Há 22 anos, o líder indígena Galdino Pataxó era queimado vivo em Brasília

Por: midia1508

Há 22 anos, um crime chocava o país e o mundo. Na madrugada de 20 de abril de 1997, cinco jovens de classe média , Antônio Novely Vilanova, Max Rogério Alves, Tomás Oliveira de Almeida, Eron Chaves Oliveira e Gutemberg Nader Almeida Junior atearam fogo no cacique do povo Pataxó Galdino Jesus dos Santos, que dormia em um ponto de ônibus em Brasília. O indígena, então com 44 anos, teve 95% do corpo queimado e morreu dois dias após o atentado.

Mais de duas décadas após o crime, a família de Galdino está bastante reduzida. A mãe morreu de desgosto, há cerca de 10 anos. Os três filhos cresceram sem pai, e enfrentaram muitas dificuldades. Por sua vez, os assassinos do indígena estão livres.  Cumpriram suas penas (inclusive com direito a várias regalias) e já não devem nada à Justiça. Dos cinco, quatro são servidores públicos e um integra a equipe de um importante escritório advocatício da cidade.

Galdino havia chegado na capital ainda no Dia do Índio,  um sábado, juntamente com outros oito indígenas do seu povo,  oriundo do Sul da Bahia. Era porta-voz da luta pela demarcação das terras Pataxó, uma guerra que em 1986 já tinha matado um de seus 11 irmãos. Após um longo dia de protestos e reuniões com representantes da Fundação Nacional do Índio (FUNAI), o cacique acabou se perdendo no caminho de volta à pensão em que estava hospedado.

Quando finalmente conseguiu chegar ao local, foi impedido de entrar pela dona do estabelecimento:  o acesso só era possível até as 22h. O indígena, então, voltou ao ponto de ônibus que viu pelo caminho e decidiu esperar o dia amanhecer ali.

Por volta das 5h30 da manhã de domingo,  os cinco amigos cruzaram o caminho do líder Pataxó. Na volta de uma festa, avistaram o que disseram (no processo) pensar ser um mendigo naquele ponto de ônibus e tiveram a cruel ideia de atear fogo ao corpo inerte, por diversão. Os cinco foram até um posto de gasolina próximo, compraram álcool e fósforos, e retornaram ao ponto. Encharcaram o corpo de álcool, acenderam o fósforo e lançaram sobre “o mendigo”. Entraram no carro e deram a partida enquanto Galdino se levantava desesperado, gritando de dor.

A cena foi presenciada por um chaveiro que madrugara para mais um dia de trabalho. O homem anotou a placa do carro em fuga e acionou a polícia, o que possibilitou a identificação e a prisão dos criminosos.

O cacique foi transportado debilitado e, após laudo médico, constatou-se que ele teve praticamente  o corpo inteiro consumido por queimaduras de 2º e 3º graus. Depois de um dia de luta, o índio não resistiu e morreu no Hospital Regional da Asa Norte (Hran). Na segunda-feira seguinte, 22 de abril de 1997, Galdino faleceu por insuficiência renal, provocada pela desidratação de seu corpo. O mau funcionamento dos rins afetou  os demais órgãos.
O sepultamento do Pataxó ocorreu na cidade baiana de Pau-Brasil. No peito, o cacique carregou uma cruz vermelha, com a qual foi enterrado. Mesmo na hora do adeus, os parentes não deixaram a revolta de lado: “Eles nos chamam de selvagens, mas são uns verdadeiros animais”,  desabafou indignado ao jornal Correio Brasiliense seu sobrinho Wilson de Jesus, naquele ano de 1997.

BrasÌlia. 19/04/2001. Fotografia do Ìndio Galdino Jesus dos Santos é vista durante protesto contra a impunidade, realizado por indÌgenas na Esplanada dos Ministérios  durante o Dia do Índio.  Galdino Jesus dos Santos, da etnia Pataxó, morreu ao ser queimado vivo por cinco jovens enquanto dormia num ponto de ônibus, após participar de manifestações pelo Dia do Índio, em 20 de abril de 1997.  Crédito: Joedson Alves/Estadão.

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3 Responses

  1. marian km

    gostaria de saber qual e o problema em divulgar o nome do escritorio advogaticio onde esse assasino trabalha? temos que divulgar o nome desse assasino.

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  2. Maria

    Achei estranho que quatro desses criminosos hoje sejam servidores públicos, pois que eu saiba para que uma pessoa possa ser aceita durante o processo seletivo é a apresentação de um documento chamado certidão negativa de antecedencia criminal.

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    • Eduardo Pereira

      Segundo os tribunais, eles já cumpriram suas penas, Maria, portanto, vida normal.

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Comentários

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