Hora de parar de vender o amanhã

Parei de andar mundo afora, suspendi compromissos. Estou com minha família na aldeia Krenak, no Médio Rio Doce. Já estávamos aqui de luto com o nosso Rio Doce. Não imaginava que o mundo faria esse luto conosco.

Por Ailton Krenak

 

Está todo mundo parado. Todo mundo.

 

Quando os engenheiros me disseram que iam usar a engenharia, a tecnologia para recuperar o Rio Doce, perguntaram a minha opinião. Eu disse: minha sugestão é impossível de colocar em prática, pois teríamos de parar todas as atividades humanas que incidem sobre o corpo do rio, a 100 quilômetros da margem esquerda e da margem direita até que o Rio Doce volte a ter vida. O engenheiro me disse: “Mas isso é impossível, o mundo não pode parar”.

 

E o mundo parou. Desde muito tempo, a minha comunhão com tudo o que chamam de natureza é experiência que não vejo muita gente que vive na cidade valorizando. Já vi pessoas me ridicularizando – ele conversa com árvore, abraça árvore, conversa com o rio, contempla a montanha – como se isso fosse uma espécie de alienação.

 

Essa é minha experiência de vida. Se é alienação, sou alienado no sentido comum do que pensam as pessoas. Há muito tempo não programo atividades para depois. Temos de parar de ser convencidos. Não sabemos se estaremos vivos amanhã. Temos de parar de vender o amanhã.

 

Ailton Krenak – Líder Indígena. Pensador. Filósofo. Em “Ideias para adiar o fim do mundo”. Companhia das Letras. 2019.


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