watorikɨ.

O xamã comentou em entrevista ao Instituto Socioambiental (ISA) a jornada de mobilizações pela desintrusão da Terra Yanomami, hoje invadida por mais de 20 mil garimpeiros, e analisou os efeitos do modelo de sociedade imposto pelo “povo da mercadoria” e que, na visão dos indígenas, acabou provocando a pandemia de Covid-19. “Não só eu, mas as lideranças indígenas que lutam no Brasil, falamos: ‘olha, cuida do nosso planeta. O planeta não pode ser destruído’, mas não escutaram. Esse 2020 aconteceu assim por erro do homem branco”, lamentou.

A crítica à exploração predatória da Terra conduz o filme “A Mensagem do Xamã”, uma das cinco produções audiovisuais da campanha. Feito a partir do pensamento xamânico de “A Queda do Céu”, o vídeo traz imagens de arquivo de Davi e alerta que, sozinhos, os povos indígenas não vão conseguir impedir a catástrofe que se avizinha. Para Davi, a sensibilização promovida pela campanha trouxe urgência ao tema do garimpo e conseguiu unir povos da floresta e das cidades no combate à destruição da “Terra Mãe”: “o povo da cidade, não indígena, que não gosta de destruir, já está nos ajudando, nos dando força. Estamos juntos, lutando”.

Leia a entrevista completa:

2020 foi um ano marcado pela pandemia de Covid-19 e pelo avanço do garimpo ilegal em Terras indígenas. Em resposta a essas ameaças, foi lançada em junho a campanha #ForaGarimpoForaCovid, organizada por lideranças Yanomami e Ye’kwana. Qual é a sua avaliação da campanha e os impactos dela?

A campanha foi muito boa. Pensamos muito bem na preparação, para expressar a verdade e fazer com que a nossa flecha chegasse onde está errado. Encontramos uma palavra que dá choque, para fazer sentir profundo no coração. Falamos: “Fora Garimpo!”. É esse garimpo que está nos deixando revoltados, é uma doença que está dentro do nosso território Yanomami. Durante a campanha conseguimos, junto com a sociedade civil, explicar o que significa “Fora Garimpo”.



O garimpo não é bom para os povos indígenas do Brasil, e junto com nossos irmãos, estamos lutando para falar uma palavra só para as autoridades, que estão brincando com a nossa vida: “Não queremos o garimpo!”. Não queremos que continuem invadindo as terras dos povos Yanomami e Ye’kwana, assim como outras terras aqui em Roraima, como dos nossos irmãos Macuxi, Wapichana, Ingaricó, Taurepang e os povos indígenas em geral. Nós representamos os povos indígenas no Congresso Nacional. Nós, ao lado dos pajés da aldeia, pensamos em mostrar a nossa coragem e a nossa força para as autoridades nos respeitarem.

A campanha coletou mais de 439 mil assinaturas de apoio. O documento foi entregue em 6 de dezembro aos deputados do Congresso Nacional, junto com o relatório “Xawara: rastros da Covid-19 na Terra Indígena Yanomami e a omissão do Estado”. Você acredita que as autoridades vão ouvir os povos indígenas?

Sim, com certeza eles vão escutar. Eles vão me escutar! Aquele que mora na floresta, que vive próximo à natureza, vai entender. Aquele que gosta de cuidar do seu sítio, da sua plantação, do mato bonito, vai entender. O povo da cidade, não indígena, que não gosta de destruir, já está nos ajudando, nos dando força. Estamos juntos, lutando. Isso foi muito bom!

Naquele mesmo dia, os xapiri – os espíritos da floresta -, ocuparam a fachada do Congresso no ato final da campanha. Como você avalia essa intervenção?

Cobramos o Congresso Nacional, que tem em suas mãos o poder para destruir ou para ajudar. Mostramos que estamos fazendo um trabalho correto, transparente. Estamos com as lideranças tradicionais, que nem falam português, mas entendem todos os problemas da terra indígena. Eu, assim como Dário [Kopenawa] e Maurício [Ye’kwana] e muitos parceiros, junto com os pajés, articulamos essa luta.

Os pajés sabem quem são os chefes do Congresso Nacional. Os pajés estão revoltados, ninguém aqui está brincando. Queremos chamar a atenção das autoridades que são contra os povos indígenas, natureza e a Terra Mãe. Aquela autoridade que está lá dentro do Congresso, sentada no seu ar condicionado, pensando só nele mesmo. Por isso, nos reunimos com lideranças tradicionais, junto com os pajés, para tomar conta do Congresso Nacional, [onde ficam os líderes] do povo da mercadoria que está destruindo o nosso planeta. Queremos que eles olhem para nós, povos indígenas. Olhem para a cara da Amazônia, para a força dos pajés. Lutamos juntos, com o apoio do povo da cidade — jovens, mulheres, homens e políticos aliados. Os inimigos precisam nos escutar, pensar e respeitar. É isso que estamos mostrando: nossa força junto com a nossa Terra Mãe.

Qual mensagem a sociedade indígena e a não indígena devem receber em 2020?

Realmente, esse ano foi muito difícil. Mas eu, Davi, já havia falado antes, que tudo isso ia acontecer. Não só eu, mas as lideranças indígenas que lutam no Brasil falamos: “olha, cuida do nosso planeta. O planeta não pode ser destruído”, mas não escutaram. No subsolo, o homem gosta de ir atrás de minério, de ouro, de diamantes, que são pedras venenosas. Não pode tocar, não pode tirar. Esse 2020 aconteceu assim por erro do homem branco. Quem foi que mexeu [na terra]? Foi grande empresário que abriu grande buraco embaixo da terra, onde o grande espírito da xawara estava morando. A xawara estava debaixo da terra para não adoecer o planeta.

Eu não queria que isso tivesse acontecido. Esse momento está muito difícil. Não tem ninguém para controlar, não tem remédio para curar. [Como xamã] estou sonhando muito mais. Virão outras doenças mais fortes que vão continuar matando milhares de pessoas no planeta. Essa é a minha mensagem, que falo de novo para o homem não índio, que só pensa nele, mas não pensa no todo, não pensa na Terra Mãe, que não acredita na fala dos povos indígenas, somente quando fica doente. Ele vai lembrar da minha palavra. Eu fiquei muito revoltado porque os povos indígenas foram contaminados com essa xawara, com essa wakixi (fumaça), que é uma doença que entra no pulmão e mata. Povo da cidade: pense e pare. Não mexam mais com a nossa Terra Mãe.

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Davi voltou para a aldeia antes da notícia de sua nomeação como membro colaborador da Academia Brasileira de Ciências (ABC). Segundo a ABC, são membros colaboradores personalidades que tenham prestado relevantes serviços à academia ao desenvolvimento científico nacional. Para Dário Kopenawa Yanomami, a nomeação do pai foi uma honra e reconhecimento dos não indígenas da sabedoria da floresta, da cosmologia do povo Yanomami e Ye’kwana. “Estou muito feliz e orgulhoso porque é o único indígena Yanomami, uma liderança tradicional, a fazer parte da Academia Brasileira de Ciências. Somos sabedoria, somos educadores da nossa Terra Mãe”, disse.

Fonte: ISA

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