Os seres não nascem prontos

Tata rovere oñembopere mitã mandu’ápe. Tata rendague oho chendive. Oje’ove’ÿva tata rovasa, ohapy vaekue che ñe’ë. A fagulha do fogo deixou seus vestígios na memória da criança.
E a marca do fogo seguiu-me pela vida.
O que não se apaga, benção do fogo, queimou então minha palavra.
(Susy Delgado – Tataypýpe)

A Amazônia não é o pulmão do mundo.
É o jardim do mundo.
Um dia levaram perfumes, temperos e seivas.
Em outro levaram as sementes.
Dia desses levaram brilhantes.
Depois, ou antes animais e aves coloridos.
Não satisfeitos, agora levam as árvores inteiras,
só desgalham para aparecer verde só o selo.
Só não levam os jardineiros, que sem temperos,
sem árvores e sem ouro,
empatam nas periferias das cidades e da floresta,
insistindo e replantando as flores.
(Jones Dari Göettert – Lugares, Jeitos e Sujeitos)

A todas e todos
que se erguem contra a opressão de um Estado
injusto e decadente.
Aos povos ancestrais que insistem,
semeando liberdades nas primaveras do
mundo.
Às gentes rio que sonham e lutam.
Aos que abrem às nossas tragédias os caminhos
da aurora.

Ofereço.

Para ti
Contam os antigos
os que inventaram o tempo
que os seres não nascem prontos
vão se forjando pouco a pouco
e também muito a muito
Menos os pajés – sopros de Nhanderu Ru
Não nasci pronto
Vento de lírio névoa
nasci como nascem as gentes comuns
que nomadizam nos descaminhos do tempo
sem deixar rastros de suas passagens
O vento o sabe
as faíscas que crepitam da fogueira o sabem
os líquidos cristais descidos o sabem
o segredo no canto do pássaro
cada folha e fruto
cada espinho e cada pedra de meu caminho o
sabem
Percorri universos para encontrar em ti
a melhor parte de mim
e porque teus olhos brilham
reaqueço a chama ancestral
o sopro primeiro
Sem tua língua de águas
sou barranco que desbarranca
balseiro descendo o rio.
Linda

Daniel Iberê Guarani M’byá é indígena, filósofo, esposo e pai. Professor na empresa Universidade Federal do Acre – Ufac e UNIMETA Centro Universitário, É Doutor em Antropologia Social pela UnB – Universidade de Brasília. É um colaborador da ALABEG/RIDE – Academia de Letras e Artes do Nordeste Goiano/Rede Integrada de Desenvolvimento do Entorno-DF e da xapuri.info.

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