Sobre a arte indígena contemporânea disse o CABOCO

Fala do artista Gustavo Caboco Wapixana em LIVE para o projeto webnário da UFPR exibida no dia 29/04/2020. 

Jaider Esbell 

Num primeiro olhar, surgem questões básicas: de onde vem? quem é? quem faz? o que faz o artista indígena contemporâneo? os artistas, as artistas? por quê? o que difere? por onde anda a arte indígena contemporânea? é arte? é arte indígena? é arte indígena contemporânea? é arte contemporânea indígena? Onde é o próximo encontro?

O próximo eu não sei, provavelmente em mais uma live, nestes tempos de pandemia. O que temos pra hoje são conversas com o artista wapichana, Gustavo caboco, neste encontro proposto pela agência escola, da UFPR, no “Movimento Conexão: Culturas Compartilhadas”.

Para começo de conversa, precisamos pontuar que esta ideia da AIC, este conceito-sistema, é proposto e nomeado pelo artista do povo Macuxi, Jaider Esbell. Pelo menos é de onde ouvi a primeira vez (me corrijam pesquisadores, por favor!). Depois, ouvi a boca de muitos outros, o Baniwa, a Terena, a Tukano, a Pataxó, o Huni Kuin, e minha boca começou a falar também, arte-indígena-contemporânea-arte-indígena contemporânea-arte-indígena-contemporânea.

A boca já falava. Entendo esta ideia como um lugar, um ponto de encontro entre nós, parentes de vários povos, a ciência acadêmica, os museus, o sistema da arte contemporânea, os centros culturais, galerias de arte indígena, museus nativos, a literatura, o cinema, a roça, a casa da  tia, da vovó, e tantos outros campos. 

Mais que isso, um ponto de articulação e caminhos da autonomia: a nossa sobrevivência. Na minha visão, crio a arte-ponte Paraná-Roraima que conecta nossas histórias, cruzamentos, deslocamentos. Roraima-Roraimã. Se em dado momento (1975), inauguraram a ponte dos Macuxi, que atravessa o rio Branco e liga a cidade de Boa Vista com outros municípios (Cantá, Bonfin, Normandia) onde há diversas terras indígenas e vai até a Guiana, foi em outro tempo, antes desta ponte, em 1968 que um projeto de ponte dos Wapichana se iniciou com a doação de uma criança indígena.
É nesta travessia que eu trabalho, interagindo com os meus parentes, a comunidade onde está nossa família, os artistas indígenas destes dois estados e também os que eu encontro no meio desse caminho, e muito temos a colaborar. A ponte Wapichana foi construída pela nossa nossa família.

Nessa ponte, na Macuxi e na Wapichana, já fui parado muitas vezes e questionado sobre ser índio de verdade? Veracidade, legitimidade. Apontação de dedos: “Sua história é de mentira”. “Você não é índio não, você come macarrão”. Na ponte dos Macuxis, em 2019, a polícia me interceptou enquanto eu dirigia um carro, fez bafômetro, eu e meus parentes Wapichana demos risada, estava tudo bem. Na ocasião, estávamos indo para um Parichara, na formatura de uma turma de estudantes indígenas.

Brincamos com a situação para não nos sentirmos constrangidos com a abordagem. Na ponte Wapichana, atravesso o marco de 33 anos de história para a sua inauguração (2001), quando re-encontramos nossos parentes. Leia-se: quando minha mãe re-encontrou minha avó, depois de três décadas. O fato é, que a arte indígena contemporânea, possibilita o trânsito nesta ponte, na ponte Wapichana.

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Foi por essa via também que eu e jaider esbell botamos de pé uma exposição no MUSA-UFPR, chamada Netos de Makunaimî. Encontros Makuchana, povos Makuxi e Wapixana trabalhando juntos, re-atualizando todo o histórico de conflitos entre estes povos de Roraima. Plantando sementes de Wazaká.

A ideia Makuchana já havia sido anunciada pela avó da minha mãe, antes mesmo de iniciar o tal projeto da ponte Wapichana. Não foi profecia, foi observação e consciência do seu lugar, nossa história, entendimento do contexto político nos anos 60 e das relações daquele tempo. No tempo de hoje, muitos netos makuchana estão por aí representando nossas cosmologias e o vovô Makunaimî. Acredito que há espaço para todos nós, e muitos outros parentes, nessa história. Cabem todos os netos e primos no abraço do vovô e da vovó, e as responsabilidades que o abraço implica.

Os choques de realidade são necessários neste trânsito Paraná-Roraima. Entender a história desta ponte é importante para observar os campos que ela conecta. Entender, por exemplo, que ela atravessa também a BR174 para conectar Boa Vista à Manaus. BR cheia de memória, quando percebemos o cruzamento com o caminho dos Waimiri-Atroari, aqueles que são sobreviventes de um extremo massacre e genocídio nos anos 70. Mesmo olhando da janelinha do ônibus, da janelinha do celular na live, ou plantando bananeira nessa via, essa história está ali marcada. O trânsito da ponte Wapichana nesta via, também.

Aprender sobre a ponte Wapichana é entender que ela é gente, ponte-gente, que minha mãe construiu com sua história de vida, no deslocamento do seu corpo Wapichana. Um deslocamento colonial-afetuoso. Entender que esta nossa história e minha mãe são sobreviventes. Sobreviventes de um povo e um lugar. Muita gente já morreu na construção de estradas, perdeu sua memória, muita gente indígena morre em BRs, com ataques, atropelamentos. As rodovias e pontes são estratégicas nos projetos de genocídio e apagamento da história.

Em nosso caso, a história vive. perdura. Por isso falo para os meus parentes que só o fato de conversamos, já estamos fazendo arte, criando. Criando mundos, possibilidades de existência indígena Wapichana e a troca de saberes com outros povos e isto não é ficção, metáfora. É realidade e arte indígena contemporânea.

Do mesmo modo que nossos parentes criaram marcos na história da academia: seja com Coudreau, Farage, Sirino, Grunberg e tantos outros. Pouco nos devolvem, presencialmente. São sábios, mas não sabiás, que cantam livremente. Por isso fazemos arte, por quê atravessamos a ponte da ciência acadêmica, nos alimentamos dela também. Colaboramos, mas temos, felizmente, a ponte dos Wapichana, a ponte com o povo Macuxi, e a possibilidade de nos encontrarmos dentro do sistema da arte indígena contemporânea e suas particularidades. As nossas particularidades.

Estamos na década da arte indígena contemporânea, que será celebrada, festejada, ritualizada em 2028, com o marco do centenário da obra de Mário de Andrade. Jaider Macuxi iniciou essa série de lançamentos em Roraima, depois veio até Curitiba e fizemos o lançamento juntos, com Lucilene Wapichana, Ana Elisa, Paula Berbert, e continuou os anúncios na Rádio Yandê, juntamente com Denilson Baniwa, Naine Terena e Daiara Tukano. O pássaro do bico preto e todo o público que estava interagindo neste bom papo-fogueira-virtual durante as ações do abril indígena 2020, sabe. A nossa quarentena lembra. 

Aproveito esta ocasião pra dizer: vamos trabalhar parente Wapichana. São muitas as pontes, muito trabalho a ser feito, trabalho de formiguinha. Seguimos nessa picada, entendendo quando mato é mato, gente é gente, respeitando o tempo e o espaço de cada um. Nos unamos e vamos trabalhar coletivamente, fazendo ajuri, caminhando, cantando, desenhando, conversando, falando. Boca boca boca boca boca boca do antepassado, antepresente, do presente, boca boca boca boca. Continuemos falando, não apagarão nossa memória.

Foto: Paula Berbert em mais um crime contra as árvores vovós do Paraná!

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