Facebook retira do ar textos de roteirista que satiriza Bolsonaro

Por:  Cecília Bacha/Jornalistas Livres

O escritor, cineasta e roteirista José Roberto Torero teve hoje (29) o terceiro texto excluído da sua página pessoal na rede do Facebook. As crônicas fazem parte da série @DiariodoBolso publicada com frequência pelo autor e fazem uma sátira do dia-a-dia do presidente Bolsonaro.

PARA BANIR AS PUBLICAÇÕES, O FACEBOOK ALEGA VIOLAÇÃO DOS “PADRÕES DA COMUNIDADE”. TORERO CONSIDERA A JUSTIFICATIVA BUROCRÁTICA. “OS TRÊS (TEXTOS) TÊM A PALAVRA “VIADO”. PODE SER A DESCULPA DELES. MAS O PERSONAGEM É FRANCAMENTE HOMOFÓBICO. A PALAVRA FAZ PARTE DO VOCABULÁRIO DELE”, EXPLICA. SEGUNDO O ESCRITOR NA TERCEIRA EXCLUSÃO NÃO LHE FOI DADA A CHANCE ARGUMENTAR EM DEFESA DA POSTAGEM.

Segundo especialistas em redes sociais ouvidos pelos Jornalistas Livres, o Facebook só apaga conteúdos após ser provocado por alguma denuncia de usuários. Torero diz que os ataques de fãs do Bolsonaro já eram esperados, mas que se surpreendeu que o Facebook tenha aceitado tantas denuncias.

José Roberto Torero é autor de livros, como “O Chalaça”, vencedor do Prêmio Jabuti de 1995. Além disso, escreveu roteiros para cinema e tevê, como em Retrato Falado para Rede Globo do Brasil. Também foi colunista de Esportes da Folha de S. Paulo entre 1998 e 2012.

Para garantir a livre circulação do  “Diário do Bolso” de Torero, os Jornalistas Livres passarão a partir de hoje publicar regularmente as crônicas no site da rede.

LEIA AQUI OS TEXTOS APAGADOS PELO FACEBOOK

Texto 1

Caro Diário, não morri.

A operação foi um sucesso. Meu intestino já está costurado. Só espero que a emenda não estoure, senão vou ficar que nem Brumadinho, rarrarrá!

Pô, esse desastre vai ser ótimo para o pessoal me esquecer um pouco. Nada como um mar de lama para encobrir outro. E ficar no hospital também vai ajudar. Por mim eu passava quatro anos aqui, sem dar entrevista nem fazer reunião. Mas vão ser só uns dez dias. Que pena…

O chato é que os militares me encheram o saco e eu tive que passar o cargo para o Mourão. Meu medo é que ele pegue gosto pela coisa.

Modéstia à parte, achei que foi uma boa sacada pedir ajuda do Benjamim Nataniel. Mas já tem pentelho dizendo que eu não quis médico cubano mas aceitei soldado israelense. É difícil agradar os esquerdopatas.

Eles estão escrevendo os maiores absurdos na internet. Dizem que eu devia prender o presidente da Vale e que eu devia reestatizar a empresa. Uns loucos! Todo mundo sabe que a Vale nem paga multa. Só no Espírito Santo são umas vinte. E como é que eu vou ser contra mineradora? A Flapa, por exemplo, praticamente obrigou que seus empregados votassem em mim, porque colocou no seu mural que se eu não fosse eleito a empresa fechava. São gente boa, pô.

A saída vai ser pegar um pato qualquer, tipo o auditor que disse que estava tudo ok. Ou então aquele secretário do meio ambiente de Minas Gerais, o tal do Germano Vieira. Se bem que ele deve ser amigo das mineradoras, porque entrou na gestão do petê e continuou com o Zema.

Bom, o que a gente tem que fazer é mostrar pros cidadões (eu falava cidadãos, mas o cara do Enem me explicou o certo) que estamos fazendo uma “colheita de provas” (essa foi o Moro que me ensinou) para apurar o que aconteceu com a bagagem de dejeitos.

Aí, quem sabe?, os vermelhos da internet se acalmam um pouco. Se bem que eles não tem dó de ninguém. Vi gente postando que a minha cirurgia era de alto risco porque separar gêmeos siameses é sempre perigoso.

Eu devia ter um saquinho de plástico só para esses chatos encherem. Em vez de bolsa de colostomia ia ser bolsa de comunistomia, rarrarrá!

Bom, Diário, agora eu vou ler um pouquinho. Eu não gosto muito de livro, que ler é coisa de viado, mas este parece bom. O nome é “Memórias de um sargento de milícias”. Deve ter um monte de tiroteio.

Até amanhã.

Texto 2

Diário, que dia…

Esse negócio de discurso não é comigo. O meu foi escrito durante o voo. Eu tinha 45 minutos para falar. Mas meu estilo é mais tuíter. Então rabisquei um negócio que dizia assim: “In my govern go to be all diferent, is ok?”. Bem resumidinho e já estava até em inglês.

Mas o pessoal que estava no avião disse que era curto demais. Aí cada um deu uma mexida. Quando o Moro mexeu pôs o nome dele, quando o Ernesto mexeu pôs o nome dele e quando o Paulo Guedes mexeu pôs o nome dele. Ficou um negócio meio puxa-saco, mas pelo menos ficou mais comprido. Deu quase sete minutos. Meu recorde!

Na internet falaram que eu parecia um robô, sem nenhuma emoção. Mas emoção é coisa de viado.

Depois almocei num restaurante bem fubeca. Acho que pega bem se fazer de pobre. Mas por pouco não tomei um suco de laranja. Sorte que lembrei que o pessoal podia fazer piada e troquei por um refrigerante.

Falando em laranja, estão dizendo que vai ter um boneco “Inflávio” na Paulista. E já estão chamando a gente de Família Embolsonaro, Bolsotralhas e outras porcarias. A maldade das pessoas não tem limite.

Olha, Diário, acho que até que eu não me saí mal na minha primeira viagem internacional. Opa! Primeira, não, que eu levei os garotos pra Disney. E lá foi um inferno, porque os três corriam o tempo todo brincando de milícia, polícia e ladrão.

Falando em milícia, parece que o negócio. Agora vai feder. E esse ano nem no carnaval vai dar para esquecer do assunto, porque tem aquele samba da Mangueira que fala da Marielle. Tem gente que nem morta morre!

No ano que vem tem que acabar com isso aí. Em vez de escolas de samba, as igrejas evangélicas é que deviam fazer desfiles. Tudo sobre a Bíblia. Gostei dessa ideia! Vou ligar para o Crivella!

Ou não.

Porque estou começando a desconfiar que no ano que vem posso não ser mais presidente. Vi agora a edição de ontem do Jornal Nacional. Os caras detonaram o Flávio e logo depois fizeram uma matéria toda simpaticona sobre o Mourão. Como se ele fosse um estadista.

Que isso tá com cara de golpe, tá.

A maldade das pessoas não tem limite.

Texto 3 

Porra, Diário, eu vou ter que começar a te chamar de Madrugário, porque eu não escrevo mais de dia, só escrevo de madrugada. Que insônia do cacete!

Também, como é que dá para dormir com um barulho desses? A Janaína falou contra o foro privilegiado, a Regina Duarte quer saber quem é quem em Brasília e até o Olavo xingou o PSL (que já está sendo chamado de Partido do Suco de Laranja).

Mas o pior é que o Mourão já está mostrando as garras. Ele falou na cara dura contra o Ernesto Araújo, está se encontrando com uns líderes estrangeiros e ainda recebeu elogio de índio. Será que o Mourão vai ser o meu Temer? Bem que me disseram que general não gosta de ser mandado por capitão. Aquele dia que eu cheguei no gabinete e ele estava sentado na minha cadeira foi bem estranho. Na hora até acreditei quando o Mourão disse que só estava deixando a cadeira quentinha por causa da minha hemorroida, mas não sei não…

O que eu sei é que está foda. Liberei as armas e eu que estou no meio do tiroteio!

Daqui a pouco vão começar a perguntar com quem que o Flávio aprendeu a fazer a Rachadinha. E vão dizer que foi comigo. E se começam a fuçar as minhas contas, a do Eduardo e a do Carlinhos?

Mas quem é que não faz essas tretas? O Onyx não pegou a verba de gabinete com aquelas notas frias? Eu não embolsei os 33 mil da verba de mudança e continuei em Brasília? Isso prova que a gente é honesto, pô. Neste bolso não entra dinheiro da Petrobrás!

O negócio é saber o que eu faço agora. Mando o garoto manter a história até o fim? Mas o que a gente pode inventar? Que ele vendeu uma frota de Brasília 75 e todas custavam dois mil reais?

Ou será que eu tenho que sacrificar o meu próprio filho, feito o Abraão (ou foi o Moisés?)?

Olha, Diário, não é fácil ser pai. Um foi pego na Rachadinha, outro tem pinto pequeno e chamam o terceiro de viado.

Eu devia ter feito aquela vasectomia.

@DiariodoBolso

diariodobolso

ANOTE AÍ

Fonte: Jornalistas Livres

Nota da autora: José Roberto Torero escreve periodicamente o “Diário do Bolso”

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